A música independente é uma m*rda

Facilmente nos esquecemos que falamos de conceitos que podem não ser claros para toda a gente.

Em parte foi por isso que comecei a escrever este blog.

Tento na Indiesciplina escrever sobre a indústria da música, com foco em Portugal e de assuntos que não são frequentemente abordados por quem anda neste mundo. A ignorância impera neste meio e eu considero-me também um ignorante.

OK!

Existe este conceito de música independente, mas o que é isso afinal?

Não existe uma boa definição do que é uma editora, músico ou artista independente.

No caso dos músicos e artistas, serão aqueles que não estão vinculados contratualmente a nenhuma editora major.

No caso das editoras, são todas aquelas que não são… majors!

Existem três editoras majors a nível mundial:

Sony BMG
Universal Music Group
Warner Music Group

No caso das editoras em Portugal, a definição será diferente.

Todas as editoras associadas à AFP(Associação Fonográfica Portuguesa) não são independentes.

Porquê?

Porque as três grandes (majors) são associadas da AFP e como tal têm um peso muito grande nas decisões tomadas dentro desta entidade.

Porque os interesses defendidos pela AFP são os interesses das majors. O que não quer dizer que não sejam válidos para os independentes.

Porque a AFP e a Audiogest têm sido na prática a mesma entidade. Partilham os mesmos recursos e até a mesma morada.

Porque em termos de vendas representam a maior fatia de mercado.

UPDATE: A AFP já não se encontra ativa em Portugal e como tal todas as responsabilidades, tanto quanto sei , foram passadas para a Audiogest.

Audiogest?

A Audiogest tem como missão a recolha e a distribuição dos direitos conexos das editoras inscritas nesta associação.

Estamos a falar de uma associação que não tem um site, que pouca gente conhece, que se esconde no meio de nós e que opera de forma pouco transparente (nem sequer tem um site?!).

Isto quer dizer que todo o dinheiro gerado através dos direitos conexos das editoras está à mercê das decisões das três grandes.

Tudo muito bem, tudo muito bonito

Mas para o público em geral(e não só) tudo isto passa ao lado.

Questiono se interessa saber se uma música da qual gostamos é de um artista independente ou não.

Who cares?

Este é um ponto que os independentes (Associações, Editoras, Músicos) dão por garantido que o público sabe o que é e se interessa pela causa independente.

Andam a lutar para ter condições iguais para todos que fazem música.

Imagina o seguinte cenário:

A maior parte da música que passa nas rádios e outro meios é de editoras e artistas independentes.

A maioria destas editoras e artistas não está registada em nenhuma sociedade de gestão de direitos. Não recebe direitos conexos nem direitos de autor.

Isso quer dizer que o dinheiro gerado pela exploração dos direitos é pago na mesma às entidades gestoras de direitos (pelos espaços de concertos, bares, discotecas, cafés, restaurantes e elevadores!) mas não é distribuído aos autores e donos das gravações porque as entidades não sabem quem são (não estão registados!) mas sim canalizado para outros fins dentro destas entidades gestoras de direitos.

É o que acontece hoje, é um cenário real e disfuncional.

Este comportamento alienado por parte dos independentes promove uma monocultura na indústria musical onde quem mais tem com mais fica, aniquilando oportunidades a outros dentro do meio.

Na natureza as espécies vivem em simbiose e necessitam da diversidade e de valências complementares para sobreviver de forma sustentável. Este sistema é mais forte e mais resiliente.

As monoculturas, são sistemas frágeis em que quando uma espécie falha, falha todo o sistema. Isto será importante para todos os que valorizam a música, sejam eles independentes ou não.

É um ponto que precisa de ser evidenciado, ter melhor música passa por um ecossistema mais diverso e isso é conseguido com um setor independente melhor preparado e com menos monocultura.

Antes de abordar o público com o chavão independente é preciso preparar os músicos e editoras com conhecimento teórico e prático que fortaleça o setor.

A propósito disso, a AMAEI está a promover workshops muito importantes nesse sentido.

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