O Perfume da Felicidade está nos Menores Frascos

Foto de SnapbyThree MY via Unsplash

Eu não sou uma pessoa que viaja muito. Não sou. Mesmo sendo daquela geração que sonha em largar tudo e meter o pé na estrada, sempre fui apegado às minhas raízes, a minha cidade, a minha casa, ao meu quarto e assim por diante. Apesar disso, nas poucas vezes quando viajo, sempre dou valor as memórias e a vivência que eu tenho naquele local. Não me importo com fotografias e vídeos de viagem, essas porções de felicidade são para os olhos dos outros, não para os meus.

Minha felicidade está nas pequenas coisas que obtenho no local, um potinho de vidro com um adesivo de coelho me faz lembrar que passei a páscoa em Foz do Iguaçu pela segunda vez e, provavelmente, não vai ser a última. Como nos dois primeiros dias, o tempo estava feio, mas não chegou a chover. Então, o primeiro dia passamos praticamente todo no quarto e o doce daquele potinho era muito bom, metade chocolate preto, metade chocolate branco.

Uma foto na frente da piscina do hotel, ou até mesmo na frente das cataratas seria, apenas, isso na minha cabeça, um momento específico. Como somos seres visuais, quando temos o recurso da imagem não damos tanta atenção, pra não dizer nenhuma, e liberdade para nossa imaginação criar os cenários, imaginar a experiência e a vivência, mesmo que sejam as nossas. Que estejamos recordando os fatos, as imagens deixam tudo mais mecânico e artificial.

Não faria sentido tirar uma foto da garrafa plástica que tenho há uns 3 anos, pois ela não iria contar para ninguém da minha viagem pra Gramado com a minha ex. Por nenhum dos dois ter carro, conhecemos a maioria das atrações da cidade a pé e andamos uns 5 km por dia para passar por tudo que queríamos ver. Que fomos ao parque temático “Algum Lugar” (recomendo muito a visita), e por causa da bomba d’água que caiu, tivemos que ficar algumas horas lá e fizemos amizade com os funcionários, descobrimos alguns locais interessantes de lá e outras coisas do gênero. Mas olhar aquela garrafa de água, simples e sem graça, me remete a todas essas memórias e situações.

Um chaveiro no formato de uma Fender laranja é um dos símbolos mais importantes da formação do meu caráter. Sempre que eu vejo ele, quando abro uma das minhas gavetas, lá no fundo, eu vejo não um pedaço de metal pintado e resinado. Eu vejo o dia em que fui a Porto Alegre com meu pai, com uma nota de 10 reais, onde paramos em uma loja de música e eu comprei ele, o caixa me deu o troco a mais e eu, no auge da minha inocência dos 11~12 anos, disse que ele me deu a mais. O atendente não falou comigo, mas olhou para o meu pai e disse “Meus parabéns pela honestidade do teu filho, tenho poucos clientes assim”. O sorriso de orgulho do meu pai me fez decidir naquele momento que a honestidade é uma coisa boa e “não levar vantagem” vale a pena.

Entendo que existem pessoas que gostam de fotografias, que conseguem se sentir felizes e nostálgicas com as imagens do passado, mas os sorrisos nas fotos são posados muitas vezes; os momentos e as poses são montagens e composições especialmente criadas para aquele momento. Prefiro muito mais ficar com o meu sorriso sincero e discreto que só a garrafa plástica, um chaveiro ou um pote com adesivo de coelho podem me trazer.