Sobre universidades e câmaras de eco

Quando Milton Santos escreveu “O intelectual e a universidade estagnada”, eu estava na reta final para fazer o finado VestUfes. Quase 20 anos depois, os argumentos dele podem ser promovidos de crítica a profecia autorrealizadora, pelo menos na minha instituição.

Nós esquecemos, acidentalmente ou deliberadamente, a função social da universidade, preferindo o aplauso reforçador dos grupinhos carreiristas às vaias prontamente endereçadas aos autores solitários de novas ideias.

Estagnação é pouco, somos câmaras de eco. Treinamos orientandos de iniciação científica e trabalhos de conclusão de curso a citar mais do que pensar. Fazer parte do grupo que usa o autor tal (os whatever-ianos) é mais importante do que questionar, atualizar ou até atacar as ideias dos grandes. É heresia discordar de gente com fator de impacto alto. Não consigo sustentar meus próprios argumentos, então me escondo atrás de um bestseller. Recentemente, publiquei no Incendiários o caso de Chomsky versus Everett e Wolfe. É assustador.

Aliás, na era fitness, a única obesidade desejada é a do Lattes. Alguém deveria produzir um documentário estilo “Super Size Me” dos currículos acadêmicos. O que tem de drive-thru e combo com brinquedo por aí não é brincadeira.

Eu não deveria postar esse tipo de crítica nas redes, pois é extremamente contraditório. Os likes são reforçadores, embora a maior parte de quem curte não lerá o texto escrito por Milton Santos. Já me perguntaram “quem você pensa que é”, por discordar de um figurão. A resposta é óbvia: a menos que eu tenha um transtorno de personalidade, simplesmente “penso que não sou o figurão”. Citação deveria ser escada, não muleta.

Divirtam-se: http://www.adusp.org.br/files/revistas/11/r11a03.pdf