A hipótese atraente do Construtivismo

Veja, edição de 21 de abri de 2010.

Fiz a besteira de cair no acervo digital da Veja. Tá bem legal: você pode pesquisar com facilidade todas as edições, o sistema grifa os termos da busca nas páginas e é possível imprimir qualquer conteúdo.

Bem, depois dessa facilidade toda eu me senti na obrigação de imprimir essa pérola em PDF, converter para PNG e publicar aqui. Deve ser super chato ter um mala (eu) insistindo nessas discussões chatas [1, 2] e absolutamente inúteis sobre educação, economia, política, direita, esquerda. Já bastam os outros chatos famosos e distantes…

Nossos popstars.

Enfim, essa opinião publicada pela Veja em 2010 nem é tão importante. Provavelmente não foi a única nessa linha, vide as outras que mencionei acima. O que me interessou, particularmente, foi a troca de ideias que comecei no Facebook sobre a necessidade de discutirmos e debatermos mais. Nem precisa ser com os popstars. Cada dia que passa tenho mais certeza de que todas as pessoas encarregadas de informar adequadamente a população estão fazendo justamente o contrário. Quem poderia questionar tanto absurdo está em silêncio, provavelmente ocupado demais fazendo o país funcionar, como disse um amigo na discussão sobre esquerda e direita. Com uns cinco anos de atraso, num domingo (estou desocupado, oras) sairei em defesa do construtivismo.

Destruindo o destrutivismo

Dos quatro equívocos que o economista (*afe*) colunista da Veja mencionou, podemos questionar até o que ele comeu no café da manhã do dia infeliz que resolveu abordar o assunto. Vamos por partes:

1) Podemos, de boa fé, colocar Piaget e Vygotsky na mesma cartilha para facilitar o entendimento do leigo. O uso do termo “hipótese” pelo autor da coluna é exatamente este — leigo. Considerando o trabalho profundamente experimental e rigorosamente científico que deu origem à epistemologia genética e à teoria da mediação instrumental, aquele camarada não faz a menor ideia de que o construtivismo (piagetiano) e o sócio-construtivismo (Vygotsky e seguidores) são teorias científicas e, sendo assim, não buscam nada além da validação ou refutação (temporária) de hipóteses. Buscar a verdade é um problema de outro mundo (o dele, talvez).

2) A própria noção dos andaimes mentais (esquemas, signos) e seu funcionamento (equilibração, mediação) é a solução para a crítica feita. Aprender ortografia, tabuada e significado de palavras não é um fenômeno escolar, mas da interação do indivíduo com seu mundo, mediada por algum objeto físico ou psicológico que opera dentro de um sistema cultural.

3) O cidadão pede dados. Bem, basta abrir um livro do Piaget em qualquer página para ser literalmente atordoado por dados (quem leu entende o que quero dizer). Se não gosta de dados estrangeiros lá de meados do séc. XX, consulte qualquer estudo que aplique alguma variação do método clínico no Brasil. É dado pra matar qualquer banca. Bastaria que esse sujeito tivesse encontrado no Google um dos estudos construtivistas mais espetaculares realizados no Brasil: Carraher, Carraher e Schliemann foram a campo para testar suas hipóteses e, pasmem, coletaram dados que sustentam (juro!) a teoria construtivista tanto stricto (na Matemática) quanto lato sensu (no aprendizado em geral): o indivíduo constrói as estruturas de conhecimento na interação com a sua própria realidade. Por um lado, os adolescentes do estudo elaboravam estratégias de resolução dos problemas matemáticos no seu cotidiano (calcular preços, receber pagamentos e calcular o troco na feira) que são diferentes daquelas apresentadas na escola, porém funcionalmente equivalentes. Por outro, as estratégias pedagógicas formais da escola, se desconectadas da realidade do aprendiz, pareciam fatalmente menos eficientes. Isso é o tal construtivismo que não funciona, sutil como uma marreta na cabeça de gente que não sabe o que fala.

4) A parte final fica ainda mais bonita em 2015, na era da aprendizagem significativa e da educação massiva personalizável até o último fim de cabelo via tecnologias de informação e comunicação. Contra o construtivismo, adotemos o fordismo educacional (tem até Revolução Industrial no argumento do colunista): nada de personalizar os materiais para cada perfil de aluno; nada de construir mundinhos cheios de significado para o aprendiz; nada de considerar a experiência do professor na definição do conteúdo programático e das estratégias pedagógicas. Legal mesmo é montar uma linha de produção seriada, do Oiapoque ao Chuí. É bem verdade que muitas vezes os professores não têm tempo de sobra ou preparo pra elaborar materiais tão personalizados, mas isso não significa que devemos simplesmente abandonar a questão. Vamos à qualificação e melhoria das condições de trabalho dos professores, oras.

A parte final do texto do Sr. Claudio de Moura Castro é emblemática:

De fato, centenas de pesquisas rigorosas mostram as vantagens dos materiais estruturados ou planificados no detalhe. Seus supostos males são pura invencionice de seitas locais. Quem nega essas conclusões precisa mostrar erros metodológicos nas pesquisas. Ou admitir que não acredita em ciência.

Faltou sugerir quem nega as conclusões pode ter estudado ciência, ao invés de apenas acreditar nela lendo orelha de livro e resumo de artigo.

PS: Tem design de sobra nesse texto. Encontre seu andaime e aproveite.

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