Antes de escolher Psicologia, tem 5 coisas que você precisa saber

Henrique Souza
Jan 5, 2017 · 5 min read

Esse texto não foi escrito pra reforçar seu desejo de estudar Psicologia. Também não foi escrito pra fazer você se apaixonar pelo curso. E acima de tudo, não foi escrito pra você desistir da ideia.

Escrevi esse texto porque todo calouro deveria entrar na Psicologia sabendo de algumas coisas — as maravilhosas, as boas, as ruins e as horrendas também.

Na Psicologia, existe um contraste entre o que a gente espera da faculdade e o que ela entrega. Isso faz muita gente desistir. Ali pelo 4º semestre, bate aquela bad e você se pergunta “será que eu tô no lugar certo?”, “por que eu não fiz Medicina?”.

Minha missão hoje é vacinar você contra essa crise.

1. Ser terapeuta é só um dos caminhos (e pode nem ser o melhor)

Eu entrei na Psicologia sonhando ser um terapeuta daqueles de filme francês cult. Eu teria o meu consultório com mobília vintage, música de elevador na sala de espera e um bloquinho com anotações enigmáticas. Pra mim, isso era ser psicólogo.

Durante o curso, eu descobri que psicólogo faz muito mais do que só terapia. Psicólogo faz recrutamento e seleção, avaliação psicológica, laudo, análise de dados, acompanhamento, aconselhamento, mentoria, palestra, treinamento e até coaching. A gente é que nem o Eevee, aquele Pokémon que pode evoluir pra outros 7 diferentes.

E você é da época que o Eevee só tinha três evoluções né? Inocente!

A sala de terapia é só um dos caminhos e não é o mais fácil. Um monte de gente sai da faculdade, monta sua salinha de atendimento e demora meses pra conseguir o primeiro cliente.

Por que? Primeiro, porque o mercado é concorrido, ainda mais se você mora na capital. Segundo, porque você não aprende marketing pessoal na faculdade, o que é uma pena.


2. A Psicologia tem muitas teorias (e clubinhos pra cada uma delas)

Resumindo bem, uma teoria é um jeito de explicar algo. Na física, duas teorias podem competir pra explicar por que tal partícula tem tal qualidade, por exemplo.

Na Psicologia, duas (ou mais!) teorias podem competir pra explicar por que alguém tem autismo, por que adolescentes são rebeldes ou por que torcidas organizadas brigam. O problema é que a nossa mente é uma caixa preta, difícil de examinar e medir como você faz com uma pedra — e isso dá muito espaço pra interpretar e teorizar.

Fofinho. Agora tenta ensinar seu cachorro a medir coisas abstratas tipo “Personalidade”.

Na ciência, você pode colocar teorias à prova com experimentos e filtrar as ideias que não tem base real. Na Psicologia, até nisso as teorias discordam. Pra algumas, a Psicologia nem deveria ser uma ciência; pra outras, ela deveria ser tão rígida quanto a Física.

Essas diferenças profundas separam os alunos em tribos. A tribo da psicanálise, da psicologia social, do humanismo, do behaviorismo. Desde cedo, você vai ser incentivado a “escolher uma teoria” e defendê-la. Muitas vezes, essa escolha não define só sua matéria preferida, mas seus amigos, suas roupas e até sua opinião política.


3. Os professores falam de política (e podem tentar te convencer)

A Psicologia é a ciência que explica o comportamento, certo? Assim, é natural que ela seja chamada para explicar assuntos políticos: por que o Trump se elegeu? Por que existe desigualdade? Como que a ISIS recruta tanta gente?

Só que tratar desse assunto com neutralidade é muito difícil, mesmo em um ambiente científico. Muitas vezes, a própria teoria usada pra explicar tem uma inclinação política embutida.

Como Trump explicaria por que o Trump foi eleito?

Por isso, fique atento. Sempre que você sentir que uma opinião está sendo tratada como um fato, ligue o seu botãozinho de senso crítico e não concorde com tudo de cara.

“Mas e se eu concordar com a opinião?” — é aí que você liga o botãozinho na máxima potência, porque nada aliena mais do que só ouvir o que você quer ouvir.


4. Você vai precisar de matemática (e se gostar dela, melhor ainda)

Se você escolheu a Psicologia porque odeia exatas, esteja avisado: você vai precisar aprender estatística. Quase todas as pesquisas da área usam alguma análise estatística, mesmo que seja pra medir o impacto do artesanato de miçangas na qualidade de vida.

A Psicologia é muito subjetiva — e por isso mesmo que precisamos dos números. O único jeito de descobrir, por exemplo, que técnicas funcionam na prática e que técnicas falham é medindo e comparando.

Seu cérebro depois de aprender a analisar dados.

A boa notícia é que estatística não é um bicho de sete cabeças. Se você respirar fundo e perder o medo dos números, dá pra aprender numa boa. E se você nunca teve esse medo e quer se aprofundar, se prepare pra ser o queridinho dos laboratórios.


5. O Brasil tem psicólogo pra caramba (e o mercado é concorrido)

Em 2005, a Organização Mundial da Saúde fez um ranking dos países com mais psicólogos no mundo. O primeiro lugar foi da Argentina, com uma média de 121 psicólogos a cada 100 mil habitantes. Impressionante, né?

Hoje, o site oficial do Conselho Federal de Psicologia nos diz que o Brasil tem 284 mil profissionais na área. Isso são 141 psicólogos pra cada 100 mil pessoas. Mais do que a líder do ranking tinha há 10 anos.

Mais do que qualquer país da Europa.

Por um lado, isso dá visibilidade pra profissão. Talvez o cidadão comum veja tantas plaquinhas de “consultório psicológico” que perca o medo de fazer terapia. Por outro lado, o mercado pode estar ficando saturado — e cada vez mais difícil de entrar.

Pra sobreviver num mercado tradicional de um país cheio de psicólogos, só tem um jeito inteligente: inovar. A Psicologia é um curso tradicional, cheio de rituais e preconceitos — e é justamente nesses lugares que a inovação faz mais barulho.

Se você quer fazer Psicologia, esse é o meu recado final: tire a Psicologia de dentro da caixinha dela. Nós, futuros jovens psicólogos, vivemos nesse mundo maluco da conectividade desde crianças. Pela primeira vez na história, todo o conhecimento do mundo está online, público e de graça.

O que a gente vai fazer sobre isso?

Henrique Souza

Written by

Psicologia, tecnologia, educação.

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