HQ da vida #09 LGBTTs: Super Prefeita

Descrição da imagem: Foto de Samara Braga com uma grande flor vermelha na orelha esquerda e de olhos fechados. Ela está de perfil, mostrando o ombro esquerdo. A iluminação indica que ela está de baixo de uma árvore que deixa passar a luz pelas folhas. A imagem tem um filtro que a faz parecer uma ilustração de história em quadrinhos. No canto superior direito, o logo do “HQ da Vida”. Na parte inferior esquerda, uma faixa azul com o número e nome do episódio: #09, Super Prefeita.

Nesse maravilhoso episódio do HQ da vida, contamos a história da Samara Braga. Nesse bate papo podemos conversar sobre as candidaturas trans pelo país e suas repercussões.

Indicação de livro:

Over The Rainbow — Um Livro de Contos de Fadxs

Lacombe,Milly; Fox, Lorelay; Plotegher Jr.,Renato; Santini, Maicon; Bressanim, Eduardo

Agradecimentos:

André Lacerda — Edição de áudio

Créditos: Músicas: Christophe Heral, Billy Martin e Pegboard Nerds.

NOSSOS LINKS

· Fale conosco pelo email hqdavida@gmail.com

· HQ da Vida no Facebook

· HQ da Vida no Twitter

· HQ da Vida no Sound Cloud

· HQ da Vida no Youtube

· HQ da Vida no Medium, com as transcrições dos episódios

· Assine nosso feed aqui

· Ou no iTunes aqui

TRANSCRIÇÃO DO ÁUDIO

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

TRANSCRIÇÃO — HQ da vida #09 LGBTTs: Super Prefeita

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

Dan: Olá, pessoal. Aqui é Dan Carreiro.

Sidney: E eu sou Sidney Andrade (Dan ri).

Dan: Estamos com o nosso nono HQ da Vida. Esse é um podcast…

Sidney: O que tu tá rindo, viado?

Dan (rindo mais): Eu tô rindo porque eu coloquei aqui no roteiro, “IS Sidney Andrade”, eu errei. Mas deixa (Sidney ri). Então, pessoal, esse é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias. Nessa primeira temporada, iremos mostrar pra vocês histórias de super LGBTs. Espero que vocês curtam, compartilhem, nos deem críticas sobre o programa. O seu feedback é muito importante para nós. Então, Sid, diga aí como os ouvintes poderão entrar em contato conosco.

Sidney: Vamos lá. Vocês já tão cansados de me ouvir falar isso, né. (ele ri). Mas vamos às redes. No Facebook, você encontra a gente em facebook.com/hqdavida; No Twitter, é no @hqdavida; Você pode também enviar emails pra nós, no hqdavida@gmail.com; a gente tem o canal do Youtube, que você pode assinar lá, procurando por “HQ da Vida Podcast”; não esqueça de ir lá no iTunes e dar nossas 5 estrelinhas, pra que a gente, né, brilhe muito no iTunes. Né, Danilo? E também, agora a gente tem uma novidade aí, é?

Dan: O Medium.

Sidney: Não acredito!

Dan: @hqdavida; siga a gente lá também, pessoal.

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: Então, nossa convidada do dia é a Samara Braga. Quem é a Samara, Sid?

Sidney: A Samara, ela foi candidata a prefeita na cidade de alagoinhas, no estado da Bahia.

Dan: Ela é candidata pelo partido PSOL. Né, Samara?

Samara: Meu nome é Samara, sou uma mulher, negra, transexual. Na verdade, eu prefiro usar o termo transgênero. Sou de Alagoinhas, Bahia. Tenho 33 anos de idade e, recentemente, eu fui candidata a prefeita na minha cidade, pelo PSOL. Sou cabeleireira, né. NO momento, estou parada, estou sem condições de trabalhar no momento. E é isso (ela solta um risinho).

Dan: É da cidade de Alagoinhas, né, Samara?

Samara: É, Alagoinhas, Bahia.

Sidney: Alagoinhas fica longe de Salvador, Samara?

Samara: Não, Alagoinhas fica há cerca de duas horas e meia de Salvador, de ônibus. De carro, dá pra fazer em uma hora e meia, duas horas.

Sidney: No caso, você nasceu aí?

Samara: Não, eu nasci em Salvador, em 1983. Me mudei pra Alagoinhas há 12 anos. Vim pra alagoinhas pra cursar Licenciatura em Ciências Biológicas pela UNEB, e de lá pra cá, acabei ficando, né. Acabei não podendo concluir o curso, na época, porque comecei a passar dificuldades severas mesmo. Passei por situações que prefiro nem me lembrar mais, né, atualmente. Mas foram momentos muito difíceis que me obrigaram, na época, a tentar trancar, né, o curso. Infelizmente, não foi possível. Acabei tendo que sair, realmente.

Dan: Para os ouvintes que vão ouvir esse programa da Samara, esse programa, na verdade, a gente já chegou a gravar anteriormente, né, Samara, e foi logo após as eleições. Se eu não me engano, a gente conversou no próprio dia… Entre o dia 31 e o dia 03 de novembro, eu não lembro. Eu acredito que não…

Samara: Eu lembro que foi pouco tempo depois das eleições.

Dan: Do primeiro turno, eu acho, né.

Samara: É, aqui só tem um turno.

Dan: É, no caso, agora que eu lembrei. E esse programa foi gravado e, infelizmente, por questões técnicas, a gente não conseguiu jogar o programa ao ar. O áudio não ficou bom, ficou cortado, mas enfim. A Samara, com todo esse amor aí, paciência, ela aceitou gravar de novo conosco. E aí, vocês vão poder curtir a história da Samara. Mas então, pessoal, ela foi candidata a prefeita da cidade de Alagoinhas. A cidade de Alagoinhas é uma cidade com, se eu não me engano, cento e poucos mil habitantes, né? Uns 120 mil habitantes, mais ou menos…

Samara: Tá na faixa de 200 mil habitantes.

Dan: 200 mil, né.

Samara: É, aproximadamente.

Dan: E ela foi candidata pelo PSOL. E eu conheci a Samara, tive notícia da Samara pelo site do Neto Lucon, que ele falou de algumas candidaturas trans. E aí, dentre as várias pessoas, Tem a Luiza Coppieters, tem a Indianara Siqueira.

Samara: Maravilhosa.

Dan: Maravilhosa… Inclusive, logo após essa gravação, esses dias, três semanas atrás, parece que ela foi atacada, né.

Samara: Sim, foi…

Dan: Não sei se você tá sabendo…

Samara: Na verdade, Indianara preocupa bastante… Nós nos preocupamos bastante com relação à nossa amiga e companheira Indianara, porque não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que ela vem sofrendo ataques. São constantes os ataques que ela vem sofrendo, e não apenas ela. Luiza coppieters também passou por situações complicadíssimas, né, perseguições. E eu acredito que isso não seja fato isolado, né. Várias das nossas meninas, com certeza, estão passando por situações parecidas. Afinal de contas, a transfobia existe, e não podemos ignorar isso, né. Isso é um fato alarmante, preocupante. Sabemos que nosso país lidera o ranking mundial no assassinato da população transgênero, né. E isso é alarmante, é um dado que, realmente, é preocupante e nós precisamos lutar pra mudar essa realidade. E não vai ser fácil, pelo visto.

Dan: Inclusive, você falando que estamos no ranking de pessoas do país que mais mata transexuais, ao mesmo tempo, é o país que mais acessa o XVideos com a palavra “travesti” e “trans”. Olha que…

Samara: Pra você ver, né.

Dan: Dicotomia, né.

Samara: É, exato. Uma dicotomia, né, que a gente não consegue compreender. A… como é que eu posso falar… Incoerência, né, das coisas. Isso é um retrato da hipocrisia, realmente, que existe na nossa sociedade. O brasileiro… Infelizmente, na nossa sociedade brasileira, tem essa hipocrisia, né. Eu não gostaria de estar usando esse tom, porque fica soando como algo muito agressivo, mas, infelizmente, às vezes, precisamos ser um pouco incisivos nas palavras. Porque é hipocrisia, pura e simples, né. A pessoa… como é que posso dizer… Entre quatro paredes, às escondidas, elas gostam. Mas perante a sociedade, elas repudiam aquilo. E muitos, inclusive, que se interessam, até mesmo se relacionam com pessoas como nós, justamente acabam, depois do ato em si, agredindo fisicamente e, muitas vezes, até mesmo ceifando as vidas de muitas dessas garotas, né, principalmente as que trabalham com sexo.

Sidney: É triste e é revoltante, né.

Samara: É, é revoltante, com certeza.

Dan: Oh, Samara, no caso, você filiou-se ao PSOL, como funcionou essa questão dessa filiação até chegar a essa candidatura a prefeita?

Samara: Bom, foi assim. Seguinte, o PSOL é um partido que é novo, né, recente. Um partido jovem. Eu não havia ouvido falar do PSOL até uns poucos anos atrás. Quando foi lá pelo ano de 2012, 2013, eu comecei a ouvir falar do PSOL e procurei saber o que realmente era o PSOL, o que ele representava, o que esse partido busca, quais são as bandeiras que defende, qual é o comprometimento, realmente, na defesa das bandeiras, qual o grau de relevância que ele dá para todas elas. E realmente procurei ver a idoneidade do partido, né. Porque, até então, a gente não tem nada diretamente que possa colocar o PSOL em comparação com esses partidos que existem aí. Porque o PSOL não se envolve com determinados escândalos que a gente vê, é, escândalos de corrupção, outras coisas mais. Eu procurei um partido que fosse limpo, que fosse realmente… Que defendia as causas sociais com seriedade. E já estava desiludida, na verdade, essa época política, porque eu, durante muitos anos da minha vida, na realidade, a maior parte da minha vida eu sempre fui PTista, né. Então, eu acreditava nos ideais que o PT defendia. Não acreditava, eu acredito nos ideais socialistas, né. E o PT, àquela época, era o partido socialista, por assim dizer. Só que, infelizmente, ele foi se rendendo à lógica do Capital, se rendendo à elite, por assim dizer, e acabou se desvirtuando, perdendo completamente o seu propósito. E fiquei desiludida com a política durante muito tempo, até ouvir falar do PSOL. Então, quando foi no ano passado, eu resolvi me filiar ao partido, né, em 2015, porque eu já queria entrar para o partido, primeiramente como militante, obviamente, mas já tinha o intuito de fazer a diferença, né. Eu buscava fazer a diferença. Algo que, infelizmente, nós não costumamos ver com muita frequência isso, né. Muita gente, quando entra pra política, só entra pra política com o intuito do enriquecimento pessoal. Não foi essa a minha intenção, né, realmente eu não aguentava mais ver as injustiças, né, e a sociedade, principalmente… A sociedade, quando eu digo, são justamente as minorias, né, os pobres, os negros, as mulheres, a população LGBT e, em especial, a população trans. As inúmeras violências às quais nós somos submetidos no dia a dia, né,. Quando eu falo violência, eu não falo só física, eu falo em todos os quesitos, né. A violência emocional, a violência moral, o desemprego, a falta de acesso à saúde, à educação de qualidade, tudo isso é uma violência que é cometida contra nós. E eu queria, justamente, entrar na política pra fazer a minha parte nessa luta contra essas opressões que nos atingem, né, diariamente. E foi aí que eu resolvi. A priori, eu pretendia entrar me candidatando ao legislativo. Só que isso não traria o grau de importância que nós buscamos na nossa luta aqui na cidade. Nosso partido precisava, também, de certa forma, se fazer enxergar pela população. Que até então, embora o PSOL já existisse em minha cidade há 10 anos, pouca gente conhecia o nosso partido. Então, se não tivéssemos uma candidatura majoritária, nós não teríamos como levar à população as nossas propostas, né. O que nós realmente buscamos trazer de melhorias, de mudança realmente, pra realidade da nossa cidade. Então, decidimos… Claro que foi uma decisão conjunta, né. Não foi uma decisão pessoal apenas minha, porque no nosso partido as decisões são sempre no coletivo. Então, decidimos que seria a melhor forma de trazer as nossas propostas pra população. Pois somos um partido pequeno e precisávamos nos fazer ouvir de alguma forma, né. Infelizmente, houve essa reforma política terrível, né, nas regras. Essa reforma eleitoral foi péssima porque tirou, de certa forma, a voz dos partidos menores. Mas, graças a deus, aqui em Alagoinhas, a mídia, principalmente as rádios aqui, resolveram abrir esse espaço pra que todos nós pudéssemos competir em pé de igualdade, com entrevistas, com debates constantes. Isso foi muito importante pra que a população começasse a nos conhecer e entender que nós realmente propomos pra sociedade, né. Claro, infelizmente, não foi dessa vez, mas a luta vai continuar. Nós não desistimos…

Sidney: Você concorreu com quantos outros candidatos a prefeito, Samara?

Samara: Com mais cinco candidatos.

Sidney: Eu queria saber se, durante a campanha, teve alguma experiência, assim, até… Porque a gente sabe que tem debates, e entraves durante as campanhas, e se o fato de você ser uma mulher transexual chegou a ser um ponto de conflito com relação a essa campanha. Se você sofreu algum preconceito… Que eu acho que, provavelmente, sim, né, infelizmente… Mas como foi essa experiência,né?

Samara: Olha, por incrível que pareça (ela ri), pra mim foi uma surpresa enorme, positiva, até. Não houve nenhuma forma de desrespeito por parte dos outros candidatos, né, em relação ao preconceito em si. Não teve, pelo contrário, todo período eleitoral transcorreu de maneira tranquila aqui. Houve, sim, embates, mas não comigo, né. Houve entre dois candidatos que, na realidade, estavam competindo entre si, mas faziam parte da mesma panelinha, né. Inclusive, foi um deles que ganhou agora. E uma das candidatas, a única mulher além de mim, que era candidata a prefeita, que era a candidata do atual prefeito, que ainda tá em exercício, ela simplesmente fugiu de todos os debates. Ela participou do primeiro, e no segundo, no meio do debate, ela abandonou e não participou de mais nenhum debate. Mas, no geral, todos os debates transcorreram na mais perfeita ordem, sem ataques pessoais, graças a deus, sem baixaria.

Sidney: Nossa, como é bom tá enganado, então. Ainda bem que eu me enganei, então, né (Samara ri).

Samara: É, graças a deus, me respeitaram bastante, né. Bastante cordialidade. Claro, né, sabemos que ninguém vai querer se queimar a ponto de criar um conflito a respeito disso. Só teve, assim, uma certa resistência de um dos candidatos, por ele ser de um partido Cristão, o partido de Bolsonaro e companhia. Mas, mesmo ele, defendendo suas teses, né, contra a questão de gênero e sexualidade nas escolas, né…

Sidney: A ideologia, né, que eles chamam…

Samara: É, a questão da tal ideologia de gênero, como eles costumam falar. Mas, fora isso, pessoalmente, ele sempre me respeitou, sabe. Divergimos nesse ponto. Mas no resto, foi muito tranquilo.

Dan: Hum, que bom. Falar nisso, você, no caso, dentro do próprio partido, também não houveram objeções… Um embate, assim, pra poder fazer o lançamento da candidatura? Como que funcionou isso, da sua relação com o PSOL, assim, esses primeiros contatos?

Samara: É, teve realmente uma pequena resistência da parte de alguns, né, porque, a priori, éramos dois pré candidatos do partido, né. Havia um outro, né, o nome dele era… Não sei se eu posso falar aqui. Raimundo Barreto. Seria Raimundo Barreto e eu os pré candidatos, né. Claro que havia uns que queriam que fosse ele, e havia os que queriam que fosse eu, né. Mas, no final das contas, eu acabei vencendo essa disputa e fiquei como a candidata oficial, né. Na verdade, houve a desistência do próprio Raimundo Barreto. Então, eu acabei ficando como candidata oficial do partido.

Dan: Entendi. Eu acredito que talvez não tenha problema nenhum em falar o nome, porque não falamos nada, assim, de difamar, nem…

Samara: Não, não, de forma alguma. Pelo contrário. Desculpe, mas pelo contrário. Eu tenho, sempre tive uma relação cordial e tranquila. No que diz respeito a ele, nunca tivemos nenhum atrito.

Dan: Parece que, assim, o lançamento de um candidato a prefeito por um determinado partido ou legenda tem a ver, também, com uma questão estratégica, qual o momento que o partido vive, e talvez você represente muito o que o partido deseja, que o PSOL deseja e tentou fazer nessas eleições, com tantas candidaturas trans, por exemplo, né. Que eu, sinceramente, antigamente a gente nem ouvia falar isso, né. Eu conheço um caso de uma vereadora. Se eu não me engano, é do estado da Bahia também. Inclusive, ela sofreu transfobia pra caramba, eu cheguei a conversar sobre ela no episódio que eu conversei com a Alex Goering. Aí, nós falamos sobre essa candidata a vereadora, que sofreu muita transfobia, eu não lembro mais dela…

Samara: Você tá falando como candidata de agora, ou A Vereadora Léo Kret que você ta falando?

Dan: Ela já era vereadora anteriormente, antes de 2016…

Samara: Então, deve ser Léo Kret. Léo Kret.

Dan: Ah! Ela foi eleita em 2012…

Samara: Exato, exato. Léo Kret. Léo Kret da Bahia! (ela solta um risinho). Super conhecida, figura muito querida…

Dan: É da Bahia?

Samara: é. Ela é uma figura bastante conhecida porque ela já vivia no meio artístico, né. Então, foi bem fácil, pelo fato dela já ser conhecida, e tal, uma pessoa carismática, que todo mundo ama, todo mundo gosta. E ela ganhou, né. Ela se candidatou a vereadora na época, ganhou. Mas, infelizmente, é verdade, sofreu preconceito depois, de muita gente. Infelizmente.

Dan: Além de trans, ela é negra. Então, ela sofre duas opressões, no caso.

Samara: Com certeza.

Dan: Tem essa… como que é… junção de opressões que acaba complicando um pouco a vida.

Samara: Ela ainda tá em um partido que, né… Infelizmente, sabemos que a pauta LGBT não é a pauta principal. É um partido que, às vezes, usa a questão LGBT mais como moeda de troca, algo do tipo, né. Ela teve a infelicidade de cair num partido errado, né. Mas porque, sei lá, ela tem boas relações com ACM Neto, essas coisas todas. Talvez, se ela tivesse escolhido um partido como o PSOL, que é mais engajado nessa luta pelas questões LGBT, ela tivesse conseguido ainda fazer algo a mais. Porque o PSOL realmente leva a sério essas pautas.

Dan: Acredito que talvez um partido que represente a população, tanto LGBT, quanto população trans, hoje, é somente, no caso, o PSOL, que eu saiba. Não sei se os outros partidos têm essa abertura possível pra poder receber uma pessoa LGBT de qualquer natureza, trans, lésbica, gay… Gays até que tem, passa muito. Mas eu acho que trans, por exemplo, e assumir uma pauta séria de levar isso pra frente, eu nunca ouvi falar. Não sei se você…

Samara: É, mas de fato, eu quero acreditar que os partidos realmente estão começando a se interessar em tratar disso com mais seriedade, né. Os partidos de esquerda, né. Mas, realmente, até o momento, só posso afirmar que o PSOL, né. Os outros podem até estar tentando, né, se adequar. Eu acredito, sim, que haja um interesse. Mas aquela questão, o PSOL já nasceu assim. É completamente diferente dos partidos que já existem quererem incorporar essa luta, entendeu. O PSOL já nasceu defendendo essa pauta, né.

Dan: É, tem isso também. E voltando à questão de opressões, Samara, eu gostaria que, para que o ouvinte entendesse um pouco como que é a sua história, como que se deu essa saída sua de Salvador. Mas antes, eu gostaria que você falasse um pouquinho pra gente da sua infância, na escola, como que eram suas relações na escola, se você tinha problema, se estudar foi um grande desafio. Porque a gente percebe que muitas trans não formam, mas não porque não querem, não porque não estão a fim de estudar. É porque não tem espaço pra elas, que esse espaço não é dado. Como que funciona, como que foi essa questão da infância sua, no caso?

Samara: É, realmente, isso é uma realidade dura, né, e acomete a grande maioria da população de trans no nosso país. Mas, claro, cada história é uma história. Cada um com sua própria história. Eu, particularmente, não tive problema algum com relação a isso, até porque a minha transição, ela se deu já adulta, né. A partir dos meus 27 pra 28 anos foi que eu, finalmente, criei coragem de assumir a minha real identidade. Até então, eu sempre vivi, né, como um rapazinho, e tal. Minha infância foi uma infância… claro, né, tinha seus altos e baixos. Nenhuma infância é perfeita, né. Não importa se você é trans, se você é cis, se você é hetero, se você é homoafetivo. Todo mundo tem seus altos e baixos, eu tive meus altos e baixos. Eu enfrentava uma batalha interna, realmente, sabe, pra minha autoaceitação, eu não conseguia me aceitar, né. Que já desde muito pequena, eu havia percebido as minhas preferências, as minhas tendências a gostar de homens, a querer entender por que eu não sou igual às meninas, essas coisas todas, né. Eu olhava as meninas, eu queria ser daquela maneira, sabia que não era, que não nasci daquela maneira, mas eu, sabe, eu gostava, eu brincava de coisas de menina. Mas também brincava com coisas de menino. Ou seja, minha infância, nesse sentido, até que era balanceada. Eu não tinha… Eu não escolhia, “ah, só vou brincar com coisas de menina”, “ah, só vou vrincar com coisas de menino”. Eu tinha amigos meninos, amigas também mulheres, e eu brincava das duas coisas. Gostava de brincar de bola, também gostava de brincar de boneca, brincava de carrinho, também brincava de Baleou, brincava de pular corda, também… Eu era assim, brincava… Eu sempre transitei entre os dois espaços, né. E quanto a isso, nunca tive problema. O meu problema, em si, era de me compreender enquanto pessoa. Poxa, quem sou eu, afinal. Porque eu via, poxa, menino tem que gostar de menina. Mas eu gostava de meninos. E eu não conseguia sentir interesse legítimo por meninas, né. Eu até me forçava a isso, a lutar contra aquilo, porque eu fui criada em uma família católica, em uma família que sempre frequentou a igreja, e sempre tinha (incompreensível) que isso era pecado, aquilo era pecado, e tal, e tal, e coisa e tal. E deus criou Adão e Eva, que tem que ser o homem e a mulher, que homossexualidade é pecado, e uma série de coisas. Então…

Sidney: Fica sempre essa culpa sobre a gente, né.

Samara: Exato, eu me sentia sempre culpada, sabe, quando olhava pra um garoto e eu achava bonito, achava ele gostoso, né. Olhava pras partes, via aquele volume, ficava nervosa (os outros soltam risos).

Sidney: Eu olhava o umbigo, Samara! Tu acredita? (ele ri, Samara e Dan riem em seguida)

Samara: eu ficava nervosa, e eu me encolhia por isso. Eu dizia que eu tava errada, que eu ia pro inferno, eu morria de medo. E piorou quando eu tive a minha primeira relação, né. Porque eu já tinha, desde nova, a vontade de fazer, e aos 10 eu finalmente tive a minha primeira relação. Mas gostei e, ao mesmo tempo, eu ficava me culpando, me punindo, né. Chorava, às vezes. “Por que eu sou assim, por que eu não sou igual aos outros meninos?” E, ao mesmo tempo, eu via as meninas com aqueles vestidos, aqueles cabelos belíssimos, e eu queria ser igual a elas, né. Às vezes, eu fazia o quê, quando eu estava sozinha em casa, eu gostava de pegar as roupas de minha irmã, as roupas de minha mãe, as maquiagens, e fazia de conta que, sei lá, eu era a minha mãe, eu era a minha irmã, sabe. Eu gostava de me ver como uma mulher. Aí, quando eu via que estava chegando gente em casa, eu tirava a maquiagem da cara, guardava tudo novamente, e pronto, né, ninguém nunca percebia. Aliás, eu até era bem artista, digamos assim, conseguia me camuflar bem. Eu não tinha trejeitos, né. Claro, a não ser a minha forma de andar, que muita gente sempre dizia que eu andava meio rebolando. Mas isso era porque eu não conseguia controlar. Até tentava, né, andava mais durinho, e tal. Porque eu morria de medo de bullying, morria de medo de ser agredida. Até porque já era agredida e perseguida na escola, apenas pelo fato de ser negra.

Sidney: Sim, sim, Ah, imagino.

Samara: E eu via como eles tratavam aqueles garotinhos que eram mais afeminados. Que eles humilhavam, que eles escarneciam daqueles garotos, que eles perseguiam, que eles batiam. E eu não queria passar por aquilo, né. Então, eu vivia retraída, eu vivia naquele jeito e tal. Então, eu sempre me passei por um garoto, macho, machão, hétero, né, malhadasso, super forte, aquela coisa toda, né. Mas, por dentro, eu sempre fui uma menina, né.

Sidney: Então, no caso, você manteve essa aparência masculina até adulto? Adulta, no caso.

Samara: Sim, até adulta. Até adulta, até eu realmente me sentir segura pra fazer isso, né. A partir do momento que eu tenho minha própria casa, minha casa própria, e tal. Entendeu. E comecei a ter mais autoconfiança pra isso, né. E, claro, eu fui preparando a minha família, também, pra essa revelação. Não foi uma coisa assim, que eu joguei logo uma bomba de uma vez, de cara, “eu sou assim e ponto final, e vocês vão ter que me engolir, e se foda quem não gostar”. Não, eu fui preparando. Principalmente meus pais. Mas claro que chega uma hora que a gente precisa falar.

Sidney: Samara, como você era… tinha essa aparência masculina, até pouco tempo, né. Você falou 27 anos, né? É pouco tempo…

Samara: … Que comecei a tomar os hormônios.

Sidney: Exato. Então, você tinha essa aparência masculina, e você disse que foi aos poucos, né, revelando pros seus pais. Então, eles achavam o quê, que você era gay?

Samara: Sim, a priori, eu revelei o quê, que eu gosto de homens, de garotos.

Sidney: certo.

Samara: Mas não havia falado ainda da questão do gênero em si, né, apenas da minha orientação sexual.

Sidney: Entendo.

Samara: Porque eu sabia que seria um baque terrível revelar tudo de uma vez só.

Sidney: Sim, claro.

Samara: Então, aquela coisa, contei pra um, contei pra outro. Já estava rolando os burburinhos, né. Então, eu só fiz confirmar, sim, eu sou, eu gosto é de homem, eu gosto de macho mesmo, entendeu. Nunca gostei de mulher. Eu já me relacionei, mas sempre gostei mesmo de homem. Então, até aí, tudo bem. Mas eu já estava me hormonizando.

Sidney: Foi a primeira etapa, só.

Samara: oi?

Sidney: Foi uma primeira etapa, no caso, né.

Samara: Exato. Mas como eu já estava me hormonizando, chegou uma época em que os traços femininos já estavam mais evidentes, né. As características femininas já estavam entrando em evidência, e eu sabia que não poderia adiar por mais tempo. Até que chegou um ponto que meu pai sentou comigo, pra conversar, “venha cá, você está tomando hormônio, alguma coisa do tipo?” Eu cheguei e falei, “olhe, meu pai, já que o senhor quer saber da verdade toda, então sente-se, porque o senhor vai precisar.” Eu cheguei e falei. Eu sou uma mulher trans. Na época, eu falei “travesti”, né. Mas hoje eu prefiro o termo transgênero, né. Eu não gosto de usar nem transexual, nem travesti. Eu prefiro o termo transgênero.

Dan: Eu fiquei sabendo que a palavra “travesti” é uma palavra brasileira, na verdade, né? Assim, não existe… É um termo nosso mesmo. Existe trans woman, trans man, mas não existe travesti. Travesti é uma… Digamos, uma invenção brasileira, né, Samara?

Samara: Sim, de fato. É uma invenção mesmo da gente. Mas usaram esse termo mais pra separar, né… O que eu acho errado, né. Por isso que eu prefiro o termo transgênero, gente, porque eu acho o termo transgênero mais democrático, digamos assim. E que não segrega, sabe. Porque criaram o travesti pra separar das transexuais, né, como se fossem coisas completamente diferentes, água e óleo que não se misturam, né. Quando, na verdade, todos nós somos transgêneros, homens trans, mulheres trans, travestis, e tudo mais, todos nós somos transgêneros. Nós transcendemos o gênero que nos é atribuído ao nascer. Nós procuramos fugir desse…

Sidney: E você prefere…

Samara: Sim, fale.

Sidney: E você prefere transgênero a transexual porque não se reduz à sexualidade, não é isso?

Samara: Exatamente. Não se reduz apenas… Por que eu falo isso também? Porque, quando se fala em transexualidade, as pessoas costumam ligar isso, esse termo, à obrigatoriedade de se fazer, por exemplo, a cirurgia de mudança… É, você sabe, né, de confirmação de gênero, como se diz hoje, né. Quando, na verdade, nós já sabemos, as pessoas que mais estudam atualmente, né, e não as que preferem ficar no século passado, mas já se sabe, hoje, que não necessariamente precisa fazer tal cirurgia pra ser uma mulher ou pra ser um homem. Desde que a gente esteja muito bem resolvido consigo mesmo, já se sinta uma mulher plena, não precisa fazer tal cirurgia. E eu sou uma delas, eu não sinto a necessidade. Eu não sinto essa necessidade de colocar uma vagina em mim, pois eu já me sinto completa da forma que eu sou, entendeu.

Dan: Duas coisas que eu acho que a sociedade já deu, e já tinha que ter aprendido que eles vão ter que aceitar, que existe mulher de pau e homem de boceta. Então, assim, eles vão ter que engolir isso, sabe. E outra coisa que eu também acredito que deve ser muito incômodo e você deve ter ouvido isso varias vezes na vida, é se você fez ou não a cirurgia. Eu acho que é uma pergunta indiscreta. A gente não pergunta pro cis-gênero “você fez cirurgia no seu nariz?” às vezes, você ta vendo que a pessoa parece que fez cirurgia e pergunta…

Sidney: Não, a gente não pergunta “você já operou de fimose?”

Dan: É! (rindo) Pergunta pro viado…

Samara: É o tipo de pergunta que geralmente me constrange bastante. Então, o que eu faço, já pra evitar essas perguntas, eu já falo logo de cara, então, meu amor, eu sou trans e já vou logo falando, eu não sou operada, algum problema pra você? Porque pra mim não tem.

Sidney: Existe essa rivalidade, Samara, entre as trans que se operam e as que não se operam, assim, de algum modo?

Samara: Infelizmente, existe sim. Sabe, existe o fato de que isso é uma coisa que deveria ser bastante discutida, trabalhada, muito complicada, muito delicada. Porque a maioria das pessoas trans, quando eu falo isso, eu falo mais referente às mulheres do que aos homens trans, porque eu acho que a cabeça dos trans homens são muito diferentes, eu considero eles até mais maduros do que as mulheres trans, nesse quesito. Mas uma mulher trans, a partir do momento que ela consegue, finalmente, fazer a tão sonhada cirurgia de mud… De… né, da genitália, né.

Sidney: Redesignação, né, que chama?

Samara: Exato, é redesignação sexual. Aí, ela simplesmente passa a não se considerar mais parte da comunidade trans, né, ela já se denomina uma mulher cis. Entendeu? O grande problema que acontece é esse, muitas quando finalmente fazem tal cirurgia, elas já querem ser denominadas como mulheres cis, né. Elas querem esquecer e jogar lá no passado, né, no esquecimento, que elas, um dia, já tiveram pênis. “Ah, eu já fiz a minha cirurgia, então, agora o resto que se foda, o resto que se dane. Eu sou mulher, tenho pepeca e ponto final”. As outras não são mulheres… Aí, começa a chamar as outras trans, que antes ela chamava de irmãs, como viado… Chama de viado, de viadinho, entendeu? E diz que não são mulheres porque ainda têm barba na cara, ou porque não fez a cirurgia. Acham que, pra se sentir, pra ser completamente uma mulher, tem que ter uma pepeca, né… Tem que… Não pode ter nenhum traço masculino. E acaba que gera um certo atrito, muitas vezes, dentro da própria comunidade de transexuais, por conta disso. Porque passam a desmerecer umas às outras, uma querendo ser mais do que a outra. Ao invés de procurar unir forças, acabam se separando, né, segregando. Aí, fica aquele grupinho, a panelinha das perfeitas, digamos assim, entre aspas, né, que elas são aquelas passáveis 100%, porque tem até boceta, né. Me desculpe usar o termo, né.

Dan: Não, nosso programa é pra maior de idade (ele ri).

Samara: então (entre risos). Exato. Então elas? Elas são as perfeitas, elas são as mulheres de verdade, né. Enquanto nós, não, nós ficamos em um subgrupo que está abaixo delas. É o que acaba acontecendo. Então, desde que a vida delas esteja linda, maravilhosa, que elas finalmente têm a tão sonhada vagina, né, pra elas, o resto da luta não existe mais. Muitas, inclusive, vivem na militância e tal, mas depois que conseguem atingir esse objetivo, elas simplesmente abandonam porque elas não querem mais fazer parte, não querem ter sua imagem ligada àquilo, né. Que elas realmente são, mas querem negar. São mulheres transgênero, né. Elas nunca vão deixar de ser, né. Porque, embora nosso aspecto consiga mudar, todas as transformações que a gente consegue com os hormônios, com as cirurgias, geneticamente, infelizmente, nós continuamos sendo as mesmas pessoas. E não tem como mudar isso. Mas isso é algo que vai ter que ser muito bem trabalhado, porque acho que vem a questão da própria ignorância de muitas delas, né.

Sidney: E é curioso como esses papéis de gênero estão tão enraizados já na gente, né, tão delimitados, que tem que passar até por aí também, pra ser desconstruído, né, essa noção do que é ser masculino, do que é ser feminino, acaba até atrapalhando até esse meio de campo aí, das transexualidades.

Samara: Como atrapalha. Porque levam realmente muito ao pé da letra. Acho que as mulheres trans, elas levam muito mais ao pé da letra os papéis de gênero, do que as mulheres cis. Não sei se vocês tão entendendo meu raciocínio. É pelo seguinte, enquanto as mulheres cis-gêneras mudam para terem os mesmos direitos que os homens, no sentido de ter liberdade, inclusive na sua vida sexual, afetiva e tudo mais, as mulheres trans, elas costumam se prender àqueles valores que a sociedade impõe às mulheres cis, sabe. Aqueles valores machistas, de que mulher não pode agir dessa maneira. Mulher tem que agir de tal forma, entendeu. Então, tem que ser recatada…

Dan: Isso não é, assim, às vezes, pra poder ter um tipo de relação mais próxima com os opressores, no caso? Por exemplo, às vezes, o gay comportado, ele não incomoda, todo mundo até fala, “pode até ser gay, mas não pode ser afetado, não precisa ser bicha”, e ser bicha incomoda muito. E talvez uma mulher trans que seja uma mulher revolucionária e que quer pregar a sua liberdade sexual e tudo mais, isso incomoda, por exemplo, os conservadores, aí a pessoa não quer tanto dar a cara à tapa pra esse tipo de situação.

Samara: É, mas aí, o que acontece. Mas aí, o que ocorre quando se usa dessa lógica? A pessoa passa da situação do oprimido pra virar opressor também. Entendeu? É a mesma coisa, por exemplo, me desculpe a comparação esdrúxula, mas um negro, na época da escravidão, que trabalhava pro homem branco punindo os próprios negros que tentavam fugir pros quilombos, né. Aí, pegavam, capturavam, matavam, chicoteava. Entendeu? Quer dizer…

Dan: O Capitão do Mato…

Samara: Exatamente, os famosos capitães do mato. Quer dizer, eles eram oprimidos e opressores, ao mesmo tempo. Então, é um paradoxo, né. É uma dicotomia esdrúxula, isso. E é a mesma coisa que ocorre, atualmente, com a população LGBT, né. A gente tem que entender que nós somos resistência. Nós temos que ser a resistência. E nós temos que levar essa luta adiante, temos que levar a sério essa luta, e não simplesmente nos vendermos, pode-se dizer assim, à classe opressora, né. Ah, não, nós temos que agir de acordo com o que eles querem, pra a gente ser aceito, porque se não, nós vamos sofrer perseguições, nós vamos isso, nós vamos aquilo, nós vamos ser apontados na rua. Sabe o que eu digo pra isso? Foda-se! Eu digo um foda-se bem bonito pra isso. Eu acho que nós não temos a obrigação de atender aos requesitos que a sociedade conservadora quer nos impor, entendeu. Se nós queremos ser revolucionários, nós temos que ser de corpo e alma. Se nós queremos mudar as coisas, realmente, pra melhorar a vida pra a comunidade LGBT como um todo, nós não podemos nos prender às nossas próprias questões pessoais, não. Porque eu quero ser aceito, a partir do momento que eu sou aceito, pra mim já tá tudo ótimo. Não, gente, tem que entender que aquela luta é pra vida inteira. Até que a gente consiga que essa igualdade de direitos esteja ao alcance de todos, que todos tenham isso, né. Que todos tenham a dignidade que a gente tanto busca, né. Mas, a partir do momento que você consegue alguma coisa, eles se esquecem de tudo que já passaram, de tudo que aqueles seus amigos mais próximos, até parentes, passam ainda. Justamente por fazer parte dessa parte oprimida da sociedade. A partir do momento que ele já está numa situação confortável, infelizmente, o egoísmo humano acaba tomando conta. E de oprimidos, eles passam a ser opressores também. E é o que acontece…

Dan: Eu acho que, de uma coisa a gente tem que já ter em mente, as pessoas têm que entender que vão existir LGBTs mau caráter, assim como existe pessoas cis-gêneras ou heterossexuais mau caráter, e infelizmente…

Samara: É o ser humano. É uma característica não de uma determinada parcela, é do ser humano.

Dan: Não é da identidade de gênero, e nem da orientação sexual, né.

Samara: Não.

Sidney: E que em qualquer grupo social, vai ter gente que se importa, e gente que não tá nem aí, né.

Dan: É, inclusive, temos nossos aliados, aí, né, cis gêneros e héteros que, às vezes, caminham juntamente conosco também. Samara, eu gostaria que você deixasse uma mensagem para os LGBTs que não se candidataram agora, e que desejam se candidatar. O que você deixa, aí, da importância de ser uma pessoa que tá à frente…

Sidney: De participar.

Dan: … Participativa. Não esperar que as pessoas façam por nós alguma coisa e já façamos, na verdade, nós mesmos por nós mesmos. E aí, deixa uma mensagem para os nossos ouvintes.

Samara: Bom, o que eu quero dizer a todos são as seguintes palavras. Nós somos perseguidos durante a história, durante toda a história da humanidade em si, nossa sociedade nos impõe situações muitas vezes degradantes, humilhantes, e acredito que chegamos ao ponto em que a nossa luta, principalmente por estar ganhando mais força, está começando a incomodar muita gente. Mas não devemos nos render. Nós devemos ter firmes e fortes a nossa luta, devemos ser verdadeiros conosco mesmos, com as pessoas que nos cercam, com as pessoas que fazem parte do nosso ciclo de amizade, poder se colocar no lugar do outro e parar de olhar pro próprio umbigo. Nós temos que lutar para o bem maior, para o bem comum, para que todos, futuramente, possamos viver numa sociedade justa de fato. Onde nós possamos, finalmente, conquistar os direitos pelos quais nós tanto lutamos. E que esses direitos não nos sejam retirados, como estão tentando fazer com vários direitos que foram conquistados duramente pela população. Nós precisamos nos unir, deixar de lado as diferenças, sejam elas quais forem, e entender que apenas com a união de todos nós é que nós vamos, de fato, conseguir mudar a nossa sociedade, mudar o rumo da nossa história. Enquanto nós continuarmos lutando entre nós, a sociedade nunca vai nos enxergar como uma força real, uma força de luta que está ali presente. E seremos sempre subestimados. Então, é hora de largarmos de lado as nossas individualidades, e começarmos a pensar como um todo. E só assim nós vamos conseguir vencer essa batalha. Estamos ganhando em alguns campos e perdendo em outros. Mas só depende de cada um de nós para que essa luta se torne uma luta justa, que nós possamos lutar em pé de igualdade. Por isso, eu chamo aqueles LGBTs que estão, realmente, com vontade de fazer a diferença. Vamos ocupar os espaços de poder, vamos lutar, vamos à política. Vamos ocupar o judiciário, o legislativo, o executivo. Vamos buscar cargos, também, em empresas. Vamos mostrar que nós somos capazes, inclusive, até em alguns casos, de superar aqueles que nos oprimem. O mundo é de todos, e nós temos o direito de fazer parte dele.

Sidney: Excelente.

Dan: Ai, adorei suas palavras.

Sidney: Samara, você…

Dan: Pode falar, Sid.

Sidney: Eu tô com uma curiosidade. Você tem planos de se candidatar futuramente, pra outros cargos?

Samara: Sim, futuramente pretendo. Estou pensando em 2018, mas ainda não tenho nada definido.

Sidney: Excelente.

(VINHETA: ENTRE EFEITOS SONOROS DE IMPACTO E DE DISTORÇÃO DE ÁUDIO, A VOZ ANUNCIA “MOMENTO SUPER HEROÍNA DO DIA!”)

Sidney: E aí, Dan?

Dan: Enfim, e agora chegamos ao Momento Super Poderes. Acho que você nem lembra qual era o seu super poder, da outra vez, né, Samara? (eles riem)

Samara: Claro que eu lembro! Claro que eu lembro!

Sidney: Mas, olha só!

Dan: Conte pra nós, aí, qual era o seu super poder. Ou qual é o seu super poder, se pudesse tê-lo.

Samara: Bom, como eu falei anteriormente, né. Existem vários super poderes que as pessoas gostariam de ter. Mas, se formos analisar, cada um desses super poderes, por assim dizer, tem o lado bom e o lado ruim. Entretanto, tem um, apenas um, que eu definiria como super poder que me representaria. A empatia. O poder da empatia, né. O poder de fazer com que as pessoas consigam… Assim, tipo induzir a empatia nas pessoas, entende. Induzir que as pessoas aprendam a se colocar no lugar das outras. Isso aí, pra mim, seria o melhor super poder que existe na face da Terra. A partir do momento que você conseguisse fazer com que as pessoas egoístas, egocêntricas, pessoas realmente que são verdadeiros canalhas, aprendessem a se colocar no lugar do outro, no sofrimento do outro, com certeza conseguiríamos construir um mundo muito melhor. É isso.

Sidney: E esse poder é bom que ele é viável na vida real, né. A gente pode exercitar, apesar de dar muito trabalho…

Samara: Exatamente.

Dan: enfim, é isso. Samara, muito obrigado por aceitar gravar este programa duas vezes, não foi só uma. (Samara ri)

Samara: Que é isso. Foi um prazer.

Dan: Engraçado que o outro programa meu, que deu problema, o episódio gravado duas vezes, foi o programa com a Alex Goering, que é o programa #02. Mas enfim, agora a gente já tem um gravador ótimo, dá tudo certinho, não temos problema (Sidney ri). Não é um gravador transfóbico,né. Porque, olha que coincidência, os dois programas com as trans deu problema. Mas, enfim.

Sidney: Eu acho que era um programa transfóbico.

Dan: Acredito.

Samara: É, na certa (todos riem). Deve ser um Badoo da vida. (os outros riem mais). Oh, rede social pra ser transfóbica, é o Badoo.

Dan: Pois é…

Sidney: É mesmo? Não sabia.

Samara: Ah, é. Ali, é. Eu já tive minha conta do Badoo cancelada umas quatro vezes.

Dan: Nossa.

Sidney (sobrepondo-se à voz de Samara): E o pior que ela surge do nada, né.

Samara (sobreposta pela voz de Sidney): E não tinha nada ofensivo.

Dan: gente, eu não sabia disso.

Samara: Nada ofensivo. Simplesmente, dizia que eu estava… Inventavam desculpas, La, absurdas, dizendo que eu tava…

Sidney: Infringindo os termos…

Samara: Fraude… cometendo fraude ideológica, como é, meu deus? Esqueci agora.

Sidney: Falsidade ideológica?

Samara: Falsidade ideológica, algo do tipo. Porque assim, no Badoo, eles não colocam a opção de você ser transgênero, entendeu.

Dan: Ah, entendi.

Samara: Então, eu botei lá que sou mulher. E aí, pelo fato de eu ser trans, eles simplesmente…

Sidney: Disseram que você tava fraudando…

Samara: Exatamente, fraudando, né. Dizendo também que eu to postando conteúdos ofensivos. Sem nem ter sequer uma foto de lingerie, quanto mais…

Sidney: É triste que a própria existência da gente seja ofensiva.

Dan: Existir já ofende, no caso.

Sidney: Só existir.

Samara: Eu mandei mensagens pro Badoo, reclamando, né. Eu realmente pensei seriamente em tentar abrir um processo contra. Mas eu não sei nem como. Sei lá, não sei nem se tem um lugar físico…

Sidney: Essa rede social é muito misteriosa, porque as pessoas têm conta nela sem nem fazerem as contas (Dan ri). Não sei como é…

Dan: Eu espero que eu não tenha uma conta lá, porque eu sou casado. (ele ri alto)

Sidney: Eu acho que se você entrar lá e procurar, vai ter, Danilo. Eu não me espantaria.

Samara: Pois é, complicado.

Dan: Eu fiquei sabendo… Já que… Antes de finalizar o programa, mas deixa esse relato, é até legal. O Tinder agora parece que vai acrescentar a opção transgênero, que justamente foi uma demanda que levantaram, lá nos Estados Unidos, se não me engano. E aí, parece que no Tinder agora vai ter essa opção. E eu vejo muitas meninas trans do meu Facebook reclamando que, às vezes, o cara começa a conversar, e tudo o mais, aí na hora que elas chega, na hora, assim, “sou trans”, bum! Parece que o cara some, desaparece…

Samara: Acontece direto comigo também (ela ri).

Sidney: É triste.

Samara: Acontece muito isso. Mas também acho que nem adianta muito. Até porque, nesses aplicativos, na maioria das vezes, as pessoas olham a foto e nem sequer leem, entendeu.

Sidney: É verdade.

Samara: Eu tenho algumas redes sociais, alguns aplicativos que eu tô lá, poxa, tudo bem, não tem ali a opção de você colocar, eu coloco ali na descrição do perfil, “eu sou uma mulher trans”.

Dan: meso assim, alguns não leem.

Samara: E as pessoas não leem. Quer dizer, a gente perde tempo preenchendo tudo aquilo, pra ninguém sequer ler, né.

Sidney: É, se tem uma coisa que as pessoas não fazem na internet é ler. Isso aí também eu já aprendi. As pessoas não leem.

Dan: É complicado. Enfim, gente, é uma pena. Gente, a gente poderia conversar aqui um tempão, a conversa super gostosa e conversar com a Samara foi uma delícia.

Sidney: Foi maravilhoso.

Dan: Samara, enfim, é isso. Deixo aqui, novamente, o meu muitíssimo obrigado, né. Tanto você quanto a Alex, por terem aceitado gravar duas vezes comigo. E foi até legal, que teve a oportunidade de conhecer o Sidney, e enfim. Foi bacana esse programa, mais fluido também, né, porque a gente sabia do que ia gravar. Mas enfim, fica meu beijo, e nossos agradecimentos.

Sidney: Olha, Samara,…

Dan: Diga, Sid.

Sidney: Foi um gosto e uma satisfação conhecê-la. Muito prazer mesmo.

Samara: Eu que agradeço.

Sidney: Foi maravilhosa a nossa conversa. E que a gente continue com os diálogos, né.

Samara: Claro, sim, por favor. Pode manter contato sempre.

Dan: Então, tá. Estamos na torcida por 2018. Qualquer coisa, você decidir alguma coisa e tiver próximo, e se a gente continuar existindo até lá com o podcast, a gente abre uma sessão de entrevistas…

Samara: Com certeza, não vão desistir não, vão continuar.

Dan: Então, um beijo, Samara.

Samara: Tá bom.

Sidney: Beijo.

Samara: Um beijo, meus amores.

Dan: Tchau, tchau.

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: Então, Sid, temos uma HQ sem quadrinhos?

Sidney: Pela segunda vez, eu acho que temos, né. Porque não aguento mais gravar de novo (eles riem).

Dan: Oh, gente, problemas técnicos, espero que eles não ocorram mais. Ao longo do tempo, a gente vai aprimorando a nossa estrutura pra gravar um podcast.

Sidney: Com a experiência, né?

Dan: É, experiência. Mas até hoje, esses dias, eu fiquei sabendo que o Mamilos deu problema. Então, assim, se até…

Sidney: Se elas tão dando problema, quem que é a gente pra querer nada, né?

Dan: Se elas que têm aquela voz de veludo do Caio Corraini, não conseguem resolver…

Sidney (entre risos): E eu com essa voz de taquara, que eu tô aqui gripado, ai meu deus. Vamos encerrar, Danilo!

Dan: Vamos lá. Gente, geralmente eu gravava o programa sozinho, e eu fazia as indicações. Então, eu tenho uma série de livros que eu comprei pra ir lendo, justamente por causa do podcast, pra alinhar com a temática, enfim. Hoje eu vou indicar, mas no nosso próximo podcast, quem vai indicar vai ser o Sidney. A gente não vai fazer na dinâmica igual os outros podcasts, que todo mundo sai indicando alguma coisa (Sidney ri). Sempre vai deixar uma indicação por podcast.

Sidney: Pra vocês terem tempo de ler, né.

Dan: Pois é. O livro que eu tô aqui em mãos chama-se “Over the rainbow”. O que significa esse livro? Eu só vou ler aqui uma parte de trás, pra vocês entenderem. (ele lê) “E se a Cinderela se apaixonasse por uma garota, e não por um príncipe encantado? OU se os irmãos João e Maria, ambos homossexuais, enfrentassem a ira de uma madrasta religiosa que só pensa em curá-los? Ou ainda, se Branca de Neve, abandonada numa cidade bem distante de sua terra natal, fosse acolhida por sete travestis? Cinco representantes da comunidade LGBTT revisitam clássicas histórias de infância de milhões de pessoas, e as contam sob a ótica desse universo representado pelas cores do arco-íris“. Então, quem escreveu esse livro foi a Milly Lacombe, O Renato… que eu não vou saber pronunciar o nome dele, mas eu acho que é Plotegher, o Eduardo Bressanim, o Maicon Santini, e a querida, e a iluminadíssima Lorelay Fox, com aquela voz de veludo.

Sidney: Ah! E eu adoro o nome dela porque é o nome da minha personagem favorita da série, né. A mina Gilmore mais maravilhosa, Lorelay gilmore.

Dan: Nossa, eu nunca tinha feito essa correlação (Sidney ri). Inclusive, estreou Gilmore Girls no Netflix (Dan ri).

Sidney: Ai! Se eu não vou indicar um livro… Minha gente, vão assistir Gilmore Girls. Viado! Viado que não assistiu Gilmore Girls tá passando vergonha, viu.

Dan: Vai perder a carteirinha.

Sidney: Vai perder (eles riem).

Dan: Gente, eu fiquei instigado a ver Gilmore Girls só por causa do Sid. (sidney ri alto)Eu vou assistir e depois eu conto as minhas percepções do seriado. Mas enfim, é isso. Sid, como que as pessoas podem nos encontrar?

Sidney: Então, vamos de novo. As pessoas nos encontram no Facebook, na facebook.com/hqdavida; ou no Youtube, no canal “HQ da Vida Podcast”, você assina lá.

Dan: E também pode agora nos encontrar no Medium. Então, o que acontece? Todas as transcrições estão sendo transferidas para o Medium. E aí, se você quiser nos ajudar também com essa ideia, entre em contato conosco pelas redes sociais. Até o presente momento, 100% foram transcritos. Mas quem transcreveu tudo, até o presente momento, foi o Sid. Mas nós vamos precisar de ajuda daqui pra frente. Então, aproveita e siga a gente lá no Medium, que é @hqdavida e cole nessa ideia. E essa ideia serve pra quê também, Sid?

Sidney: Então, a transcrição serve pra garantir acessibilidade pra quem tem algum tipo de deficiência auditiva. E também serve pra ser um material de consulta fácil e simples, né, em texto você consegue consultar melhor o material em áudio. Lá no Medium você encontra as postagens do nosso podcast, com os episódios em áudio e, logo em seguida, as transcrições.

Dan: Isso mesmo. E por fim, né, não se esqueçam de nos procurar nas redes sociais. Que é Sound Cloud, procura a gente lá, que é HQ da Vida; mandar email pro hqdavida@gmail.com; e quê mais, Sid?

Sidney: Tem também o Twitter, @hqdavida; e acho que só, né? Falta algum? Não, e as estrelinhas do iTunes! Toda vez eu esqueço, mas não faça como eu, não esqueça (Dan ri).

Dan: Ficou Igualzinho o último mesmo… Então, pessoal, se você quiser contar uma história, ou mandar uma cartinha, reclamações, dicas e críticas ao programa, pode entrar em contato conosco.

Sidney: O seu feedback é muito importante para nós. Paga nosso salário, gente! A gente não tá ganhando nada. Comenta!

Dan: Isso mesmo, comenta, mandem críticas, é bom, a gente fica curioso para saber o que vocês estão achando do nosso programa. E antes de finalizar, só gostaria de dizer que esse vai ser o último programa do ano que vocês irão ouvir.

Sidney: AAAAhhhh!

Dan: O próximo seria pós Natal. Mas natal, festas, ninguém vai querer saber da gente. Depois vai ser ano novo (Sidney ri), e ninguém vai querer saber da gente também. Então…

Sidney (rindo): Que autoestima é essa, amigo? (Dan ri alto)

Dan: Vai ser uma semana após o Ano Novo. Ok?

Sidney: É um tempinho pra vocês aproveitarem as festas de Fim de Ano e darem uma descansada, né, dos ouvidos, da gente.

Dan: Isso mesmo. Tchau, Tchau, pessoal!

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

FIM

Transcrito por Sidney Andrade