De uma condição para outra

Aquele corpo, que já não é mais o meu, transcorre vielas se escondendo nas paredes. Aquele tijolo seis furos, deixado de lado, na ponta da construção depois de um dia de carregamentos e suor, serve somente pra esconder a encomenda. Recolho em cada furo um lugarzinho para os últimos trocados que podem salvar a estadia mundana. Me dirijo pra construção inacabada como casa pré-moldada daquilo que nunca tive.
Essa velha construção, dizem que é do tempo do bnh, eu acompanho como se os olhos estivessem voltados para a Meca. São lajotas sagradas, cheias de mistério e invenção dos homens. Paredes alargadas por uma superioridade universal que resolvi tomar como minha. Aquele deus revestido no mofo do primeiro andar serve como manto da ressureição. Oro, com a saia servindo de véu, pelo oco da cabeça se converter em fé. Como se o norte inventado fosse medido pela circunferência da toca de um tatu. Quanto mais profundo, quanto mais aberto, ali me ajoelho nas gotas que pingam durante décadas. Essa construção é minha porção de lugar cósmico, com uma fundação orgânica, natural e prestes a desmoronar.
Buracos. Furos. Ruína.
Sou resumido a isso. Já não faço jus ao corpo da juventude, e o que sobram são olhares recortados pelas cortinas floreadas da dona de casa. Que é irmã, mas me enxerga pelo avesso. Desde o meu lugar sagrado, vejo essas outras habitações. Invejo suas janelas em ferro acinzentado, seus acabamentos falhados com gesso respingado, suas portas carcomidas pelo mijo dos cachorros. Não sinto e não enxergo vida embaixo desses tetos.
Há algo de mecânico nesse jardim.
Aquele corpo, que já não é mais o meu, transfere as inquietudes pra quando o universo é silêncio. Anoitecer o peito é revirar o sol que um dia me aqueceu. Engulo o silêncio por saber que os gritos me são consignados perante um comedido vocabulário. Onde xingar é a principal ação. Pensar? Isso só consigo entre os tijolos, fuçando nos furos pra limpar meu utensílio milagroso. Somente entre as lajotas úmidas que me transfere doenças que servem pra curar o corpo. Porque assim não dirijo mais as palavras nômades que eu tanto quis viver. Amor, Carinho, Confiança, Casa. Nenhuma delas se materializou. Ninguém surgiu pra ser a segunda voz nessa canção — até se surgisse algum solista não me prenderia nessa hierarquia. Ninguém rumou ao meu encontro pra acabar essa ruína e criar um lar com portas carcomidas, acabamento mal feito e janelas acinzentadas. Me coube a solidão — algo tão firme quanto essa construção abandonada, uma sensação bem fundada com barro, areia e cimento esfarelado. Tudo amontado e enrijecido que fez dessa sensação algo mais que concreto. Algo concreto que respiro, toco e me visto. O corpo que não é mais meu, só sabe lamentar tantas construções abandonas como eu.
O tronco, que fica ao fundo da construção — aquele pelourinho natural — serve de trabalho e descanso. Onde se ganha o pão, não se come a carne. E quando o pão é a carne? E quando ganhar é comer? Não sei, as perguntas sempre me atrapalham.
Quem atesta o meu sexo se constrange. Quem se pergunta sobre mim também se atrapalha com os questionamentos. Quem sabe, se complicam ainda mais com as dúvidas.
Aquele corpo, que já não é mais o meu, se transveste em forma de dúvida. Classificar não é o melhor caminho, recomendo. Quantas questões jogadas pela brincadeira curiosa de reconhecer um corpo estranho.
Estranho. Furado. Machucado. Duvidoso.
Nem tudo é cópia nesse bairro. Temos janelas decoradas com negras em barro, sorrindo, estáticas, floridas e graciosas. São as únicas que me encaram. Poder mirar profundamente um olho me deixou encabulado, não mais sabia o que era isso. Não é por nada que chamam elas de namoradeiras.
Aquele corpo, que já não é mais o meu, transporta algo de novo em todo momento. Reinvenção daquele ser que não me deixaram criar. Caducidade de quem não soube esperar.
Do topo eu já vejo todo o mapa do meu corpo pontuando a cidade, criado em vielas, enumerando ruas, abrindo avenidas, duvidando da implicação de existir.
