O dia em que 40 professores do interior do Tocantins descobriram o Duolingo

Feb 18, 2017 · 7 min read

A cidade é Marianópolis, uns 180km da capital. É inverno, então o sol das nove da manhã faz só uns 38°C. Coisa pouca.

Dentro da sala, o friozinho do ar condicionado e a companhia de 40 professores de todas as três escolas do município, incluindo duas da zona rural.

A situação: uma nova lei tornava obrigatório ensinar inglês em todas as séries do ensino fundamental e médio. O problema: a maioria dos professores não sabia nada de inglês — nem o básico.

Minha missão era ensinar os fundamentos da língua inglesa pra aquelas 40 pessoas — partindo do zero, em três horas de aula. Essa é a história de como isso aconteceu com a ajuda do Duolingo.


O que acontece quando a sua cidade recebe os Minions do Projeto Rondon

A cada 6 meses, o Ministério da Defesa envia equipes de jovens universitários pra cidades pobres do Brasil. Essa galera vem de universidades públicas e privadas do país inteiro e passa 15 dias promovendo palestras, oficinas e eventos nessas cidades. Cada cidade recebe 16 jovens.

A ideia é levar conhecimento útil sobre saúde, educação, justiça, trabalho, cidadania… E criar “multiplicadores”: pessoas que vão regar e fazer florescer isso tudo. Esse é o Projeto Rondon, que comemora 50 anos de vida em 2017.

Os alunos que participam do Rondon se chamam de “rondonistas” e tem que seguir várias regras durante a operação. Uma delas é vestir sempre o colete ou a camiseta do Projeto, que são daquele amarelo marcatexto. Por isso, o apelido de minions.

O Rondon movimenta as cidades mais do que o circo quando chega. Dá pra entender, né? Do nada, 16 minions (mais 4 coordenadores e 1 militar) com cara e sotaque de estrangeiro chegam fazendo barulho, convidando sua mãe pra oficina de saúde da mulher e seu filho pra feira de ciências. É intenso.

No início, a população fica confusa. Quem é esse pessoal? O que eles querem numa cidadezinha do interior do Tocantins? Com o tempo — e com a ajuda de um exército de crianças que gruda no Rondon — o céu vai clareando e a cidade toda começa a participar.

Algumas crianças grudam literalmente na gente. Mas a gente gosta.

O que dá pra multiplicar em 3 horas de aula de inglês?

Nos últimos três dias de operação, o secretário de educação pediu a oficina de inglês pra gente. Pelo visto, a lei tinha deixado todo mundo nervoso e se perguntando: “será que vai dar tempo de se adaptar?”.

Eu e uma menina da UnB topamos o desafio de criar a oficina. A gente tinha dois dias pra montar tudo e, apesar de fluentes na língua, pouca experiência como teachers.

O secretário de educação nos passou uma lista de conteúdos que cobria todas as séries até o ensino médio. Era uma checklist de 6 páginas que ia desde cores até objetos da casa, do escritório, da escola, indo do verbo to be até os auxiliares. Tentar despejar aquilo tudo nos professores ia ser inútil. O cérebro não funciona assim.

Pra começar, decidimos o que seria a coisa mais importante daquela aula: ensinar os professores a serem autodidatas da língua. Sabe aquele esforço todo que a NASA faz quando precisa tirar um foguete do chão? Eles queimam centenas de quilos de combustível pra fazer ele subir, mas bem menos pra manter ele voando. Nossa missão era ser esse impulso.

Isso aqui! Lindo demais, né?

Por isso, escolhemos o Duolingo. Eu já tinha usado ele pra aprender francês nas férias com 15min por dia — e deu super certo. Eu terminei todas as lições em 3 meses com um pouquinho de esforço diário e já me sentia confiante pra conversar (devagar) em Francês. E tudo isso de graça, só com um celular.

Como estudante de Psicologia, eu também sou apaixonado pela ciência por trás do app. Ele junta um monte de princípios simples (mas poderosos) da aprendizagem e te faz aprender de verdade. É bizarro como as lições ficam gravadas na sua mente feito uma tatuagem, mesmo depois de meses.

E assim, fechamos o plano: a primeira metade da aula pra ensinar o basicão e a segunda metade inteira pro Duolingo. Parecia fácil.

Como encher uma sala de corujinhas verdes no Tocantins

Na manhã da aula, a menina que ia comigo acordou muito mal. Ela sentia uma dor horrível na cabeça e enjoo. Naquele estado, era impossível dar aula.

Tranquilizei ela (“deixa comigo, vai dar tudo certo!”), peguei as folhas, o notebook, o projetor e fui. Cheguei na escola municipal e encontrei todo mundo já pronto. Um ônibus tinha acabado de chegar com os professores da zona rural. Senti o peso da responsabilidade gelar minha barriga.

Aquele nervosismo que te dá vontade de sumir num arbusto.

“Good morning! My name is Henrique and I will be your English teacher today.” — foram minhas primeiras palavras. Antes que eu pudesse traduzir, a turma toda riu e deu pra ouvir uns “Vixe! Entendi foi nada!” com aquele sotaque forte. Eu ri junto e me apresentei. Todo mundo ficou mais calmo.

A primeira metade da aula foi um parto — no melhor sentido. A gente fez um esforço gigante, gritou, cantou e ficou suado. Mas no fim, segurou um no braço do outro e saiu um bebê tocantinense: as primeiras noções de inglês. A turma aprendeu a conjugar o to be no presente, alguns greetings e um pouco de vocabulário.

Eu lembro que pra ensinar que see you significa “até logo”, eu brinquei e mandei eles completarem: “a gata está no ________”. Sim, eu fiz esse trocadilho. É horrível, eu sei.


Se o bebê nasceu na primeira parte da aula, na segunda ele já aprendeu a andar.

Embaixo, algumas dúvidas de vocabulário que eles perguntaram. Uma das professoras queria muito saber como se falava cerveja.

Eu abri minha conta do Duolingo e projetei o site no quadro, bem grandão. Eu fiz um discurso sobre como é maravilhoso que qualquer pessoa no mundo com um celular e internet possa aprender inglês de graça. Os professores ficaram curiosos e pediram o nome do app. Escrevi bem grande no quadro.

Eu mostrei a tela inicial e ensinei aonde se clicava pra começar. Cliquei na primeira lição e apareceu a pergunta:

Todo mundo achou fácil e apontou pra figura certa. Cliquei pra confirmar e a barrinha verde apareceu, com aquele som gostoso de resposta certa (“plim!”). A turma toda sorriu, comemorando.

Eu mostrei os tipos diferentes de perguntas que o Duolingo faz, às vezes do português pro inglês e às vezes o contrário. Os alunos escutavam cada palavra com os olhos vidrados na tela, esperando o próximo “plim!”.

Também mostrei o que acontece quando se erra uma pergunta — e eles adoraram que isso não zera o progresso no app. Continuei a lição com eles e a empolgação só aumentava. Quando a lição acabou com aquele som de trompete e a mensagem de “lição concluída!”, eu já tava pronto pra começar a próxima, mas fui interrompido.

Os professores estavam batendo palmas, comemorando a vitória. A primeira lição deles no Duolingo. Bati palma junto.


Até o fim da aula, fizemos mais umas quatro lições e conversamos sobre o app. Falamos sobre usar o Duolingo na sala de aula e também como tema de casa — e sobre como inglês é só uma das línguas que ele oferece. Os professores se maravilharam.

A aula foi terminando. Comecei a pedir pra todos baixarem o app com a wi-fi da escola, mas parei porque ouvi um “plim!”. Era uma das professoras usando o Duolingo no próprio celular enquanto eu explicava. Eu me sentia ofendido ou feliz? Acho que feliz.


Eu achei que esse tempo longe do Sul, lá no Tocantins, ia me ensinar que a gente mora no mesmo país mas é muito diferente. Eu aprendi o contrário: que o que a gente tem em comum é uma força muito maior, gigante, colossal.

O Duolingo é uma invenção que sabe usar isso que a humanidade toda tem em comum: vontade de aprender, paixão por jogos e um prazer enorme em ouvir um “plim!” quando faz algo certo.

Henrique Souza

Written by

Psicologia, tecnologia, educação.

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