Projetando Cidades (2011–2015)

O ano de 2016 será (está sendo) excelente: crise política para todo lado, incertezas econômicas, eleições municipais, revisão para baixo em todos os índices de crescimento, revisão para cima no teto da inflação… E mesmo assim vou continuar apostando na diferença que o Design pode fazer no desenvolvimento econômico e social.

Estou aproveitando minhas férias para remodelar o espaço do Loop na Ufes para receber um programa de extensão que é, ao mesmo tempo, a continuidade e ampliação do modelo de trabalho iniciado na Imersão em Design na Agroindústria e a implantação de um novo centro público de Design no ES, cujo modelo é baseado nos resultados da minha licença-capacitação.

O Centro Itinerante de Design e Ativismo para o Desenvolvimento Econômico e Social, “Cidades”, é um programa de extensão guarda-chuvas baseado no modelo Hélice Tríplice que abarcará três frentes de trabalho:

  1. Introdução da cultura de inovação em Design nos negócios capixabas, desenvolvendo ações semelhantes às do Centro Brasil Design (PR), Centro Pernambucano de Design (PE) e Centro Design Empresa (MG).
  2. Formação de [designers] empreendedores;
  3. Incubação de projetos de inovação intensivos em Design.

A pergunta é: de onde saiu isso? Bem, de cinco anos de tentativas.

Errar muito, errar feio, errar rude. E tentar errar de novo.

Embora o Cidades seja meu grande projeto na Ufes a partir de 2016, a ideia é bem antiga. Estou na oitava versão da Matrix, sendo que seis das anteriores funcionaram dentro da Universidade, uma se propôs a ser uma ONG e outra foi uma empresa privada da qual fui sócio-cotista. Cada uma dessas iniciativas deu certo em algum aspecto e falhou miseravelmente em outros. Vamos ao flashback, em ordem cronológica:

1. NIC/DDI-UFES

Equipe do Núcleo de Interfaces Computacionais (2011)

No final de 2011, ainda no Núcleo de Interfaces Computacionais — NIC, tentei um projeto-piloto de incubadora. Eu não tinha a experiência necessária e o Curso de Design ainda estava longe do movimento empreendedor que hoje está em todo lugar. De tudo que era necessário, eu só tinha o espaço físico e a vontade para fazer.

2. Disciplina Optativa no Curso de Design: Pré-Incubação

Entre o final de 2012 e o início de 2013 (calendário infeliz pós-greve da Ufes) ofertei uma disciplina optativa de Empreendedorismo para despertar os estudantes do curso para a temática. Tratou-se de um esforço de pré-incubação dos possíveis interessados na Index — Incubadora de Novos Negócios em Design e Experiência do Usuário. Pela primeira vez meu projeto de incubadora tinha nome, sobrenome e objetivos… E a disciplina seria um chamariz para quem quisesse ser efetivamente incubado.

De um corpo discente de cerca de 400 pessoas, 21 se inscreveram para a disciplina, 14 foram selecionadas e 11 concluíram o curso.

Os alunos do curso de Design conheceram as histórias de fundação (vulgo perrengue) das empresas Interama, Aldabra, Start You Up, Lifebrand, Juuz (atual O Parque), Balaio, Expurgação, Karla & Kristina Gonçalves Fotografia ao longo do semestre, além de palestras sobre carreira e projetos de vida, contabilidade, direitos autorais e empreendedorismo.

Meu objetivo era que os participantes conhecessem a história de egressos e colegas de curso que já estavam empreendendo, além de conhecerem outras áreas de conhecimento fundamentais para a criação e gestão de negócios. No final da disciplina deveríamos ter modelos de negócios (leia-se um esboço de canvas) que poderiam ser então incubados na própria Index ou em outras instituições com processos de incubação mais maduros (na época, Ifes e TecVitória). Nenhum modelo foi concluído e ninguém procurou os editais de incubação, de forma que resolvi tentar outra estratégia.

3. Index, a pseudo-incubadora que virou agência

Com o término da disciplina, comecei a buscar instâncias na Universidade que necessitavam dos serviços de designers, tentando atrair possíveis empreendedores por meio da recorrência de freelances. O conceito parecia razoável, já que negócio nenhum se sustenta sem receitas recorrentes.

Na realização, acabei operando como um agente ao invés de fomentar a organização de grupos produtivos, coletivos ou afins: encontrava demandas de Design no campus, definia os parâmetros de atuação para os alunos interessados na temática, apresentava os dois lados e acompanhava de longe os progressos. Todos os problemas da galáxia surgiram nessa péssima ideia, desde propostas indecentes de trabalho semiescravo para os alunos, chegando a acusações de concorrência com empresas do mercado.

4. InovaSerra, a ONG

Uma das coisas que ficou bem clara com a experiência da optativa de empreendedorismo foi a urgência de aproximar o Curso de Design da Ufes do mercado. O problema era que o mercado e os profissionais locais dialogavam pouco (melhorou, mas ainda é pouco) e eram raros os fóruns de discussão de ações conjuntas para promover o setor (isso melhorou bastante). Em paralelo à organização da Index dentro do campus, planejei a fundação de uma organização não-governamental que atuaria especificamente na criação daqueles espaços de diálogo e na promoção do Design entre o empresariado e poder público (aviso: slides eikebatistianos a seguir).

Aproveitei a expectativa dos negócios gerados pela Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016 e fiz o dever de casa: estudei todas as previsões de investimento, planos de ação do Sebrae e Ministério do Esporte visando identificar oportunidades para empresas e profissionais de Design no ES com a realização dos dois eventos. O plano do Instituto de Inovação da Serra — InovaSerra (bem, meu estudo apontou o município com maior potencial) nunca saiu dos slides, mas foi um excelente exercício para pensar em políticas públicas. Também me mostrou a dificuldade de captar recursos na iniciativa privada (ps: o exemplo não foi suficiente, como veremos mais adiante).

5. Prime, primeiro flerte com o mercado

A quinta tentativa, já em 2014, chamou-se Prime — Projeto de Integração com o Mercado, e visou formar parcerias com instituições com problemas de Design nível hard, que seriam desafios atraentes para os alunos.

Eu experimentei essas parcerias de quatro formas distintas, tentando literalmente ver qual delas daria mais certo (ou menos errado) dentro do mesmo semestre letivo. A primeira tinha como objetivo buscar projetos com pouco ou nenhum recurso, especialmente filantrópicos ou de interesse social (resolvendo assim o impasse da “concorrência” da Index), e levá-los para dentro das minhas disciplinas. Problemas do mundo real trazem incompatibilidades do mundo real: burocracia para os estudantes acessarem os espaços de projeto, calendários incompatíveis (o projeto precisa caber no semestre letivo), turnover das turmas dificultando a continuidade do projeto no semestre seguinte… Não rolou.

Na segunda modalidade de parceria, convidei alguns profissionais para compartilhar suas experiências e tentarem desenvolver, junto com os alunos, projetos com o ritmo e restrições do mercado. Dessa possibilidade surgiu a disciplina Tópicos Especiais em Branding, Empreendedorismo e Audiovisual (vulgo Apocalipse), que reuniu a Lifebrand, Eyemove e Glue Studio (empresas de egressos) na construção do branding do curso de Design da Ufes. A disciplina foi difícil, especialmente pela quantidade de trabalho para casa acima da média, o que representou um impasse para os alunos.

Na terceira modalidade surgiu a excelente parceria com o LEDS do Ifes, que continua até hoje e será extremamente importante no Cidades. O LEDS é um laboratório de ensino, incubadora, escola de jedis, think-tank, tudo junto. Paulo Sérgio e Calhau, coordenadores do LEDS, abraçaram a ideia de começarmos a trabalhar juntos, mesmo que fosse indicando bolsistas, falando juntos em eventos ou contribuindo em projetos comuns, cada um na sua especialidade (Engenharia de Software e Design).

Sessão de avaliação de usabilidade do Sincap no LEDS do Ifes.

Ainda no segundo semestre de 2014, aconteceu a Imersão em Design na Agroindústria, a mais bem-sucedida das parcerias. Este foi o projeto onde finalmente conseguiu resolver as principais dificuldades anteriores: alunos interessados em empreender (membros da empresa júnior, Phocus); um arranjo produtivo no qual a diferença da presença de uma cultura de Design foi nitidamente percebida — a agroindústria familiar; um calendário de ações lapidado para funcionar dentro do semestre letivo; uma situação de projeto controlada e não percebida como concorrência pelas empresas de Design (interior do ES), na qual os alunos puderam ficar imersos e ter livre-acesso a todos os problemas de projeto (a vivência nas propriedades rurais funcionou como uma “incubação in loco”); e as parcerias certas (Ifes de Barra de São Francisco, Instituto Sindimicro e Prefeitura de Barra de São Francisco), com atuações perfeitamente complementares.

Primeira edição da Imersão em Design na Agroindústria (2014)

Desde os primeiros esboços da Index eu tentava entender como a Hélice Tríplice (modelo de inovação que articula universidade, empresas e governo) efetivamente funcionava. Na Imersão o modelo não apenas funcionou, como mudou radicalmente a realidade do arranjo local e transformou (sem volta) a história de cada instituição envolvida. Enfim, eu tinha o modelo.

6. Prototípica, a iniciativa privada

Entre julho de 2013 e julho de 2015 fui sócio-cotista da Evne Comunicação e Design. No final de 2014, eu e Alex Cavalcanti, diretor executivo da empresa e amigo de longa data, decidimos experimentar o mesmo modelo de incubação in loco da Imersão na iniciativa privada.

Seminário gratuito de Inovação para Pequenos Negócios na TecVitória (2015)

Mesmo tendo atendido pouco mais de 100 pequenos empreendedores nas oficinas e workshops da Prototípica (nome fantasia da Evne na iniciativa), o projeto não se mostrou sustentável sem o aporte de recursos de parceiros como o Sebrae ou outras entidades de fomento (lembram da dificuldade de captação de recursos privados no InovaSerra?). Na escala e nos setores que a Prototípica tentou atuar (principalmente microempreendedores individuais), o Design vive um imenso paradoxo: por um lado, a convivência com aqueles empreendedores escancara o potencial transformador que o Design exerceria caso aplicado naqueles negócios; por outro, o empreendedor desse porte encontra muitas dificuldades para investir em Design e, principalmente, gerenciar o investimento realizado.

Repetindo os cases mundo [exemplos aqui e aqui] e Brasil afora, ficou evidente a necessidade de um modelo como aquele que funcionou perfeitamente na Imersão, mas que operasse como uma política pública, subsidiada, para a superação daquele primeiro degrau: a entrada e consolidação do Design como cultura naqueles empreendimentos. Com essa constatação, optei por me desligar da sociedade na Evne e encerrou-se também o experimento da incubadora privada.

7. Escritório-Modelo de Projetos

Por volta de maio de 2015, comecei a mobilizar estudantes interessados em participar de iniciativas semelhantes à da Imersão. Num primeiro momento, o Escritório-Modelo tinha o intuito de aproveitar a curiosidade dos alunos com os resultados da Imersão de 2014. Lembrando da baixa adesão à Index em 2012 (15 de 400), o Escritório-Modelo começou concorrido: o grupo no Facebook e lista de presença nas reuniões chegou a ter 40 nomes.

Na época dos primeiros encontros não havia planos, apenas a necessidade de continuar o atendimento aos agricultores familiares de Barra de São Francisco e manter a abordagem empreendedorismo-imersão-desafio-mercado. Aos poucos, outros projetos surgiram e repeti algumas estratégias que deram certo nas iniciativas anteriores: trazer gente do mercado pra falar, buscar projetos desafiadores dentro do campus, aproveitar questões iniciadas em sala de aula e assim por diante.

Membros do Escritóri0-Modelo (grupo Moinho) na segunda Imersão em Design na Agroindústria (2015)

Assim, o Escritório-Modelo experimentou a dimensão que faltava nas iniciativas anteriores: autogestão dos projetos e dos grupos, pelos próprios alunos envolvidos. Cada equipe criou sua identidade, seus objetivos, cronograma de atividades, dividiu responsabilidades e tarefas.

Membros do Escritório-Modelo (grupo Comuta) com a Equipe Vitória Baja (2015)

A partir de agosto de 2015, a situação ficou ainda mais interessante: me afastei para realizar a licença-capacitação e os grupos ficaram, literalmente, operando sozinhos no espaço do Loop. A última peça do quebra-cabeças rumo à incubadora encontrou seu lugar: há alunos do curso com interesse e capacidade de organização suficientes para passar pelo processo de incubação das suas ideias, mesmo na ausência de orientação intensiva ou de infraestrutura apropriada para o desenvolvimento dos projetos.

Enfim, Cidades.

A proposta do Centro é oferecer uma infraestutura mínima (no futuro máxima) para que grupos autônomos de estudantes de Design possam 1) desenvolver suas competências e habilidades empreendedoras; 2) na interação com problemas do mundo real; 3) com a devida orientação e mentoria de especialistas da academia e do mercado; 4) visando disseminar uma cultura de Design que contribua para o desenvolvimento regional, econômico e social.

Lançaremos o Cidades na semana calórica de 2016/1 (março), junto com o edital de incubação (curso de formação de empreendedores + infraestrutura para desenvolvimento do projeto) e calendário de eventos deste ano. Teremos palestras, oficinas e lançamentos de livros também.

Olá, 2016 :)

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