Do homem comum - #01

O que resta após as doces ilusões?

Créditos: Kuba Domanski

O homem comum fora esperado durante muito tempo. Na verdade, fora cuidadosamente planejado. O nome composto, o local de nascimento, a escolha do obstetra, a modalidade do parto: tudo pensado com extremo zelo. O homem comum não poderia ser mais um, deveria ser o homem comum, e, assim, carecia apenas do bom e do melhor.

As primeiras lembranças residem na mais tenra infância. Tudo soa belo, sorrisos flutuam para lá e para cá, o mundo é colorido e harmonioso, como deve ser. Não se ouve não, porque convencionou-se não dizer não aos homenzinhos comuns. Os pequeninos carnavais, as festinhas juninas, os primeiros joguinhos do colégio - ele fora competitivo desde cedo, embora impaciente com os coleguinhas mal-nascidos. Os amorezinhos platônicos, meio amorezinhos, meio platônicos. O grande salto: um dia, o homenzinho comum decide emular o voo de um dos seus super-herois preferidos. Termina no chão. Fratura o braço, as pessoas se enervam, ‘como você deixa o menino sozinho?’ Ainda dolorido, imagina que tornar-se um super-heroi não é tão simples. Mas a quem interessa negar os desejos de um homem comum?

Ao homem comum, nunca fora preciso muito esforço. O ótimo colégio e as notas sempre altas; os recordes nas competições de natação - com o pai sempre presente; as viagens, muitas viagens, nas férias e fora delas, a vida, sempre tão comprometida com o seu sucesso, logicamente incapaz de decepcioná-lo. A aprovação na universidade pública, o primeiro carro, novinho em folha - ele sentiu-se justamente recompensado pelo seu mérito inquestionável. O primeiro emprego, na empresa da família, os dois meses fora, supostamente estudando um novo idioma. Terminada a graduação, demitiu-se, deixou o país. Devia perseguir seus sonhos, muito embora, naquele tempo, não lhe parecesse que seus sonhos, na verdade, poderiam não ser realmente seus.

As mulheres, sempre no plural. No começo, ainda jovem, repetia ser um colecionador de corações, se vangloriava disso; mais tarde, maduro, assustou-se com a própria tolice. Na verdade, sempre fora um mero descartador. As mulheres - a busca da perfeição feminina - serviam, tão somente, como sombra da própria insegurança. Não deixava que ninguém chegasse muito perto, não se dava o direito de abrir-se, pois assim, você sabe, denuncia-se os mais fracos. Na cama, lhe admirava como a simbiose física era sucedida por um incorrigível abismo sentimental. O homem comum ri, de canto de boca, quando desconfia que as suas piores transas foram, na verdade, com a mais incrível mulher que já conhecera. À medida que as cartas lhe faltavam à manga, o homem comum descobriu quanta gente boa se foi, quanta real intimidade lhe escapou, e o quanto ele nunca fora capaz de admitir tudo isso. Ele preferiu perder do que se desculpar-se; afinal, as desculpas não fazem parte do repertório moral de um homem comum. Ele tornou-se, tão somente, um terceirizador de responsabilidades.

A idade cronológica trouxe, ao homem comum, um espanto incorrigível sobre a criatividade da vida. Aquela namorada, que na verdade nunca fora uma uma namorada, tornou-se a mulher admirável que ele jamais imaginou. Sentiu-se mal. O irmão, geralmente mais estimado do que ele próprio, cedeu às pressões do mundo, para sempre. As finanças eram estáveis, mas nunca lhe pareceu que o dinheiro, na sua essência, pudesse ser tão oco. Embora cercado por muita gente - ‘como ele é carismático!’ - o homem comum sentia-se ferido pela solidão, como se ela o perseguisse em absolutamente todos os lugares. Sentia-se fragmentado em dois, em muitos.

De súbito, fora tomado por uma crise, uma crise daquelas, justo quando tudo parecia se acertar. Escondeu-se. E, pouco a pouco, todas as suas máscaras caíram, sem exceção, imediatamente à sua frente. O poder idealizado, a ambição desmedida, a força projetada. Todas as certezas se foram. Ele sentiu-se nu. Mas, ao invés de desfalecer, foi tomado pela gratidão: a liberdade nunca lhe parecera tão real.

Tudo acontecia rápido demais. A morte do pai fora repentina, e lhe admirava como até aquele sujeito, outrora tão forte e corajoso, fora igualmente condenado à leveza da vida. Era exatamente como o homem comum se sentia: de fato, o mundo era um palco e ele, um mero ator.* O autismo do filho (um duro golpe nos seus sonhos juvenis), a carreira sempre em espiral, a vontade irrealizável de parar, de parar tudo, ainda que apenas por um segundo. De parar o casamento, longe de ser feliz. A esposa, mulher de fibra, apresenta recorrentes quadros de depressão nos últimos anos. Ela está abaixo do peso, cada vez mais. Ela é a mais linda mulher que ele já conheceu na vida. A essa altura, o homem comum entende que o amor não mora na superfície, e que é preferível viver um dia de crua lucidez do que uma vida de doce ilusão.

Agora, na metade final da vida, o homem comum está resignado. Basicamente, porque tornou-se comum - e este sempre fora o seu maior receio. As promessas etéreas não se realizaram e ele, incrédulo, sente que a vida lhe escorreu pelos dedos, como um desses líquidos quaisquer. Ele nada fez, pois, na verdade, não havia nada a ser feito.

Assustado, ele pula da cama, corre até a janela. Lá embaixo, a multidão caminha, apressada. Todos no mesmo sentido.

Rapidamente, o homem fecha a janela, desce as escadas, foge de casa. Caminha em sentido contrário.

Ele sequer é notado.

***

*para saber mais, ouvir Limelight, do Rush.

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