O curioso fact-checking de ‘reformas e ajustes’ que não passaram pelas urnas

Nesta quarta-feira, 23 de maio, a página principal do site Aos Fatos é um retrato, ou melhor, um print, de como pode ser grande o espectro de atuação das agências de fact-checking. De como pode ser maior do que deveria, e de como, assim, demasiado, o afã dessas agências para tudo checar pode se transformar num impasse, num imenso atoleiro, maior até do que sua ambição de ensinar os “consumidores de notícias” a separar notícia de opinião.

Está lá um desmentido de que uma senadora do PT teria defendido o aborto no Brasil para se evitar que nasçam bebês sofrendo de rinite alérgica, treta que dispensa comentários, mas que foi alvo de um minucioso esforço de checagem que somou nada menos que 600 palavras. Tem também a derrubada por A mais B (certificada pelo International Fact-Checking Network) da grande e grave tapeação segundo a qual “Pabllo Vittar vai cantar na Copa”.

Mas está lá também um link para um intrigante esforço de fact-checking das “propostas” de Michel Temer, publicado no dia em que o governo Temer completou dois anos, ou que fez dois anos do impeachment de Dilma Rousseff. Impeachment? A agência Aos Fatos já bateu o martelo sobre essa questão: é “exagerado” dizer que houve golpe no Brasil em 2016.

Mas, just checking, se não passa de “retórica” falar em golpe de 2016, como poderia uma agência de fact-checking se apresentar para fazer fact-checking de “propostas” do governo Michel Temer? “Propostas” essas apresentadas, bem… ao eleitorado é que não foi. Pois a agência Aos Fatos ora se propõe a verificar se Michel Temer seguiu diretrizes de governo elaboradas no documento “Ponte Para o Futuro”, divulgado na vigência do mandato alheio, em outubro 2015, como parte mesmo da maquinação que já estava em curso para terminar em golpe, desculpe, impeachment.

Maquinação? Urdidura? Conspiração? “Exagero”, por certo, porque o que aconteceu entre 2015 e 2016 no Brasil foi um “processo jurídico e político previsto na Constituição e supervisionado pelo Supremo Tribunal Federal”. Diriam assim, ou algo assim, Aos Fatos, a agência Lupa, bem como a agência de detecção de delírios do Barão de Münchhausen.

Pois é ao feitio do barão, que salvou a si próprio e ao cavalo que montava puxando os próprios cabelos para emergir de um atoleiro, que Aos Fatos se apresenta, puxando também o Facebook, como salvadores das eleições no Brasil, da própria democracia brasileira, ante a ameaça das chamadas fake news: checando se Michel Temer “cumpriu o compromisso de levar adiante reformas e ajustes pautados” no documento “Ponte Para o Futuro”.

Aos eleitores, portanto, Aos Fatos faz o favor de fiscalizar a execução de “propostas” de Michel Temer como se fossem dessas promessas de maravilhas para o povo— melhores hospitais, ótimas escolas, saneamento básico — , e não PEC 55, reforma trabalhista, reforma da previdência, enfim, tudo que Aos Fatos foi lá conferir se está andando bem.

Como se as propostas do documento “Ponte Para o Futuro” fossem, assim, luminosas promessas de campanha, e não o exato oposto disso: essas “reformas e ajustes” ora são feitos por um governo sem respaldo democrático para fazê-los, precisamente porque foram quatro vezes consecutivas reprovados nas urnas. Que diabos, é só checar.