O que o Rio de Janeiro ganhou com as Olimpíadas?

Destino reconhecido mundialmente, o Rio de Janeiro é a cidade que se mistura a natureza exuberante de seu sítio geográfico em seus cartões postais, e representa o Brasil pelo mundo, mas não transparece aos mais desatentos a heterogeneidade de seu território. Residem na Cidade Maravilhosa cerca de 6,5 milhões de habitantes em 1,2 milhões de quilômetros quadrados que transcendem em muito a imagem da propaganda oficial turística, negligenciando e escondendo pelo menos 1/3 da população carioca (moradores da Zona Norte) de viver neste paraíso vendido nas imagens.

O sonho carioca de sediar os Jogos Olímpicos nasceu há mais de 20 anos quando importantes projetos de desenvolvimento urbano para a cidade surgiram inspirados nos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992). Os espanhóis despoluiram praias e revitalizaram bairros degradados deixando um legado extraordinário para a população local (fato tão marcante que se tornou referência mundial em Legado Olímpico) com novas áreas de lazer, opções em mobilidade urbana integradas de qualidade, descentralização social, cultural e econômica, além de programas de apoio à prática de esportes. 20 anos depois outra cidade usou as Olimpíadas para investir em desenvolvimento urbano em bairros degradados e abandonados, já com resultados perceptíveis: Londres 2012.

O projeto olímpico desenvolvido para o Rio de Janeiro em 2004 (Rio2004) com base no projeto de Barcelona tinha claro o local de atuação para copiar o sucesso: a Zona Norte carioca. O evento beneficiaria diretamente 2,1 milhões de cariocas (residentes na região)

Dados do Censo 2000 mostrando a distribuição da população carioca e a densidade de sua ocupação

Neste eixo geográfico da Zona Norte (Regiões Administrativas de Anchieta, Complexo do Alemão, Ilha do Governador, Inhaúma, Irajá, Jacarezinho, Madureira, Maré, Méier, Pavuna, Penha, Ramos, Vigário Geral) estão situados: o Aeroporto Internacional do Galeão (local de chegada dos turistas estrangeiros), os principais eixos rodoviários de chegada a cidade (a partir da região Sul, Sudeste e Centro-oeste do país) em direção aos famosos pontos turísticos, além de um grande e secular eixo ferroviário metropolitano de transporte de passageiros, porém carente de investimentos de modernização. Estas regiões da Área de Planejamento 3 carioca (área com piores IDH da Zona Norte) seriam altamente beneficiadas depois de anos de abandono após o fim do ciclo industrial carioca na década de 70, assim como foi em Barcelona e em Londres. A proposta também viria a tentar compensar as décadas de política pública de “higienização” da Cidade Maravilhosa, onde favelas inteiras foram movidas da Zona Sul para a Zona Norte.

Mapa do Rio de Janeiro. A Zona Norte da Cidade equivale a região em tons de verde (AP3) mais 4 regiões administrativas da “Grande Tijuca” (AP2), a Zona Oeste, aos tons de azul e amarelo (Áreas de Planejamento 4 — Zona Oeste Litorânea — e 5)

Mas o projeto do Rio de Janeiro de 2004 foi substituído pelo de 2016. Enquanto originalmente o objetivo era utilizar áreas federais da Ilha do Fundão (terrenos dentro do Campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e o entorno da Avenida Brasil (onde há grandes galpões e terrenos vazios, abandonados desde a década de 70, além de bairros residenciais com baixíssima verticalização), o de 2016 priorizou uma região da cidade com pouco mais de 500 mil habitantes (RA Jacarepaguá, Curicica e Recreio dos Bandeirantes), mas com grande interesse pela prévia disponibilidade de terrenos já em nome de grandes construtoras (especulação imobiliária), mas de difícil acesso ao Rio de Janeiro dos Cartões Postais, Aeroportos e grandes eixos rodoviários, metroviários ou ferroviários.

Mapa de mobilidade do Rio. Com as Olimpíadas em 2016 foram inseridos os BRT e a Linha 4 do Metro, investimentos públicos para atender as áreas Olímpicas

Antecedendo os Jogos Olímpicos, grupos se manifestaram evidenciando uma Olimpíada de Exclusão: um evento que exclui a população da cidade sede. Alguns fatos corroboram para esta afirmação:

- Desapropriação de áreas residenciais para construção do Parque Olímpico: moradores da Vila Autódromo (uma pobre vila de pescadores que ocupava a área há mais de 60 anos) foram “convidados” a se mudar pela Prefeitura do Rio, o que remeteu mais uma vez a política higienizadora anteriormente aplicada;

- Altos valores dos ingressos: o ingresso mais barato da festa de abertura equivalia a ¼ do valor do Salário Mínimo brasileiro;

- Construção dos estádios olímpicos em locais de difícil acesso por transporte público: a linha de metrô teve que ser ampliada e por conta de atrasos nas obras, só funcionou durante os Jogos sendo fechado ao público logo depois para “reparos”. Após as Olimpíadas, observou-se que os 9,2 bilhões gastos (Metrô e Lote 0 do BRT Transoeste) atendiam a poucos cariocas já que o Parque Olímpico foi construído em uma área com baixa demanda;

- Áreas de Lazer e Esporte em local de pouco aproveitamento pela população: o Centro Olímpico foi construído em uma região da cidade de pouco mais de 500 mil habitantes, local este com uma das menores densidades demográficas da cidade e que é principalmente ocupada por condomínios com extensas áreas de lazer privadas.

Mapa a Autoridade Pública Olímpica da localização do Parque Olímpico

Atualmente a há uma grande discussão em torno do Legado Olímpico, mas apenas sobre os prédios e instalações construídos para atletas de alto rendimento em uma pequena área de 25 mil m² (dos 1,2 milhões de km² da cidade) cuja manutenção está onerando os cofres públicos municipais (somente a conta de energia do velódromo está prevista para 3,5 milhões em 2017). Com a falta de interessados da iniciativa privada para um novo uso deste local, optou-se pela entrega a administração federal. Curioso fato, já que o projeto Rio2004 já seria em uma área federal (Ilha do Fundão) que tinha um histórico de dificuldades no curso de Educação Física da UFRJ.

O legado de mobilidade até hoje vem sendo questionado pelos cariocas, já que a obra do Metrô, com recursos Estaduais, contribuiu para o cenário de falência do mesmo sem que fosse revertido grande benefício a população fluminense, já que em seu trajeto não há demanda (como anteriormente citado). Os corredores exclusivos de ônibus — BRT — foram calculados para uma demanda muito menor do que a que existe. Apesar dos quase 17 bilhões de reais gastos criando os BRT, nunca foi calculado exatamente quanto as empresas de ônibus passaram a economizar com a redução de funcionários e de frota com este patrimônio público que já nasceu saturado, e quanto deveria ter sido revertido para a população na redução do custo de viagens.

Propaganda oficial da nova linha do Metrô.

A proposta de Olimpíadas na Zona Norte do Rio de Janeiro era clara: recuperar ambientalmente, socialmente e economicamente uma das regiões mais carentes do Rio e transformar as Olimpíadas nos jogos da inclusão, recuperando uma área de antiga ocupação na cidade. Entretanto alguns gestores cariocas optaram por “soluções” mais simples transferindo o evento para área pouco habitada e de poucas opções de acesso público na Zona Oeste.

Pelo menos uma parte do projeto original de 2004 foi mantido: a recuperação da Baía da Guanabara (palco dos esportes a vela). As ações a serem realizadas no local não foram concluídas e o fato tornou-se um escândalo internacional, atletas passando mal após navegarem em suas águas. O episódio virou chacota com a #RioWater virando top trend do twitter mundial, após as mazelas sanitárias cariocas serem encenadas em um vídeo caricaturado com turistas e atletas passando mal nas praias cariocas. As praias do entorno da Ilha do Fundão assim continuaram inalteradas.

Outro exemplo de má implantação do projeto dos Jogos Olímpicos é a recuperação social, que se limitou a ocupação de militares das Forças Armadas Nacionais em torno dos pontos turísticos e locais do evento. Já na Zona Norte entraram com tanques de guerra em uma das maiores e mais violentas favelas do Rio de Janeiro (Complexo do Alemão), mas esta ação não foi acompanhada pela intervenção social municipal necessária (urbanismo, educação, saúde e outras carências locais) e acabou existindo apenas para evitar transtornos dos frequentadores dos jogos e o controle midiático internacional evitando grandes confrontos armados (que hoje ocorrem corriqueiramente resultando em mortes evidenciando que não houve um legado neste assunto).

O legado verde foi representado com figuração dos atletas plantando sementes na cerimônia de encerramento, quantidade de mudas destas sementes plantadas não repõe sequer a quantidade de árvores derrubadas nas obras dos projetos do compromisso olímpico, como por exemplo o BRT Transcarioca, que custou 2 bilhões de reais e que para o jornalismo nacional e internacional foi considerada uma grande gambiarra.

Entrega das obras do BRT Transcarioca em Ramos, bairro da Zona Norte do Rio de JAneiro

A mudança do local do evento aumentou outro problema já existente na cidade: moradia. A Vila olímpica (e outros empreendimentos residenciais) foi construída para atender a um público alvo de classe A e B, mas o que aumentava no Rio de Janeiro desde 2000 (segundo o IBGE) eram famílias de 1 a 3 salários mínimos. Os imóveis encalharam e simultaneamente a cidade ficou sem abrigo para os desempregados e sem tetos que triplicou em seu número total.

Até mesmo o legado esportivo da Zona Norte foi contraditório, pois as opções de prática de esportes na região foram reduzidas para a construção de obras de transporte público (trajeto entre o Aeroporto Internacional e o Parque Olímpico, irônico não?).

Galpão construído em 1972 e atualmente abandonado em Ramos, Rio de Janeiro.

Segundo o Prefeito do Rio em regime na época da mudança do plano da Zona Norte para a Zona Oeste, coube exclusivamente ao COI a responsabilidade, pois em declaração pública: “Fui contatado reservadamente por um membro da Comissão do COI que me disse que o Fundão (região da ZN, local dos Jogos Olímpicos no plano original) era inviável. Nas suas palavras: a Olimpíada é uma festa da raça, as teleobjetivas não podem fazer um foco ao mesmo tempo num superatleta e em alguém subnutrido.” A declaração fez sentido quando o Presidente do COB descartou Zona Norte para receber os Jogos Olímpicos: “agora, vamos receber os visitantes na sala (em alusão a um lugar arrumado para receber as visitas em casa). A competição está fadada ao êxito!” Nesta lógica, qual lugar da casa seria a representação da Zona Norte do Rio de Janeiro com seus milhões de habitantes?

No meio de toda esta mudança entre os projetos ‘Rio2004’ e o ‘Rio2016’, apenas uma obra olímpica de mobilidade chegou à região do projeto Olímpico original (BRT Transcarioca que liga o Aeroporto Internacional à Barra da Tijuca), mas os resultados não correspondiam com o esperado e nem com o espírito olímpico já que trouxeram emissão de poluentes dos ônibus e redução de áreas de lazer e esportes em seu trajeto na região.

Neste cenário de poluição das águas e do ar, destruição das áreas verdes, a mensagem para as futuras gerações de possíveis atletas que poderão não chegar a vida adulta é que o legado Olímpico (que hoje é alvo de tantos interessados em discutir o destino dos prédios e estádios) ignorou toda a história e importância de construção de um legado real para a cidade (e aos cidadãos) do Rio de Janeiro. A pequena divulgação nacional e internacional, parece que será irrelevante a todas as esferas de todos os poderes toda a discussão sobre como resolver.

Quem sabe nas próximas Olimpíadas não sejamos tão negligentes?

Hugo Costa — Geógrafo