O filho da nação

via Erik Thor Sandberg

Ele se apresentava sempre com o sobrenome. Algo como crachá, como identificador primeiro, antes mesmo que seu semblante limpo e bem cuidado. Completava o sobrenome com o reconfortante sorriso e a extensão de uma delicada, branca, e lisa mão. Se tornou um símbolo imponente dentro do mundo que ele mesmo criou. Minto, na verdade criaram para ele porque aquele universo era uma constituição de uma dinastia poderosa, de séculos, de um esforço sobre-humano…e suburbano também. Deliciava-se em coquetéis, frequentava uma roda viva que simplificava o complexo vivido por todos que adoravam o ritual. Índios e aborígenes preferiam dedicar tais festividades aos deuses, ele e sua geração criou deuses de plástico e de fácil retenção espiritual.

Aparentemente ele nasceu com aquele terno e camisa, a gravata não, a gravata era um utensílio que deixava no bolso para não aparentar certa promiscuidade com o poder. Utilizava a caneta herdada do avô com o mesma pontuação na qual o velho utilizava para assinar despejos e criar a pobreza da região. 
É bonito, com ventas marcadas e lustroso, o que atrai sempre fêmeas e machos de seu porte e interesse. É um galante, um cavalo de raça em plena competição, ele desafia e vence, pois nasceu com essa pecha. Mimado, como um bom filho, sempre teve o defeito de ser talhado como especial e único dentro da humanidade.

Conserva na sua mesa a sua imagem e semelhança, um retrato, com molduras douradas, que enfeita o seu escritório que era conjugado com seu pai. Uma foto que é renovada a cada ano, os grandes executivos utilizam fotos familiares, que ao ponto que a vida passa o porta-retrato vai criando graus de distância conforme a relação com a amante, a gravidez da caçula e com a afirmação homossexual do filho. Ele não se utiliza disso. Ele sabe que a família é um antro de decepção, ele confia somente em seu horizonte que está pintado ao fundo na fotografia. O aspecto de natureza morta não lhe deixa dúvida, viu no catálogo comprado na promoção da alta cultura de happy hour.

Alarde com passos firmes e uma lábia trabalhada no poderoso e corretíssimo português, sem esquecer a sua vocação ao sucesso. Pois imprime um microfone, destila perguntas, funda o mesmo texto padronizado e fosco com a realidade em sua volta. Que aos poucos ele consegue quebrar essa barragem ao estender a mão ao despejado, quer ouvi-lo, quer entendê-lo, quer se valer de sua verdade. E após limpa na manga a pegajosa estória, dá-se tapas nas calças e camiseta. Não quer carregar nada, não aquele pó, aquilo já é demais para o mundo que ele escolheu levar pelo bolso. A carga das costas passa longe daquele ponto fraco chamado vila, favela, ruela, buraco quente. Assim endossa novas histórias para novos coquetéis. É imperial na atenção e ganha todas as ressalvas de um herói que foi para guerra, viu morrer companheiros, se acovardou em tocaias, urinou-se, chorou puxando o saco do inimigo, se omitiu da culpa, mas voltou com vida e ganha honras militares.

Ele faz parte de uma canalhice vigente que deixou de ser comportamento pessoal para se tornar um evento social. É um grande homem, está no status dos influenciáveis, é uma boca desdentada que utiliza na rua uma dentadura talhada no ouro. É um esfrega mercantil entre suas mulheres, lhe cai muito bem, mas faz parte de uma classe média que se conforta somente na escuridão da noite, pelos cantos, com desconhecidos, com jovens de ruas que precisam comer. Ele come e é comido pela vontade, pela paixão que lhe deixa inchado, ama-se como travesti, mas sempre é o homem moço de boa família que trará novas influências. É o pior tipo de canalha.

Filho do sucesso…de alguém que não ascendeu na promessa presidencial de carros aos filhos da nação. Ele é o espelho para essa nação. Sobreviveu, conheceu passeatas e agora pede intervenção militar. Virou irmão do povo, mas o irmão desgostoso daquela vidinha. Reclama, enche a boca contra corruptos, chora ao ouvir mazelas sociais, explica-se com teóricos europeus da moda para explicar o brasileiro. É másculo e forte contra as mulheres, é viril e sádico com crianças. Defende a práticas subalternas dentro do que chama de jornalismo, escreve em blocos aveludados, mas prefere seu utilitário tecnológico. Tornou-se parte do poder que sempre quis e adentra uma zona de realeza que marca a decadência da geração. “Houve alguma coisa que rompeu”.