Chopin Piano Concerto No.2 com a Berlin Radio Symphony Orchestra. Foto: Peter Adamik (2014)

Crônica ingênua e metafórica sobre a dinâmica interna de orquestras

Aviso ao leitor: entendo pouco, na verdade praticamente nada, sobre orquestras. Apesar da minha formação de músico, nunca toquei numa orquestra e as experiências musicais coletivas das quais participei resumiram-se a bandas de fanfarra na escola e uma banda relativamente popular de manguebeat que tivemos na graduação.

Falemos um pouco sobre orquestras. Arranjo complicado esse, que requer a adesão e comprometimento de uma série de músicos (uma centena, nas grandes), regidos por outro.

Esse outro, o maestro, não necessariamente compreende profundamente cada instrumento, mas entende de propor e coordenar o arranjo. Não é uma posição fácil, até porque precisa lidar com os anseios de diferentes músicos, que têm expectativas e contribuições distintas para o grupo. Dá tanto trabalho que até virou série.

Por incrível que pareça, a parte mais curiosa e menos discutida sobre orquestras é o piano. Bem, cada músico tem seu instrumento, devidamente transportado em alguma espécie de estojo. Reconhecemos prontamente um músico na rua, no transporte coletivo ou em qualquer outra situação pela presença inegável do estojo. Ter é ser, dizem os filósofos. No caso dos músicos, (trans)portar é ser.

Ter é ser.

Não exatamente. O pianista não transporta nada e imagino que essa não seja um questão. Qualquer pianista em desenvolvimento provavelmente separa um canto da casa para alojar o piano junto à mobília. É, de fato, um belo item de decoração da residência de pessoas (aparentemente) eruditas. Pianos têm peso físico e simbólico, e os pianistas aproveitam ambos para, de alguma forma, construir outro processo identitário para o portar-para-ser. Pianos, em sua inevitável carga de erudição e matéria são itens que não podem ser ignorados. Talvez venha daí a expressão “carregar o piano”. Não faz muito sentido lembrar do fardo de carregar um oboé ou um trompete. Tenho dúvidas sobre o transporte de harpas e tímpanos, mas certamente a expressão não teria o mesmo efeito.

A injustiça, curiosamente, afeta outra categoria sistematicamente ignorada pelo público: aqueles que carregam o piano. O pianista certamente reconhece a importância dessa equipe, mesmo que isso não apareça explicitamente nas performances da orquestra. Imagino que o maestro, na sua condição de gestor, deve lembrar da fundamental contribuição daqueles que transportam o piano, seja lá de onde, para o palco antes dos ensaios e apresentações. Minhas dúvidas dizem respeito à percepção dos demais músicos sobre a importância desse fardo.

De certa forma, é possível até mesmo que haja algum tipo de sentimento de injustiça pelos músicos que (trans)portam seus próprios instrumentos, quando se comparam ao pianista. Há razões bem compreensíveis para isso: todo santo dia de ensaio, o trompetista se arruma, limpa e acomoda o trompete no estojo, dirige-se ao seu automóvel ou outra forma de transporte e percorre o trajeto até o teatro/auditório/whatever tendo sempre a segurança do seu instrumento como preocupação. O pianista, eles pensam, sai de casa tranquilo e encontra magicamente o instrumento limpo e preparado para uso no ensaio ou apresentação.

É uma injustiça. A presença (erudita e física) do piano resulta de um serviço invisível, de um grupo que não recebe aplausos ao carregá-lo. O pianista sabe da importância de quem faz o transporte. O maestro lembra do pessoal da “técnica” que esteve por ali. Os outros músicos, dependendo da percepção do problema, podem pensar que se trata de uma regalia ou parte inevitável da composição e funcionamento mundanos da orquestra. O público, bem, não faz a mínima ideia, apesar de ter sido beneficiado diretamente pelo esforço do trabalho invisível.

Se considerarmos, por alguns instantes, que a razão de existir da orquestra é oferecer uma experiência musical maravilhosa ao público, o dilema da regalia versus parte inevitável da realização sequer faz sentido. Carregar o piano é uma das muitas operações de suporte para a performance da orquestra, assim como a bilheteria, recepção, iluminação, limpeza etc. Não há nada de indigno ou “menor” em carregar o piano. Quem carrega é parte do time.

Mas, se por ventura, a razão de existir da orquestra é pagar os salário dos músicos e garantir oportunidades regulares de recompensa para seus egos musicais, a situação muda radicalmente. O serviço de carregar o piano torna-se uma regalia de fato, já que os demais músicos não recebem o mesmo benefício. A empatia pelo pianista, detentor de privilégios injustos, desaparece e aniquila, sem piedade, a contribuição dos invisíveis que (trans)portam o piano e que nada têm a ver com o problema. O pianista não é um de nós e deveria ser condenado a carregar o próprio piano para igualar o tratamento entre os membros da orquestra.

Numa só tacada, uma percepção equivocada sobre a razão de existir da orquestra transforma situações inevitáveis (ninguém transporta um piano sozinho) em privilégios e desintegra as ações de suporte de grupos que, apesar de serem invisíveis, são fundamentais no resultado final. Em última instância, o público sai perdendo com uma orquestra sem piano ou um conjunto de músicos que passa mais tempo discutindo a responsabilidade sobre o transporte dos instrumentos do que ensaiando as peças.

Para complicar e encerrar, podemos lembrar que, dependendo das condições de trabalho da orquestra, é possível que outros músicos ajudem o pianista a carregar o piano. Pode não haver pessoal de apoio para a operação, então alguns membros do grupo resolvem ajudar para que o público possa experimentar o espetáculo com todos os instrumentos possíveis. Se a questão da regalia for a base da avaliação das relações no grupo, agora temos um grupo de músicos tentando, a todo custo, acabar com as ações de suporte dos músicos que carregam o piano para ajudar o pianista. É injusto, eles dizem, pois desequilibra novamente as relações de trabalho. Os queixosos podem até pedir para os carregadores serem afastados da orquestra, pelo incômodo que causam ao bom funcionamento do grupo.

Por fim, a orquestra agora não tem nem piano nem mais uns cinco instrumentos, tocados pelos músicos que ajudavam no transporte. Também não tem mais pianista, pois este não consegue carregar sozinho sua ferramenta de trabalho. E, dependendo da complexidade e demanda de vozes da peça escolhida, não tem mais espetáculo.

A única coisa que sobrará são os salários dos demais músicos queixosos e as oportunidades para seus egos musicais serem aplaudidos. Naturalmente, as peças ficarão comprometidas, o público começará a cair, as oportunidades de aplauso se tornarão escassas e os salários dos queixosos também se tornarão inviáveis. Xeque-mate.

Resumo da orquestra: a menos que você não esteja interessado em carregar o piano, não atrapalhe quem está.

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