O incômodo

Por: Xia Zhenkai

Esses dias de papel em som, de sol pelo café, de ruído fosco, de armadura silenciada, de duplicidades aleatórias, em que todos imitam uma ilimitabilidade liberta, Alberto se limitava ao incômodo.

Nunca foi uma figura “leve”, de expressões doces, de afagos gratuitos, virou simplesmente a rocha que o velho pai lhe impôs como mordaça. Alberto subiu no cadafalso, e o carrasco puxou com a mão da tradição familiar. Uma morte indolor, sem fazer sujeira, nem cara feia, — digamos até que existiu um certo gozo — e a mortalha dessa encenação só ele pensa carregar. Não mais o velho pai, não mais o carrasco, não mais a tradição familiar, o que está enlameando a sua cruz é o sangue de outra persona.

Alberto adoece muito facilmente. Vírus, herpes, dores, tosses, calafrios, inchaços… Esse homem se tornou um imã do descompasso corpóreo. Ao invés de procurar especialistas, seguir na fila do hospital, renega o placebo e volta ao cadafalso. Suas costas, com ranhuras que parecem fendas, desmistifica esse homem que despreza a dor. Antes as unhas grandes eram para o violão, agora a dedicação única e exclusiva dos arpejos é manutenir as covas nas costas. Se tivesse amigos eles diriam que eram marcas de uma noite selvagem, como não tem amigos, nem noites selvagens, se dilacera pelo sangue em formato de correnteza que é desenhado na camisa. Lavra, escorre, cansa e adormece. A força da vida contra-ataca como lição poética, como o sono estético de uma galho caído. Nela está sua inviabilidade cósmica, nela está a torrente espiral de sentidos e respostas, formando um redemoinho nas fendas. Pela noite, geralmente mal dormida, ele sente a formação desse redemoinho, e com a sua força se deixa levar ao fundo — não se debate, nem luta — sente o puxão, e pela primeira vez tira o peso do corpo. Para depois ser cuspido com a mesma força para fora, sem ar, sem sono, acordando atrasado, ignorando os sentidos. Sentindo um peixe-espada saindo por suas costas, nadando rápido, deixando comichões, saltando a cada osso ardido pelas fendas. Grande oceano de polos sem orientação, de formosuras que engasgam e matam.

O sonolento Alberto desde pequeno tem essa sensação de ter algo saindo de si, especificamente animais. Sentia no seu pau, quando ainda era virgem, uma força lhe rasgando como uma pedra de rim. Ratos lhe saiam, corriam pela casa, e ele chorando saía para brincar. Também houve uma vez que entre a carne e a unha do dedo do pé mariposas buscavam luz, e ele somente mordia os lábios se segurando no sofá — não lutava, não se debatia, como na mesma água serena de sempre. Outra vez, quando ainda era casado, tocou em sua coxa que se abria em formato de corvo, com asa quebrada, com sangue no bico, com flores no pé. Alberto ria-se, não pensava na dor, sentia-se como um zoológico andante que não conseguia fechar. Cercava-se dos seus animais, e contava histórias até amanhecer.

Entre dias e noites, Alberto olha quem passa pela rua de manhã. Avesso aos exercícios, se fixa somente na fumaça do cigarro para ter motivo para sair de casa, e vê, e sente as mesma dores criarem erupções na pele. Disforme. Purulento. Cigarro acesso entre os dedos. Fumaça disparada como tiros na latinha quando ele tinha cinco anos, alçada ao ar como os beijos que ele treinava na laranja quando era adolescente, fixa e mortífera no coração como o único adeus que se lembra —o do pai.

Alberto sai, e se incomoda por não ser nem carrasco, e nem pai. Se incomoda com uma percepção, que ele anota na mão, e escreve: de onde ou desde?

O ponto de partida não importa mais, ele está subjugado, por não transitar saudavelmente, por não respeitar a tradição familiar, por renegar o pai, e por ser carrasco de si mesmo. Numa morte que não é nem redenção, e nem fim, é somente cotidiano.

“Alberto era bom demais…”