Masculinidade e Branquitude Frágeis: algumas notas sobre piadas fálicas em torno de corpos racializados.

Eu estava lendo sobre piadas sobre pênis na indústria do entretenimento e percebendo o quão frágil a masculinidade é a ponto de fazer com que homens façam esse tipo de piada para evitar a frustração de uma futura “castração”/emasculação vinda de outras pessoas.

He argues that one important function of sexual humor is to aid in controlling intense anxieties that are shared by the teller and the listener. In contemporary Western society these culturally determined anxieties deal primarily with venereal disease, homosexuality, and castration. Many penis-size jokes in films do, in fact, seem partially explainable in relation to this concept of controlling anxiety and may be classified as castration jokes.(Lehman, 2007)

Quem me segue já sabe que eu pesquiso pornografia e meu TCC é esse com recorte para o corpo racializado, em específico o asiático. Em um outro texto intitulado “Corpo negro, corpo asiático: o corpo racializado na pornografia gay ocidental”, eu falo um pouco sobre a construção do movimento LGBT feito por e para pessoas brancas e as raízes dos estereótipos que circundam o corpo do homem negro e asiático. Em suma, seus corpos representam extremos opostos: o homem asiático emasculado e o homem negro bestializado.

A pornografia faz parte da indústria cultural e, portanto, não está alheia à política e à luta pela hegemonia, que confere à sociedade uma espécie de “senso comum”, uma “visão de mundo”. O cinema, como um todo, é recebido pelo público como sendo um reflexo da realidade, quando ele é mais um recorte específico de uma realidade que convém ser mostrada para quem o produz.

Na pornografia gay ocidental, é comum vermos corpos asiáticos sendo representados como passivos, afeminados e emasculados; enquanto, por outro lado, o corpo negro assume o extremo oposto a partir do momento em que toma o lugar de dominador, hiper-masculino e com um grande pênis. Para quem assiste à pornografia e a vê como um retrato da realidade, tais corpos racializados só são concebíveis dessa forma. Dentro disso, surge a questão do fetiche, tema que, sempre que pautado, vale a pena perguntar: que tipo de corpo negro e corpo asiático são desejáveis? E por quê?

Ler sobre masculinidade e piadas penianas só me faz perceber o quanto a masculinidade e a branquitude são frágeis. A necessidade de muitos homens brancos de fazer piadas sobre o tamanho de pênis de asiáticos e/ou de pessoas negras vem do medo do seu próprio pênis não ser o suficiente. Esse lugar do medo da sua própria castração, seja para diminuir ou aumentar drasticamente a masculinidade de homens racializados, reflete na pornografia quando você elege atores de acordo com o tamanho do pênis deles.

Todo mundo sabe (ou pelo menos deveria saber) que o tamanho do pênis difere de pessoa para pessoa e não de raça para raça. Mas o audiovisual escolhe que tipo de pênis para cada um desses grupos eles querem mostrar. E isso só existe para difundir estereótipos racistas e para contrastar tamanhos de pênis. E é interessante como isso só reflete o medo da pessoa branca de estar em dois extremos: o do pênis pequeno demais ou do pênis muito grande. É por isso que na maioria da pornografia gay inter-racial, o asiático ocupa o lugar de passivo, que vai ser comido por uma pessoa branca com o pênis bem mais avantajado e o negro ocupa sempre o espaço da pessoa com pênis muito avantajado que vai comer o cara branco que tem o pênis menor. A branquitude se articula dessa forma no pornô.

E partindo do que eu disse sobre como vemos o audiovisual como uma reprodução da realidade. Então, é muito fácil alguém supôr que tais estereótipos são corretos porque esse é o recorte dado pelos produtores brancos de vídeos pornôs. À pessoa branca, por estar sempre no intermediário entre comer um homem asiático ou dar para um homem negro, é dada o direito de ter o tamanho de pênis que ela quiser e assumir a posição de passivo ou ativo quando bem lhe convir. Enquanto, por outro lado, pessoas racializadas ficam presas a um determinismo que está dado a partir da raça.

A necessidade da branquitude de reafirmar esse espaço de humano — e, a partir disso, de se afirmar enquanto uma possibilidade e não enquanto algo determinado pelo fato de ser branco — reflete no humor racista cotidiano, nas micro-agressões que minam nossas auto-estimas e individualidades. Por detrás de cada piada racial está escondida uma insegurança e o medo de ser menos do que nós somos, de ser desumanizado como somos cotidianamente.

O problema, entretanto, reside quando essa toxicidade começa a se internalizar tanto em nós, que passamos a querer reproduzir a masculinidade branca ocidental (ou seja, misógina e heteronormativa) para nos afirmarmos no mundo. É sempre bom lembrar que por mais que tentemos nos afastar de estereótipos, continuaremos sempre sendo vistos da mesma forma: caricaturas ambulantes, estereótipos, impossibilidades de ser algo para além da raça.

Termino essa breve (e um tanto mal escrita) reflexão com o trecho de um texto de, Fábio Ando, intitulado “Nós, feministos e esquerdomachos: comentários sobre o caso Aziz Ansari”:

Homens asiáticos cisgênero e heterossexuais têm se “empoderado” de sua condição racial e às vezes até “militado”, gerando uma série de desdobramentos perversos. A estruturação da emasculação deve ser discutida, mas a narrativa que se cria em torno dela converge com as expectativas do patriarcado. Temos então asiáticos sexualmente frustrados colocando a culpa nas mulheres e voltando seu ódio às mulheres asiáticas que transam com homens brancos. Temos o movimento do asiático de pinto grande, organizado pelo mesmo cara que disse que o homem asiático sofre como uma mulher negra e depois xingou muito no twitter essas mulheres negras. Temos um artista de origem asiática fazendo sucesso no movimento feminista mainstream, que acabou sendo denunciado por assédio sexual e deixando muita gente confusa sobre o que achar. Devemos começar a reconhecer que a masculinidade do homem asiático no ocidente transita por chaves distintas daquelas às quais estamos mais habituados, mas opera ainda dentro do patriarcado branco e que os resultados adversos das tentativas de conciliação vão provavelmente terminar em misoginia.