“Sair do armário” é apenas inicio.

Durante estes meus curtos 22 anos de vidas eu já tive que sair do armário diversas vezes. E eu acho que “sair do armário” é a melhor analogia que pode ser feita sobre a minha vida.

Pois o “armário” é o meu corpo, alma e tudo que foi colocado dentro dele, não era meu e nunca me pertenceu. Minha família, a professora da escola, o amigo do meu irmão e a sociedade ao meu redor ficavam muito atentos para qualquer tentativa de abrir uma brecha deste armário.

A cada trejeito, a cada voz aguda e a cada vez que eu preferi a boneca ao futebol. Lá vinham eles correndo para bloquear a minha saída, colocando o que eles acreditavam que era o correto para mim.

Com cada vez mais itens em minha frente, por muitos anos achei que aquele seria o meu fim, lá eu iria ficar, no fundo daquele armário escuro cercado de coisas que não faziam o menor sentido para mim. Cheguei a um ponto onde eu tinha certeza que no fundo daquele armário eu iria ter meus últimos suspiros de vida. Por diversas vezes este foi meu objetivo, afinal para que continuar vivendo se quem eu realmente sou está definhando dentro de mim mesma ? O meu corpo era apenas um esqueleto que se movimentava em conflito com quem eu realmente era e com quem eu tentava ser.

Mas foi quando a luta com meu pior inimigo, eu mesma, já parecia perdida. Que me vi refletindo sobre todos os anos que lutei tão fortemente comigo mesma, permitindo que cada vez mais fosse depositado uma nova peça dentro do meu armário e me fazendo cada vez mais compactada em toda aquela imposição.

Eu tinha que lutar e não era para absorver a expectativa das pessoas ao meu redor, mas sim para descobri o que sobrou de eu mesma no meio de tudo que foi imposto que eu deveria ser.

Chutei a porta do armário e defini que apenas eu teria o poder de decidir aquilo que é mais adequado para mim.

Todos os dias tenho que trabalhar para conseguir retirar todo o entulho de coisas que estão no meu armário. Mas sei que a cada dia que passa o meu eu interior fica mais nítido e mesmo entre erros e acertos eu estou vivendo para descobrir quem eu sou e a onde quero chegar.

Em janeiro de 2016 eu assumi minha identidade em quanto uma pessoa trans não-binária. Expondo aquilo que eu já sabia que era aos olhares e opiniões públicas e eis algumas coisas que aprendi com esta experiência:

🔹As pessoas que querem lhe criticar não irão poupar esforços para deslegitimar aquilo que você é. Tudo que você fizer e dizer irá ser usado contra você na corte do CIStema.

🔹As vezes achamos que não há ninguém enfrentando a mesma batalha que nós. E realmente a única pessoa que pode ganhar sua guerra interna é você. Mas é magnifico você pode se conectar outras pessoas com lutas semelhantes, pois o apoio torna os momentos de queda menos dolorosos.

🔹Não é por que alguém se diz LGBTI+ ou defensor dos direitos humanos que você pode contar esta pessoa como um parceira na luta contra a discriminação. Pois esta mesma pessoa que luta pelo direito de alguns, endossa também a transfobia contra pessoas trans não-binárias e ridicularização da linguagem neutra.

🔹Gênero, cor, sexualidade ou qualquer outra coisa definitivamente não definem caráter.

🔹Que nem uma mensagem de ódio ou ameaça de morte podem tirar o conforto, de eu poder dormir todas as noites sabendo que eu estou fazendo tudo que está ao meu alcance para ser feliz comigo mesma.

É muito bom estar do lado de fora do armário e irei continuar lutando para que no futuro as pessoas nem tenham que estar nele em primeiro lugar.