QUEM TEM MEDO DA SOLIDARIEDADE ANTIRRACISTA?
“Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”. (Angela Davis)
“A solidariedade antirracista é o maior medo da supremacia branca.” (Gabriela Akemi Shimabuko)

Os discursos em torno da construção do Brasil e de sua identidade nacional perpassaram, sobretudo, por noções raciais que visavam controlar identidades não-brancas, apropriando-se delas ou apagando-as. Os racismos que se manifestavam — e ainda se manifestam — na sociedade brasileira, por mais que aconteçam em proporções diferentes para cada grupo étnico-racial, possuem um mesmo objetivo: a manutenção da supremacia branca. Vejamos, como exemplo, o decreto n° 528 de 1890, a lei de imigração de Marechal Deodoro:
Em seu artigo 1°, encontrava-se a seguinte redação: “É inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho, que não se acharem sujeitos à acção criminal do seu paiz, exceptuados os indigenas da Asia, ou da Africa, que somente mediante autorização do Congresso Nacional poderão ser admittidos de accordo com as condições que forem então estipuladas.” (ANDO, 2016).
O projeto de embranquecimento do país, vinculado à ideia de formar uma identidade nacional que tornaria viável o futuro da pátria, esteve extremamente vinculado à tentativa de fazer desaparecer a população negra através da miscigenação e vetar qualquer tipo de imigração não-branca, inclusive a de asiáticos. Outro exemplo clássico a ser citado, é o de Miguel Couto, médico sanitarista adepto da eugenia racial, que apresentou a Emenda nº21-E, que pretendia restringir a imigração negra e diminuir a nipônica.
Os racismos presentes atualmente no Brasil possuem se manifestam de maneiras diferentes, mas vêm da mesma raiz. E, para minar qualquer tipo de entendimento e diálogo entre grupos não-brancos, foi preciso separá-los, colocá-los em uma constante rivalidade, conceder privilégios a uns e negar a outros — mas sempre, sempre, mantendo a branquitude como parâmetro, como um ideal a ser seguido e conquistado. É nesse momento que o asiático toma a falsa consciência de que é branco, de que, aos olhos da branquitude, eles são diferentes das outras minorias étnico-raciais — sem perceber que só estão sendo usados para a manutenção do poder hegemônico branco.
Quem tem medo da solidariedade antirracista? A branquitude, que sabe que juntos somos mais fortes e maioria, que com o entendimento mútuo do lugar de cada grupo étnico-racial na luta antirracista e, sobretudo, com solidariedade haverá uma coesão e uma organização que fugirá do controle dela. Quem tem medo da solidariedade antirracista? Também os amarelos, que resistem ferrenhamente à qualquer possibilidade de diálogo, de coesão, de militância, por medo de perderem os privilégios que foram cedidos a partir de concessões da branquitude; os amarelos que se dizem solidários, mas não trabalham diariamente na desconstrução do racismo anti-negro e anti-indígena e sequer tentam criar pontes de solidariedade com grupos que estão em situações piores do que as nossas; os amarelos que sequer se entendem como amarelos e, portanto, não conseguem construir coesão nem mesmo no próprio movimento asiático-brasileiro.
Se a solidariedade antirracista é o maior medo da supremacia branca, ela parece também ser um dos maiores medos dos amarelos que não perdem nenhuma oportunidade de tentar equiparar opressões ou de apontar o dedo na cara de outros grupos minoritários e criticá-los; os amarelos sem consciência de classe, que não saem do âmbito da micro-agressão e não se solidarizam sequer com os seus próprios, que encontram-se em situações de refúgio ou de trabalho análogo à escravidão; os amarelos que validam um discurso meritocrático sem entender os diferentes contextos sob os quais pessoas não-brancas vieram ao Brasil.
A solidariedade antirracista se constrói com uma luta diária para erradicar o racismo dentro de nossas próprias comunidades; se constrói com diálogo e com consciência dos nossos próprios privilégios; se constrói a partir de uma coesão entre grupos não-brancos.
E isso só irá acontecer se pararmos de temer a solidariedade e a luta antirracista.
