Terço enviado a Lula tem sido dado por Francisco a presos políticos da América Latina

Vaticano cita “imprecisões na tradução” de nota apagada e não desmente mais que terço foi enviado a Lula pelo papa.

Terço que chegou a Lula em Curitiba.

O Papa Francisco enviou recentemente a pelo menos dois conhecidos políticos presos (apontados como presos políticos) em países vizinhos do Brasil, Argentina e Equador, terços idênticos àquele que chegou até o ex-presidente Lula na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.

Na Argentina, trata-se de Milagro Sala, conhecida ativista, dirigente da Organização Indigenista Tupac Amaru e deputada do Parlamento do Mercosul. Milagro foi presa em janeiro de 2016 na província de Jujuy por “instigação ao crime e à desordem”. No dia de sua prisão, seu marido denunciou que Milagro tornava-se a “primeira presa política do governo Macri”. É considerada assim por diversas organizações argentinas e internacionais de defesa dos Direitos Humanos.

Terço enviado pelo papa Francisco a Milagro Sala.

Em outubro daquele ano, a Comissão de Direitos Humanos da ONU emitiu um “apelo urgente” para que Milagro fosse libertada. O apelo foi endossado em julho de 2017 pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Meses antes, em março, Milagro recebeu o rosário do papa, seu compatriota, na prisão de Alto Comedero, em Jujuy. O emissário de Francisco foi o vereador de Buenos Aires Gustavo Vera.

Foi, na verdade, a segunda vez que Francisco enviou um rosário a Milagro Sala. A primeira aconteceu após o encarceramento da deputada, em fevereiro de 2016. Naquela ocasião, o terço destinado a Milagro foi entregue pelo papa aos cuidados de Enrique Palmeyro, diretor da organização educativa Scholas Occurrentes. Também na época, o reitor da Universidade Católica de Buenos Aires, Monsenhor Victor M. Fernandez, escreveu um artigo sobre o caso para o jornal La Nación, no qual disse:

“Soube que ela escreveu uma carta para Francisco e alguns sugeriram que ele a respondesse, já que a conhece pessoalmente. Mas ele optou por enviar apenas um rosário, que é um instrumento para rezar, sem maiores considerações que pudessem significar uma opinião ou interferência em um processo judicial, que ainda é muito dúbio nessa sua fase introdutória”.

A agência de notícias do Vaticano informou, inicialmente, diante da repercussão do caso do terço a Lula, que ele, o terço, foi apenas “abençoado” pelo Papa, e foi dado ao ex-presidente brasileiro como a “tantos prisioneiros do mundo sem entrar no mérito de realidades particulares”. Agências de fact-checking brasileiras classificaram a notícia de que “Papa enviou terço a Lula” como “falsa”. No início da noite, na agência do Vaticano, a “Precisação sobre o caso Grabois-Lula” foi atualizada, porque tinha “imprecisões na tradução”. Não há confirmação, mas tampouco há mais desmentido de que o terço teria sido enviado a Lula diretamente pelo próprio papa.

No Equador

Jorge Glas, de punho erguido, no dia de sua condenação.

Em maio desse ano, Francisco enviou um terço ao ex-vice-presidente do Equador, Jorge Glas, que foi afastado do cargo após ser condenado em dezembro do ano passado a seis anos de prisão “por ligação com a Lava Jato”. Várias lideranças de esquerda da América Latina dizem que o processo que resultou na condenação de Glas foi repleto de flagrantes irregularidades — a exemplo do processo do Triplex, que resultou na prisão de Lula — e que as razões de sua prisão são políticas. O ex-presidente equatoriano Rafael Correa disse recentemente que se o processo contra Glas tivesse acontecido em seu governo, “já teria sido denunciado na Corte Internacional de Haia”. Foi Correa o encarregado de levar ao preso o terço do papa.

Rafael Correa com o terço destinado a Jorge Glas.

Tanto Lula quanto Milagro Sala e Jorge Glas receberam no cárcere um rosário do Vaticano arrumado num estojo vermelho junto com um cartão pontifício onde aparece o brasão franciscano que Jorge Mario Bergoglio escolheu como insígnia de sua atividade eclesiástica, em 1992, quando foi nomeado bispo na Argentina, e que decidiu conservar quando foi escolhido papa, duas décadas mais tarde. Em nenhum dos três casos (quatro, porque Milagro ganhou dois) o emissário do Bergoglio foi um representante da Igreja Católica.

No caso de Lula, quem trouxe o terço ao Brasil foi o advogado argentino Juan Grabois, cuja visita a Lula para entregar o “kit” pessoalmente foi impedida pela Polícia Federal. Trata-se de um leigo batizado ligado a movimentos sociais, como os agentes leigos das pastorais e comunidades eclesiais de base, cujas centenas de milhares de participantes tiveram papel importante no processo de formação do Partido dos Trabalhadores, 40 anos atrás.