Retrospectiva 2004–2018

Nota: publiquei este post originalmente como thread no Twitter e divulguei na página inicial temporária do meu site, que está em reformulação.

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Depois de 15 anos de docência, 12 anos da defesa do mestrado e (quase) cinco do doutorado, comecei a entender o que realmente gosto nas coisas que eu estudo. Demorei muito a entender e inclusive sofri muito pela aparente “volta” que precisava dar a cada nova empreitada.

É uma mistura bizarra de genealogia/arqueologia para entender como chegamos às práticas atuais e, na maioria das casos, encrencar com as deformações correntes da teoria/método/processo… É chatice mesmo, mas nessa brincadeira me obriguei a sempre voltar aos clássicos, pioneiros e acompanhar os desdobramentos, evoluções, bifurcações e assim por diante. Não é pesquisa “histórica” e sim da “prática” e dos “praticantes”. Acabei me tornando “conservador”… “Conservador” no sentido de não respeitar muito os spinoffs acríticos sobre as zilhões de interações que configuraram o estado “atual” das coisas, especialmente aqueles que instrumentalizam o conhecimento.

Minhas sagas são espelhos disso: Design Thinking, Pensamento Computacional, Empreendedorismo e relação Universidade-Governo-Empresa, Cidades Inteligentes, Aprendizagem e, mais recentemente, Ciência de Dados.

Não é só caminho que fica mais longo quando você desiste de ler o bestseller à venda nas estantes pagas da Saraiva. É mais difícil explicar e até publicar usando a forma “conservadora” desses temas. Você acaba sendo o chato que repete “mas isso não é aquilo repaginado?”.

Analisando esses 15 anos (e talvez antes), o padrão foi o mesmo. Acho graça de certas coisas que escrevi, nem tanto pela incompletude (normal), pouca profundidade (ô!) ou inconsistências (persistem), mas pela insanidade de tentar atacar temas difíceis tão cedo. Vamos aos trabalhos, em sequência mais ou menos cronológica:

2002, Cultura x Web · Não tenho mais o primeiro artigo, do P&D de 2002 (Brasília), mas era sobre “O fator cultura na World Wide Web” (haha, tinha que dar onde deu). Ainda estava na graduação e queria entender as “convenções culturais” que conformavam as interfaces da Web.

2005, xType · Já formado e ainda metido com fontes, escrevi sobre o editor de fontes para web xType, que ainda funciona se você tiver sorte (academia.edu).

2006, Design x Psicologia · O efeito “mestrado em psicologia” era perceptível. Três artigos no P&D de Curitiba marcaram a virada:

  1. Três Fases Psicossociais do Design (academia.edu)
  2. Diálogos Rizomáticos, que tentava articular Bonsiepe e Deleuze em uma concepção de design (academia.edu)
  3. Isto não é um telefone, subproduto da minha dissertação de mestrado (academia.edu)

O artigo do estudo completo da dissertação foi submetido em 2007 e saiu apenas em 2011… Mas saiu (academia.edu).

2007, GVCrime · Lá pelo meio do caminho, Alex Cavalcanti, Rafael Pylro e eu criamos o GVCrime, que além de monitorar diariamente homicídios, tentativas de homicídio e balas perdidas na Grande Vitória (ES), gerou o “famoso” relatório sobre a “Lei Seca capixaba” (academia.edu).

2010, Eleições e redes sociais · Dos crimes às eleições (sem trocadilhos), comecei a me interessar mais explicitamente por pesquisas em Psicologia Social. Na Conferência WebBR de 2010 (MG), apresentei o estudo “e-leitor”, com dados coletados por uma turma inteira de estudantes de design da Ufes (academia.edu).

2010–2014, Pensamento Computacional · Apesar de ter sido feita no doutorado, a pesquisa do “e-leitor” não era meu interesse principal. A articulação design x psicologia x computação (meu karma) finalmente ganhou corpo. São três trabalhos que ajudam entender o percurso:

  1. Minhas práticas na disciplina de Multimídia do Curso de Design da Ufes, tentando pensar Vygotsky na aprendizagem digital (academia.edu)
  2. Com o projeto da tese já qualificado, apresentei a pesquisa das plataformas de aprendizagem do Pensamento Computacional no #11.ART em Brasília (academia.edu).
  3. Nossa experiência com oficinas de Scratch para professores (academia.edu).

2013, primeiro livro · Por incrível que pareça, o livrinho “Design sem Designer” (DSD) tentou amarrar tudo que havia produzido até então (PDF). É difícil de ler, com uma versão “light” mais ou menos começada há algum tempo. Escrevi o DSD como plano de voo para o futuro. São perguntas que gostaria de responder um dia. Não há respostas (felizmente) naquelas 64 páginas de texto obtuso.

2012, openEvoc · Se as contribuições da computação e psicologia para minhas questões no design ficaram cada vez mais claras, as contribuições da computação para minhas pesquisas em psicologia estavam apenas começando. Ainda em 2012 desenvolvi e publiquei o artigo que apresenta o openEvoc (academia.edu). Utilizei o software na pesquisa da tese e desde então auxiliei centenas de pessoas em suas pesquisas.

Parecem coisas diferentes e não são. É o pensamento que gerou o xType e o GVCrime, investigando a relação do senso comum com as tecnologias, como fizemos no “e-leitor”, turbinada por teorias e métodos da psicologia social.

2011, TERDesign · As pesquisa do senso comum imerso nas tecnologias reverberou nos meus interesses no design. Naquele no, o finado Núcleo de Interfaces Computacionais (NIC) desenvolveu o projeto TERDesign, financiado pelo CNPq. A ideia era ajudar artesãos e grupos produtivos a melhorar seus produtos no diálogo com as tecnologias. O TERDesign (academia.edu) foi a experiência que ajudou a pensar as oficinas de Scratch no ano seguinte, como também foi o piloto da Imersão em Design.

2014–2018, rumo ao interior do ES · A Imersão foi a tentativa de realizar o argumento do Design sem Designer na extensão universitária: agroindústrias familiares participando (em diferentes graus) da concepção de identidades, embalagens, estratégias de comercialização (academia.edu).

2017, em chamas · A imersão não foi fácil e, de certa forma, tornou-se inviável. Este é o tema do primeiro número do Incendiários (EPUB). Paulo Freire foi o tema do segundo número (EPUB). Ainda que tardiamente (~2012), comecei a ler os textos de Freire e encontrei diversas pontes com minhas questões sobre processos de aprendizagem, sobre a imersão e mesmo sobre apropriação tecnológica.

2016–2018, Cidades · Por último, e não menos importante, entre 2016 e 2018 fiz um experimento de incubação e aproximação universidade-empresa absolutamente incrível e igualmente frustrado. Decidi não publicar a pesquisa que gerou o “Centro Itinerante de Design e Ativismo para o Desenvolvimento Econômico e Social” (Cidades, escrevi sobre aqui) e abandonar tentativas como aquela em definitivo. Do Cidades, há duas publicações. Uma em fase de revisão, que relata os resultados do evento que realizamos na Ufes em 2016, atendendo 85 empreendimentos em um domingo. Imaginem cerca de 30 estudantes, orientando micro e pequenos empreendedores sobre identidades visuais, embalagens, pontos de venda, web e mídias sociais, produção audiovisual… Foi incrível e difícil de repetir.

A outra produção relativa ao Cidades, que saiu como capítulo do livro organizado por Rogerio Câmara e Fátima Santos na UnB (PDF), discute outras iniciativas de induzir clusters empreendedores em cidades inteligentes, criativas, humanas, [insira o adjetivo da moda aqui]…

2018–2019, pós-doutorado · Depois desta saga pulando de tema em tema, parece que conseguirei enfim integrar essa bagunça. O pós-doutorado, que terminará em março deste ano, foi a experiência mágica de pensar em tudo desde 2004 e olhar para o futuro com a calma que nunca tive. E dessa história saíram dois resumos [PDFs: 1, 2], um poster [PDF: 3] e um artigo completo no ano mais produtivo da carreira (link).

Os Cemunis, minha casa desde 1998 :)

Em 2019, completarei dez anos de Ufes, aparentemente mais preparado (e calejado) do que estava em 2009. Passou da hora de comemorar as oportunidades incríveis que tive de fazer as maluquices que eu faço.

Obrigado a todos que participaram disso tudo que está aí.