aos velhos amigos

sob a agressiva e urgente chuva de verão, as crianças brincam, se lavando na lama. do outro lado do campo, vejo uma casa parecida com a de um amigo meu. sem surpresa, noto sua aparição, se debruçando na janela. imediatamente percebo que ele nunca morou onde eu achei que morasse até então. meu amigo admirava a mesma cena que eu; mas não me via.

“so i claim i’m not excited with my life anymore, so i blame this town, this job, these friends, but the truth is it’s myself”

é com alguma relutância que eu vos peço: não me compilam a me explicar. não pensem que me acho complexo, mas vocês é que são tão complexos e não se aproveitam disso. por isso odeio a ideia de ter que lhes pedir tudo, não mais do que a de que vocês me peçam.

durante muito tempo me acovardei de ser autossuficiente — engraçado é que todos já fomos e não soubemos. não me curei de todos os traumas e anseios. minha qualidade mais ávida talvez seja ter, muitas vezes, na minha mente, culpado vocês pela minha mesquinharia. talvez vocês tenham me acostumado aos restos, talvez eu tenha pensado que não merecia nada mais, talvez eu tenha interpretado mal minhas próprias incertezas; e agora que eu preciso de vocês, vocês já não precisam de mim, e a culpa é mesmo minha. mas eu sou tão jovem, eu era tão inocente, e vocês não podiam me poupar, esse nunca foi seu papel. enquanto abandonavam a inocência, eu estava esperando ouvir, com fulgor, as palavras dos céus, só para chegarem, afinal, em bocas efêmeras, tardas, esfarrapadas; não imundas, apenas sujas o suficiente para que eu mesmo ainda pudesse limpá-las. e àquela altura, vocês já tinham voltado das suas respectivas grécias, com seus louros na cabeça, seus esgares quietos e lascivos de quem nunca hesitou em fugir de casa. mas eu estou aqui agora — carregando o terrível fardo da senciência — sem vocês, como, no fundo, (sejamos categóricos) sempre estive. e já não quero ser alvo de pena! se sente pena de mim, não é meu amigo; e se não é meu amigo, desculpe o incômodo.

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