Mitrídates, o rei paranoico que inspirou a primeira vacina e o tratamento das fobias

Henrique Souza
Jan 9, 2017 · 4 min read

Você sabe a diferença entre uma história velha e uma história clássica? É que apesar de ser contada há gerações, uma história clássica sempre parece atual.

O texto de hoje é sobre a história do Rei Mitrídates, um turco que tinha medo de ser assassinado - e como ele inspirou o princípio por trás do tratamento de fobias e da invenção da vacina.

Estátua de Mitrídates. Sente o estilo da figura.

120 anos antes de Cristo, o jovem Mitrídates assistiu ao seu pai (de mesmo nome) morrer. E não foi deitado numa cama, esperando o abraço da morte depois de uma vida de glória: foi no meio de um banquete. O velho Mitrídates foi envenenado, sufocou e morreu na frente dos seus convidados. O assassino nunca foi descoberto.

Mitrídates tinha 15 anos na época e aquilo mexeu com cabeça do garoto. Reza a lenda que o jovem gostava de passar meses sobrevivendo isolado em florestas da região e que foi em um desses retiros que sua invenção mais famosa surgiu.

O príncipe, temendo ser assassinado como o pai, criou o hábito de beber uma dose muito pequena de veneno todos os dias. Uma gota na primeira semana, duas gotas na segunda, três na terceira - até chegar em doses quase letais.

A história termina quando um de seus inimigos tenta envenená-lo com o mesmo líquido que matou seu pai. O novo Rei Mitrídates sobrevive, seu corpo acostumado à substância, e manda executar o criminoso. A justiça nunca falha.

O Rei desenvolveu uma obssessão por antídotos e venenos depois disso. Ele testava suas misturas para adoecer e curar prisioneiros. Muitos morriam.

Em homenagem ao rei precavido, a ideia de que entrar em contato com uma dose pequena de algo ruim pode fazer bem foi batizada de mitridatização. Hoje, ela é muito mais do que um jeito esperto de não morrer envenenado: é um princípio da medicina.


Há uns 100 anos, contrair varíola - a doença do Orthopoxvirus - era uma sentença de morte. Depois de deformar sua pele, a infecção costumava matar em poucos dias. Essa doença mata gente desde que o mundo é mundo, tanto que a ONU classificou a varíola como uma das doenças mais devastadoras da história.

Hoje, contrair varíola ainda é uma sentença de morte, mas ninguém mais contrai. O último caso foi em 1972 e em 1980 a ONU decretou a doença erradicada do planeta. Como? Com a primeira vacina da história.

Dr. Edward Jenner — o inventor da vacina — aplicando a injeção pela primeira vez. Ainda ia demorar um bom tempo pra vacina ser espalhada e a doença erradicada. 300 a 500 milhões de pessoas morreram de varíola só no século XX.

Uma vacina é uma pequena dose do agente patogênico (um vírus, nesse caso) enfraquecido ou morto. Essa dose “ensina” o seu sistema imunológico a se defender contra doses maiores do agente. É uma forma de mitridatização: um pouco de veneno que te protege de uma dose mortal.

O processo de desenvolver uma fobia (medo de palhaço, por exemplo) é o contrário disso. Funciona assim:

  1. Você tem uma experiência horrível envolvendo um palhaço, numa festa de criança ou assistindo a um filme;
  2. Com medo, você começa a evitar essas situações pra ter menos chance de encontrar um palhaço.
  3. O seu medo se preserva e se amplia pra coisas associadas a palhaço - nariz vermelho, pintura facial -, que você também começa a evitar.
  4. Você é diagnosticado com coulrofobia: medo patológico de palhaços.

A essência de todas as fobias é a evitação. Você tenta a todo custo fugir do encontro com o objeto do medo (“estímulo aversivo”, em psicologuês) pra não sentir aquela ansiedade horrível.

Você teria um fantochinho desses em casa?

O problema é o efeito colateral: quanto mais você evita o estímulo, mais sensível você fica pra doses menores dele. Uma foto de um nariz vermelho na sua timeline e seu coração já acelerou.

O tratamento clássico pra fobias se parece muito com o “tratamento” do Rei Mitrídates (sem a parte de beber veneno). Você coloca o paciente de frente com seu medo gota por gota: primeiro, ele classifica imagens associadas ao objeto conforme o nível de ansiedade que cada uma produz, de 0 a 100; depois, o terapeuta mostra essas imagens ao paciente, das menores às maiores, uma por uma, e finaliza com um relaxamento. Isso segue assim por umas 6 sessões. A taxa de sucesso é gigante.

A mitridatização também está na base do tratamento de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), fobia social, síndrome do pânico e um monte de outras doenças. E se você olhar mais fundo, vai descobrir que ela está em tudo.


Qual é o medo que você deixou crescer por que não quis olhar pra ele? Como você pode chegar perto dele devagarinho, uma dose pequena por dia?

Esse ano, escolha um medo e mitridatize ele, como o jovem Rei fez. A mitridatização já impediu assassinatos, erradicou doenças e curou fobias. Você sabe que ela não tá de brincadeira.

Tudo depende de você beber a primeira dose, a menor de todas. Ela vai ser ruim de engolir e amarga feito limão. Mas o que é mais amargo do que fugir do medo pra sempre?

Comece a ser Rei hoje.

Henrique Souza

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Psicologia, tecnologia, educação.

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