Eleições norte americanas: possíveis cenários sociais

por Davi Koteck e Matheus Gomes

Créditos: Agência Brasil e LM Otero/EPA

Dando sequência às duas reportagens feitas pela HubNews sobre as eleições norte-americanas, falamos com dois especialistas sobre o futuro do país no âmbito de programas sociais.

O doutor em história pela Universidade de Georgetown, Bruno Biazetto, opinou sobre as projeções sociais nos possíveis governos Hillary Clinton e Donald Trump, candidatos que disputarão as eleições nos Estados Unidos.

HILLARY

Em um possível governo Clinton, me parece que existe uma possibilidade de um aumento de políticas sociais, pelo menos dentro dos padrões americanos. Isso vai acontecer por uma série de motivos, tais como o fato de que ela precisa conquistar o apoio dos eleitores de Bernie Sanders. Para isso, vai ser necessário aumentar o suporte ao crédito estudantil, bem como uma espécie de “perdão organizado” das dívidas estudantis. Além disso, maiores prazos de carência e juros menores vão ser elementos importantes para trazer os jovens para o lado de Hillary. Outro ponto importante pode ser o aumento do programa de “food stamps” (comida grátis) e de uma ajuda de custo para mães solteiras com baixa renda. Contudo, o aumento desses programas depende de apoio republicano no congresso, o que provavelmente não vai acontecer. Outra via que pode ser explorada pela candidata é um investimento maior na infraestrutura do país, o que representaria um boom em empregos na construção civil, e ajudaria diretamente a população de baixa renda. Pelo menos há por parte da candidata um reconhecimento de que a questão social é um problema e quais são os grupos sociais que precisam de mais ajuda, mas a tarefa de modificar os programas sociais americanos está comprometida pela falta de apoio da maioria republicana no congresso.

TRUMP

É difícil saber qual é a política de Trump em qualquer área. Ele é muito bom em criar factoides (como o muro com o México), mas nunca detalha como essas políticas serão executadas. Paradoxalmente, os brancos pobres, que são os maiores apoiadores de Trump, esperam grandes políticas sociais do candidato. Para Trump, o problema social vai ser resolvido com a expulsão dos imigrantes e com protecionismo comercial. Teoricamente, isso traria de volta empregos industriais sólidos, como nos anos 1950 e 1960. Mas isso não passa de algo inatingível, a realidade do comércio mundial é outra e não permitem mais esse tipo de realidade. Com a sua mentalidade empresarial, Trump não aceita a ideia de que o governo possa ser uma ajuda substancial para alavancar os mais pobres para algo melhor.



Francisco Marshall, historiador, arqueólogo e professor da UFRGS, também falou sobre o futuro das políticas sociais norte-americanas.

HILLARY

Ao contrário do que os não americanos pensam, existe polarização ideológica e política aguda nos Estados Unidos. Os conservadores, que se dizem liberais, desejam, sobretudo, um estado desonerado com redução de impostos e consequentemente redução de despesas sociais, no ensino, na saúde, em políticas de assistência social. Estas, por outro lado, recebem uma forte demanda nos EUA, por questões internas e também pelo constante fluxo imigratório. Do outro lado do campo, os democratas, que se dizem “socialists” (termo com que se autodesignam), também se enxergam como liberais, mas de esquerda — diferentes dos pseudo-liberais brasileiros, que meramente realizam uma defesa de interesses do grande capital, sem visão de sociedade. Os liberais americanos têm uma visão de sociedade muito mais elaborada. E nesse campo os democratas, ora representados por Hillary Clinton, têm uma pauta de ações relacionadas de demanda social muito consistente, o que significa um apoio vigoroso às políticas educacionais, de saúde e assistenciais, que são prioridade orçamentária. Logo, isso significa um peso de política pública muito grande; nas questões de saúde, ai está o chamado Obama Care, uma mudança muito ousada na saúde norte-americana que Barack Obama realizou no seu governo e que agora precisa ser consolidada. Para isso se apresenta a candidatura Clinton, para que não seja desarmada essa iniciativa que enfrentou um lobby poderosíssimo do sistema de saúde privado americano; trata-se de uma ferramenta de política pública de assistência social muito forte que quem realiza são os democratas. No plano interno americano, quanto à política de assistência social, essa é a principal diferença entre os blocos liberal de esquerda, com um compromisso social bem marcado.

TRUMP

A campanha de Donald Trump cresceu no nicho da opinião publica americana que é hostil as políticas sociais. Todavia, durante a campanha, ele percebeu que isso impõe um preço eleitoral muito alto. Logo, por demagogia, ele flertou com mudanças nesse programa; então há certa ambiguidade, mas a tendência é que ele siga sua orientação inicial, que corresponde ao ideário em que ele, Donald Trump, efetivamente acredita, que é um ideário liberal e egoísta, ou seja, que acredita na virtude do capital livre e em todos os seus mitos, entre os quais, que o capital livre produz uma dinâmica em última instância socialmente virtuosa, com um ganho social disseminado, o que não é verdade, pois mesmo os economistas liberais sabem que isso não ocorre jamais e que é necessário uma serie de expedientes corretivos pela ação pública (do Estado) para que haja tranquilidade social; ou seja, atendimento às condições mínimas que produzem a paz social e que beneficiem a todos, inclusive ao grande capital. Então, a candidatura de Donald Trump é arriscada para ambos, para as políticas sociais americanas, para a própria tranquilidade social e logo para a eficiência da economia americana como um todo. A tendência, caso ele saia vitorioso, o que não é impossível, é que aconteçam cortes muito substantivos nos programas sociais que caracterizaram a era Obama, e que também tiveram desenvolvimento na era Bill Clinton e recuo na era George W. Bush, um fato que podemos ver possivelmente repetido com um eventual governo Trump.


Essa foi a terceira e última reportagem da série Eleições norte-americanas: possíveis cenários. Para conferir as outras clique aqui. Lembrando que as eleições nos Estados Unidos ocorrem no dia 8 de novembro.

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