KPOP E ANTI-NEGRITUDE

No último texto que escrevi, falei um pouco sobre como a forma hostil que o Ocidente recebe o K-pop é, em grande parte, fruto de racismo. Nele, também expliquei sobre o “racismo anti-asiático” e a minoria modelo.

O que, hoje, pretendo escrever dialoga ainda com o kpop e, mais ainda, com o mito da minoria modelo. Resumindo, o asiático é considerado a “minoria modelo”, a partir do momento que a branquitude concede a este grupo racial os privilégios de “quase branco” — o asiático é a minoria racial que deu certo e é usado como exemplo, através de falsas simetrias, para legitimar um discurso meritocrático. Além disso, o mito da minoria modelo serve também para jogar minoria racial contra minoria racial porque, roubando uma frase da Kemi: “A solidariedade antirracista é o maior medo da supremacia branca” .

Nenhum mito, entretanto, se consolida sozinho. Por mais que o mito da minoria modelo também seja, até certo ponto, nocivo para asiáticos, a comunidade asiática, na maioria das vezes, não possui interesse algum em se desvincilhar dele, pois isso significaria a perda de seus privilégios. Sustentar o título da minoria modelo corresponde a comprar o discurso da meritocracia e, por conseguinte, comprar o discurso da anti-negritude.

No contexto da Coréia do Sul, existe uma certa homogeneidade racial e, portanto, o racismo e a xenofobia pelos quais a diáspora asiática passa cotidianamente não são sentidas da mesma forma por asiáticos nascidos na Ásia — há, porém, diversos outros problemas em países asiáticos, como a relação política e econômica com o Ocidente, que não podem ser ignorados. Contudo, a anti-negritude é global.

A anti-negritude ser global significa que em todo espaço o racismo anti-negro existe. Em qualquer lugar do mundo, pessoas negras nascidas na África ou em condição de diáspora vão sentir o peso da raça.

a anti-negritude é a constante global; é o que unifica e sustenta a supremacia branca ao redor do mundo, mesmo que a branquitude não seja a norma, como acontece na Ásia. (KEMI, 2016)

Quem já acompanha o mundo da indústria pop sul-coreana está habituado a ver polêmicas envolvendo k-idols e blackface. Mas a forma como a indústria do K-pop difunde a anti-negritude, para mim, é ainda mais sutil, velada e, sobretudo, cruel.

Para quem não sabe, o universo do K-pop conta com muitos rappers asiáticos que possuem carreira solo ou constituem a rap-line de algum boy ou girl-group. Tais rappers, muitas vezes, utilizam de uma estética que remete à negritude como, por exemplo, tranças e dreads. Na tentativa de manter esta estética, eles assumem uma postura de “agir como um negro”. Ou seja, utilizam de estereótipos racistas para tentar usar raça como fantasia/estética: agem como “gangsteres”, “traficantes”, “bandidos”. E até mesmo dizem saber “falar como negros”.

Para além da problemática de pensar na negritude enquanto algo que você possa vestir e tirar quando convém, é interessante pensar que esse comportamento diz muito sobre a visão que se tem sobre o negro. O racismo atua, principalmente, quando negamos a pessoas racializadas o direito de possuir uma identidade. Grupos raciais não-brancos, em geral, são vistos como sendo uma massa homogênea — são todos iguais, caricaturas. A partir do momento em que se assume que existe um “agir negro” ou um “falar negro”, assume-se que todos os negros agem e falam da mesma forma.

Lembro muito bem de quando ouvi a música “Bermuda Triangle” pela primeira vez e fiquei bastante incomodado com um verso, do rapper Zico, em que ele diz: “pele amarela, mas alma de negro”. Em outro caso, no comeback do BTS, Hoseok, durante a performance da música de maior pegada hip-hop do novo álbum, usa tranças. E há diversos outros casos que podem facilmente ser encontrados.

A questão não é individualizar a culpa dessas manifestações da anti-negritude, até porque dificilmente são os K-idols que escolhem o próprio visual para realizar performances. Entretanto, é também um tanto quanto contraditório que eles aceitem o figurino, mesmo se dizendo tão fãs de hip hop e tendo como ídolos pessoas negras. O que devemos cobrar — ao invés de usar o discurso batido de que na Coréia não há debate racial e, portanto, eles não sabem o que é ou não ofensivo — é que haja um mínimo de responsabilidade e respeito por parte do K-idols (e da indústria) em relação a algo que é ofensivo, inclusive, para muitos fãs deles. Estamos em 2018 e a internet está aí pra isso: acesso à informação e a materiais sobre militância racial.

Convém sempre usar a cultura do outro enquanto estética para ganhar dinheiro, ao mesmo tempo que não há respeito nenhum por esse outro.

Mudando um pouco de contexto, lidemos agora com a diáspora asiática.

O mito da minoria modelo está muito mais presente no Ocidente e muitos asiáticos da diáspora procuram se desvincilhar dele apropriando-se da cultura negra. O imaginário da branquitude sobre asiáticos e sobre negros — e eu pretendo, em um futuro texto, aprofundar a questão de corpos racializados, sobretudo, na pornografia gay — são opostos: se por um lado o asiático é dócil, emasculado e passivo, o negro é hiperssexualizado, hipermasculinizado e bestializado.

Para fugir, então, desses estereótipos, o asiático da diáspora se refugia, muitas vezes, na cultura negra e tenta agir conforme os estereótipos de negro. Além de configurar um ato de anti-negritude — visto que o asiático quer ser negro até certo ponto, afinal, perder privilégios ninguém quer — , isso também pode acabar em misoginia.

Há, contudo, um recorte importante: existe uma grande diferença entre k-idols e asiáticos da diáspora, nesse sentido. Os k-idols compõem uma indústria e lucram muito em cima de cultura negra mesmo tendo atitudes que não demonstrem respeito nenhum por ela. Por outro lado, os asiáticos da diáspora que se aventuram no mundo da música, dificilmente, vão conseguir visibilidade e conseguir, de fato, lucrar (pensem em quantos cantores ou cantoras estadunidenses de ascendência asiática que você conhece e são famosos fora do contexto da indústria pop asiática). Outra coisa, é que nos EUA a realidade de muitos imigrantes asiáticos é também o guetto (inclusive, recomendo um filme chamado Gook).

Para finalizar o texto: é sempre bom lembrar que por mais que tudo o que foi citado aqui não ter o mesmo peso de uma pessoa branca fazendo (e eu estou falando desse caso específico de “apropriação”, não de casos de anti-negritude mais gritantes, como o caso de uma dentista asiático-brasileira que passou meses destratando um funcionário negro em seu local de trabalho), ela não deixa de ser problemática. E é preciso que o fandom de kpop se conscientize disso e que a militância asiática debata anti-negritude em seus contextos.

Por uma militância asiático-brasileiro consciente e pela solidariedade anti-racista!

Arte feita por Ingrid Sá Lee

OBS: Gente, não revisei o texto porque tô com preguiça, então perdoem os possíveis erros de gramática etc.