A metáfora dos cubos: como conhecer alguém de verdade num mundo hiperconectado

Henrique Souza
Mar 8, 2017 · 5 min read

Dá uma olhada nesses três cubos aqui:

Você diria que eles são iguais? Eu diria que sim — e acharia a pergunta estranha também. São três .jpgs repetidos, Henrique.

Agora, mergulha um pouco mais na metáfora. Imagina que esses cubos tão na sua frente e você pode interagir com eles. Você decide pegar uma daquelas pistolas-termômetro, medir a temperatura dos três cubos e descobre isso:

Faz 26°C onde você está, então só um dos cubos parece ser um cubo “padrão”. Os dois outros tem algo de especial: uma coisa que você só conseguiu descobrir com um instrumento (o termômetro maneiro).


Todas as coisas no mundo tem propriedades fáceis de descobrir e outras mais difíceis. Você observa um desses cubos por 10min e descobre a cor, o peso, o cheiro, a textura e até onde ele ficaria bonito na sua casa.

Mas se você tivesse 10min e uns instrumentos (régua, trena, microscópio, martelo, balança), mais propriedades iam aparecer. Você poderia descobrir que o cubo 1 é resistente a pancadas, que o 2 é meio assimétrico e que o 3 tá sendo coberto por bactérias.

Só que mesmo com a caixa de ferramentas que a NASA leva pro espaço, você só descobriria uma parte das qualidades do cubo. Por quê?

Porque uma outra parte, mais invisível, exige que você tenha tempo. É como a ferrugem, o limo ou o sabor de um vinho chique.

Imagine que você decidiu levar o cubo 2 pra casa, pra passar um tempo com ele. Você coloca ele naquele lugar bonito da sua sala e continua tirando medidas dele de vez em quando.

Dez dias passam e você percebe que ele perdeu aquela cor azul-facebook do início, que agora tá mais pra um azul-esverdeado suave. No dia 20, ele tá mais verde do que azul. No dia 30, ele chegou ao verde-grama-do-vizinho total, cem por cento.

Se você encontrasse esse cubo no dia 15 e brincasse com ele por 10mim, você ia sair da sala achando que conheceu um cubo azul-esverdeado. Só que a verdade é mais difícil de descobrir (e também mais bonita): você conheceu um cubo que muda de cor.

Os cubos desse texto tem três tipos de propriedade: as óbvias (que você descobre de cara), as ocultas (que você precisa saber medir) e as temporais (que só se mostram com o tempo).

É aí que o ciclo se fecha e eu me pergunto de novo: os três cubos são iguais?

Os três tipos de propriedade.

Você sabe que esse texto não é sobre cubos, mas sobre pessoas. Acima de tudo, sobre como é difícil conhecer alguém de verdade no universo digital.

As pessoas, como os cubos, também tem esses três tipos de propriedades: óbvias, ocultas e temporais. A gente descobre isso primeiro fazendo amigos e — quando a hora chega — procurando amor.

Você conhece um cara galã feito o Caio Castro, descobre que vocês tem mais coisas em comum que irmãos gêmeos, mas quando fecham 6 meses de namoro percebe que o ciúme dele te deixou sem espaço pra respirar.

Você encontra a menina com o sorriso mais charmoso da cidade, mas o nariz empinado de orgulho desvia toda a atenção. Você experimenta continuar o rolo e, no segundo mês, aquela marra some e você descobre que era só um disfarce pra uma personalidade meiga.

As propriedades da menina e do menino das histórias. O desafio: a gente quase nunca tem o quadrinho completo de ninguém.

Entender uma pessoa é menos como olhar uma foto e mais como assistir um vídeo. A foto é um momento congelado com as mesmas cores, luzes e poses. Um vídeo é uma sequência de fotos que só contam uma história naquela ordem. Ele só faz sentido porque cada foto é um pouquinho diferente da que veio antes — como a gente ao longo dos dias, meses e anos.

Acontece que no nosso mundo hiperconectado e instantâneo, a gente se acostumou a fazer julgamentos ultrarrápidos centenas de vezes por dia. E quanto mais pessoas entram na nossa rede, mais rápido você precisa responder “like ou dislike?”, “simpático ou chato?”, “me aproximo ou me afasto?”.

Focar nas propriedades óbvias foi um jeito que nosso cérebro — feito pra lidar bem com umas 150 pessoas de uma tribo — bolou pra navegar num mundo social de 2000 pessoas de 50 cidades.

Seu cérebro faz o melhor que ele consegue.

Mas tudo tem um preço: talvez a gente tenha desaprendido a medir as propriedades ocultas e perdido a paciência de esperar pelas temporais. Nós viramos experts em avaliar um cubo em 10 segundos em vez de 10min ou 10 dias, mas o preço foi abandonar a caixa de ferramentas no porão e atrofiar a paciência como um músculo sem exercício.

Como se faz pra reaprender, então? Onde eu me inscrevo pro Telecurso 2000 da ciência dos cubos?

Um termômetro, uma trena e uma balança te dizem muito sobre um cubo, mas as pessoas são mais complexas. Pra mim, existem três ferramentas humanas pra conhecer alguém de verdade: perguntas, observação e reciprocidade.

Perguntas, porque não dá pra investigar nada sem perguntar. Aqui, perguntas abertas são como mágica (“como você descobriu sua paixão por dança?” é melhor do que “você sabe dançar salsa?”. Aqui tem uma lista com 36 bem criativas pra aprofundar qualquer conversa.

Observação, porque prestar atenção em alguém — olho no olho e mente presente — é a condição número 1 pra aprender sobre os cubos da nossa vida.

Reciprocidade, porque ela é a moeda de troca de toda relação humana. É muito provável que o assunto da sua última briga tenha sido uma (suposta ou não) falta de reciprocidade. Algo — de bom ou ruim — que você deveria retribuir mas esqueceu ou que retribuiu sem precisar.

A gente vive cercado de milhares de cubos e sabe quase nada de cada um deles. Isso é natural em qualquer lugar com mais de 300 habitantes — e não é uma “maldição da tecnologia”. Na vida, só dá tempo de conhecer alguns cubos como a gente conhece a si mesmo.

A maldição de verdade é quando a gente deixa empoeirar aquela caixa de ferramentas num canto da sala como se ela fosse ultrapassada, fora de moda. Mas se você observar um cubo por tempo suficiente — com perguntas e reciprocidade — aquela pergunta do início vai voltar a ser óbvia, porque a resposta chegou com o tempo.

Nenhum cubo é só um cubo.

Henrique Souza

Written by

Psicologia, tecnologia, educação.

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