Sobre o bracket chalenge e um primeiro round fora do óbvio

A primeira parte dos playoffs da Stanley Cup se encerrou com uma vitória do Carolina Hurricanes por 4 a 3 em Washington com direito a virada na segunda prorrogação do jogo 7. Hoje à noite começa a segunda rodada, uma segunda rodada que não terá sequer um campeão de divisão, nem mesmo algumas figuras carimbadas quebraram a barreira das quartas de final de conferência.

Boston Bruins e San Jose Sharks conseguiram passar de fase, esses dois times têm sido figuras frequentes na última década ou mais e não é surpresa alguma estarem onde estão. O St. Louis Blues de tempos em tempos aparece com um bom time e chega em fases mais avançadas pelo cálice sagrado do hóquei frequentemente, então não há nada de estranho aqui também, mesmo que muita gente esperasse o Winnipeg Jets avançando, mas sobre isso vou desenvolver melhor a diante.

Porém, olhando os outros classificados muitos têm uma sensação de surpresa, agradável ou não, ou espanto e não é tão estranho quanto parece. Tudo bem, existiram algumas séries que tiveram um final estranho realmente, muito mais por conta de como a série se desenvolveu do que o resultado, no entanto o surpreendente é esses acontecimentos ainda surpreenderem quem assiste ou comenta NHL.

É verdade que a pós-temporada desde a expansão de 1967 até mais ou menos 1990 costumava ser mais previsível, mas já fazem 26 anos (e 1 dia) do “May Day”, episódio em que o Buffalo Sabres venceu o jogo 4 da semifinal da Adams Division em 1993 com um gol de Brad May na prorrogação e decretou uma varrida sobre o favorito Boston Bruins. E de lá para cá tiveram tantas eliminações icônicas de times favoritos nas mãos de azarões que é esperado que isso aconteça, inclusive a imprevisibilidade criada na NHL nesse período é motivo de orgulho para muitos fãs.

Aí chegamos especificamente ao Bracket Challenge, o jogo em que você tenta adivinhar cada um dos vencedores de cada série dos playoffs até o campeão da temporada em troca da brincadeira e também de um prêmio de 100 mil dólares (restrito a residentes regular de alguns países e o Brasil infelizmente não está entre eles) para quem terminar em primeiro no ranking mundial. Esse ano a brincadeira acabou afundando com mais de 50% dos participantes na noite em que Blue Jackets e Penguins foram eliminados fazendo com que a NHL abrisse uma segunda chance em troca de outros prêmios.

Se você já me acompanha regularmente sabe mais ou menos o quanto eu previ bem os resultados da primeira rodada da Stanley Cup 2019. Na realidade fiz um belíssimo 7 a 1 errando apenas o San Jose Sharks, assunto o qual vou falar melhor depois. Sorte? Boa análise? Um pouco de cada, eu acho. Se já não sabe, aqui vai a imagem de meus palpites:

Para analisar melhor, vamos série a série como o sol, de leste para oeste, ignorando o número de jogos e fazendo um apanhado geral.

Tampa Bay Lightning vs Columbus Blue Jackets: “A maldição do Presidents Trophy ataca outra vez”, só que eu não acredito em maldição do Presidents Trophy. Sabe aquele jogo em dezembro que o time está voando para tentar reverter um 0 a 3 no terceiro período, consegue a virada e sai a manchete com uma bela foto nos sites e jornais? O preço disso é sempre cobrado entre abril e junho. As lesões doem mais, as pernas se cansam mais rapidamente, isso alinhado a uma virada incrível no jogo 1 e domínio de Columbus nos jogos 2 e 3 esgotou o Lightning mental e fisicamente. No jogo 4 o time de Tampa até tentou, mas era tarde de mais, uma terrível varrida sofrida pelo, discutivelmente, dono da melhor campanha da história da liga.

Por que eu apostei no Columbus Blue Jackets? Momento é tudo, enquanto o Lightning vinha num ritmo que misturava uma tentativa de se poupar fisicamente com perda de forças, o Blue Jackets teve que suar para chegar aqui e chegou em um ritmo melhor. Também, o desempenho do Tampa contra os times da divisão metropolitana não me parecia tão bom assim, esse segundo fator pesa muito mais do que muita gente imagina.

Boston Bruins vs Toronto Maple Leafs: Mais uma vez o Bruins eliminou o Maple Leafs, a terceira nessa década, mais uma vez o Leafs mostrou que precisa de menos afobação e mais calma para conseguir montar um time que vai ganhar a Stanley Cup, só não sei se alguém lá aprendeu isso lá. Não adianta você ter um grande ataque se sua defesa é muito contestável, especialmente quando se tem um time que sabe usar muito bem isso contra você pela frente.

Por que eu apostei no Boston Bruins? Boston ainda é melhor. Eu poderia parar aqui, mas para resumir tudo: Bruins tem um elenco mais completo, um goleiro melhor, um técnico que tem feito mais e mais experiência de playoffs, além disso, o match up favorecia completamente. Além de tudo isso, onde estava John Tavares? Por que Matthews, Marner e Nylander jogaram um pouco, mas ficaram devendo? Por que Mike Babcock gerenciou mal o time? Não sei as respostas para essas perguntas, mas fica o questionamento.

Washington Capitals vs Carolina Hurricanes: Como diz a música “Here I am, rock you like a Hurricane!”. Essa foi uma série interessante porque em momento algum parecia que o Capitals era o atual campeão da Stanley Cup, ou que tinha tanta experiência assim em pós-temporada. Cada um venceu três jogos em casa, e parecia que a escrita ia se manter no jogo 7, porém foi aí que a energia de um time junto a inoperância do outro acabou aparecendo. Muita gente duvidou do time mais jovem por justamente ser mais jovem, mas nunca ouviram falar do New Jersey Devils em 1994? Ou o já citado Buffalo Sabres de 1993? Talvez no Hurricanes de 2002, ou quem sabe o Pittsburgh Penguins de 2008?

Por que eu apostei no Carolina Hurricanes? De novo, momento, mas também eu ainda não acredito nesse elenco do Washington Capitals, eles venceram a Stanley Cup ano passado, mas eu não consigo ver segurança. O Hurricanes apareceu na pós-temporada vindo de uma luta para chegar até aqui, além disso, Washington tem um péssimo retrospecto dentro de casa em jogos 7 e imaginando que essa série chegaria até ali tudo apontava para Carolina.

New York Islanders vs Pittsburgh Penguins: Eu ainda não sei como o Penguins chegou aos playoffs, mas chegou de alguma forma e não em um bom momento. De qualquer modo, uma varrida não era o que eu esperava, parabéns ao Islanders por isso/essa vergonha será lembrada para sempre, Pens.

Por que eu apostei no New York Islanders? Como eu disse ali em cima, nem sei como o Penguins se classificou. O time de Long Island, por outro lado, veio muito bem na temporada regular e mesmo com um elenco não muito vistoso fez bonito. Barry Trotz é um gênio, Lou Lamoriello é outro gênio, essa parceria entre presidente e técnico só poderia dar certo e eu ficaria de olho nisso pelos próximos anos. “Ah, mas o Penguins tem Crosby, Malkin e companhia LTDA… ” isso não é mentira, mas também não é a primeira vez que eles dão vexame nos playoffs, só que nada foi tão feio quanto esse ano.

Calgary Flames vs Colorado Avalanche: Muitas vezes o tal do match up é o fator mais decisivo em um confronto. Além de hóquei no gelo eu acompanho muitos outros esportes e jogos e especialmente nos jogos o fator match up acaba praticamente definindo um confronto antes mesmo que ele aconteça. Não é o caso aqui, o jogo tem que ser vencido no gelo, mas acho que ajuda muito a entender um pouco da série. Eu acompanho de perto o cenário competitivo de Magic: The Gathering, um jogo de cartas lançado em 1993 que é pai de todo um gênero de jogos, lá existem formatos e estratégias diversas em que cada jogador vai ter um baralho de cartas de acordo com seu gosto (e as vezes orçamento) pessoal e vai tentar derrotas os adversários usando suas estratégias. Olhar para o confronto entre Calgary e Colorado era como ver um jogo de Esper Control contra Mono Blue Tempo em um torneio de formato standard, você não precisa saber os detalhes, só entender que o Esper Control é um baralho mais completo e forte normalmente, porém quando encontra um Mono Blue Tempo, um baralho mais simples, pela frente ele simplesmente tem grande desvantagem.

Por que eu apostei no Colorado Avalanche? Porque mesmo com um time não tão completo, o estilo de jogo me fazia acreditar que ele venceria a série. E eu estava certo nessa linha de pensamento, o Flames teve muita dificuldades em jogar contra Nathan MacKinnon e Mikko Rantanen, a criatividade, velocidade e habilidade deles, aliado a um bom jogo defensivo e boas atuações de Phillip Grubauer derrubaram o time de Calgary. Às vezes não é sobre o elenco ou campanhas em temporada regular, é simplesmente sobre pontos fortes e fracos de jogo.

San Jose Sharks vs Vegas Golden Knights: O sábio Tony Soprano uma vez perguntou: qual o uso de uma arma sem munições? Sempre esteja preparado, ou você vai se arrepender uma hora. Essa foi uma série de 7 jogos que um dos times não estava preparado para fechar e acabou tendo toda sua situação favorável revertida. O senso comum diz que o tempo dá sabedoria, mas isso não é tão verdade assim, e nem foi nessa série.

Por que eu apostei no Vegas Golden Knights? Eu imaginava que o Sharks não entraria tão bem na pós-temporada, e que Vegas estaria mais preparado esse ano após a histórica campanha da temporada passada. Eu quase estive certo, Golden Knights abriu 3 a 1 na série, mas não finalizou, Sharks conseguiu levar para o jogo 7. E de novo eu quase estive certo, estava 3 a 0 no terceiro tempo, mas aí veio a penalidade do Cody Eakin e a marcação estupidamente exagerada da arbitragem e o destino mudou. O Sharks atacou como um tubarão que sentiu o cheiro de sangue na água e em 4 minutos virou o jogo, Vegas ainda empatou e levou para a prorrogação. Mas no final, o San Jose Sharks venceu e se classificou, o Golden Knights não esteve pronto para fechar a série e isso permitiu a virada. Eu quase acertei, foi por minutos, mas o quase é errado da mesma forma.

Nashville Predators vs Dallas Stars: Mais um clássico caso de time que começou muito bem e perdeu forças contra um time que começou mal e ganhou forças. Esse roteiro é mais batido que Chaves na televisão brasileira, essa série gritava, brilhava, fedia, vibrava e tinha gosto de que terminaria como terminou. O Dallas Stars jogou abaixo do que poderia e deveria a maior parte da temporada regular, o Nashville Predators vinha com dificuldades para definir os jogos. O que poderia dar errado para Nashville?

Por que eu apostei no Dallas Stars? É um time ótimo que precisou de um puxão de orelha publico do dono, mesmo que de um modo bem errado, para começar a render o que podia. Por outro lado, o Predators vinha desgastado, com problemas táticos e sofrendo por falta de jogadores mais decisivos no ataque. Dallas vencer essa série estava na cara desde o primeiro momento, mesmo que do outro lado o adversário viesse de um título de divisão, título esse que o time talvez nem merecesse. Um time em bom momento, outro em mal, o final tinha tudo para ser uma vitória do time em bom momento e assim foi.

Winnipeg Jets vs St. Louis Blues: Essa série era uma das mais imprevisíveis de se prever, os times terminaram a temporada regular em pé de igualdade e suas posições foram definidas nos critérios de desempate. Só que novamente o tal do momento entrou em ação e pesou nessa série, um time estava em melhor momento, tanto que era um dos melhores da liga no último mês, o outro não.

Por que eu apostei no St. Louis Blues? Momento e também o fator que o time vinha muito bem nos jogos fora de casa, como a série provavelmente teria mais jogos em Winnipeg que St. Louis, era um fator decisivo na hora de imaginar quem venceria a série. Tanto que nos 6 jogos o mandante venceu apenas uma vez, foi justamente no jogo 6, o que definiu a série. O Blues dominou em Winnipeg e foi dominado em casa nos jogos 3 e 4, mas no jogo 6 o time usou o bom momento para fechar a série. Mesmo com um bom time, o Jets não conseguia mostrar bons jogos há algum tempo, o Blues, por outro lado, vinha realizando boas e ótimas partidas nos últimos momentos de temporada regular. Como diria B.B. King: how blue can you get?

Conclusão: É tudo match up e momento, ou quase isso. Esses dois fatores importam muito na disputa dos playoffs da NHL, quando você pega um adversário que tem um jogo desfavorável ao seu não importa muito, você vai penar ou ser eliminado. Não importa o que você fez na temporada regular, seus recordes não entram no gelo para marcar gols ou bloquear um disparo, eles são números que contam uma parte da história e nada além disso. Se seu rendimento vem na descendente e o do adversário na ascendente, você terá maus momentos.

Os playoffs da NHL são cruéis e vão cobrar cada gota de sangue e suor de quem os disputa, o time que vence a Stanley Cup é sempre aquele que está disposto e consegue dar tudo de si e mais um pouco, e muitas vezes isso ainda não é o suficiente. Por um lado é difícil prever, por outro você consegue perceber certos padrões e conseguir visualizar o que tem maior probabilidade de acontecer, afinal são apenas palpites de nossa parte. Essa é a grande graça quando os 16 classificados entram no gelo tentando manter o sonho de erguer o Graal do hóquei no gelo.

Não é sobre acertar ou errar, é sobre encontrar os caminhos para entender e prever o que vem pela frente. Seja brincando no Bracket Challenge ou no gelo jogando a série, o importante é tentar encontrar todos os aspectos e conseguir criar um meio de usa-los ao seu favor.