O que anda, o que rasteja e Little Bethlem

Os Imperdoáveis, ganhador do Oscar de Melhor Filme em 1993.

Nenhum cristão da pequenina cidade de Big Whiskey, no Wyoming, esperava que naquela noite irromperia pela porta do bordel, de espingarda em punho, ninguém menos que William Munny do Missouri, o assassino frio e cruel, e de aluguel, cuja fama dessa forma desenhada já correra todo o velho oeste americano naquele ano de 1880. Munny brotou no recinto logo na hora em que o xerife Little Bill Daggett convocava os homens de valor daquelas bandas para sair em sua caçada, e a outros fora-da-lei, adepto que sempre foi de manter a ordem na jurisdição pela via daquilo a que 100 anos mais tarde um outro xerife dos EUA, esse do Leste moderno, e da vida real, batizaria de “política da tolerância zero”.

Ainda era madrugada dessa terça-feira, 15 de agosto, na gigantesca cidade do Rio de Janeiro quando agentes da Polícia Federal postaram-se na frente de uma das casas do condomínio Península, na Barra da Tijuca, de modo que Rodrigo Bethlem, ex-secretário de Ordem Pública da capital fluminense, o intrépido “xerife do Rio” durante o primeiro governo Eduardo Paes, antigo encarregado da “tolerância zero à carioca”, deve ter se sentido ao ouvir as batidas da Lava Jato na porta como sentiu-se Little Bill ao ouvir de William Munny no saloon: “Já matei mulheres e crianças. Já matei tudo que anda e rasteja. E estou aqui para matar você, Little Bill, pelo que fez com Ned”.

Quando no cargo, o little Little Bill da Barra da Tijuca não chegava a fazer e acontecer no Rio tal e qual o original do western Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood, fazia em Big Whiskey. Severo, Daggett exibia na varanda da delegacia os corpos de pistoleiros capturados e enforcados, como Ned, perdurando-lhes um informe escrito com sangue para ajudar na instrução daquele povo: “Isso é o que acontece com assassinos por aqui”. Quando chefe do “Choque de Ordem” com que Eduardo Paes pretendeu marcar sua administração, Rodrigo Bethlem se ofereceu para ajudar com a Guarda Municipal apenas para “reduzir pequenos delitos”, e tampouco nesse papel se portava como um desses camelos “a cujas expressões aborrecidas faltava o complemento de um charuto de gestor”.

Ao contrário: “o secretário mais elétrico do prefeito” costumava, por exemplo, ir ter com os cariocas, os da Zona Sul, nos calçadões das praias de Copacabana, Ipanema e Leblon, a fim de distribuir cartilhas para mulheres e homens feitos, como um Manual da Ordem Pública (“Não jogar lixo nas ruas”; “não andar com o cachorro sem coleira”; “não deixar de recolher as fezes dos animais”; “não comprar produtos piratas”) e um Manual de Convivência nas Ciclovias e Áreas de Lazer (Que recomendava corridas nas ciclovias apenas pelo lado direito e em velocidade de… corrida). Isso antes, é claro, de um pedaço de 20 metros da ciclovia da Avenida Niemeyer vir abaixo, matando duas pessoas, por obra do mar e de um consórcio construtor desobrigados de seguir quaisquer devocionários que não os da força de suas respectivas naturezas.

De Rodrigo Bethlem pode-se dizer hoje que tem conta na Suíça, mas dele não se pode dizer que ainda ontem não ia ter também com o povo da favela. À encosta do morro do Vidigal, perto de onde a ciclovia Tim Maia desabou, Bethlem compareceu pessoalmente em pelo menos uma ocasião para aplicar sua didática, ainda que não tenha ele mesmo colocado a mão nas massas: foram os agentes da prefeitura que o acompanhavam que destruíram os depósitos onde ambulantes guardavam cadeiras, caixas de isopor e guarda-sóis com que trabalhavam na praia do Leblon. Em outra ocasião, a imprensa carioca fez dura crítica a uma operação de nome sugestivo da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop), mas porque o staff de Bethlem deixou passar despercebido um mendigo que dormia em cima da marquise de um prédio em Copacabana: “o Orla Total não conseguiu resolver todos os problemas que atrapalham a vida dos moradores e de turistas”.

Em uma terceira ocasião, absorvida a crítica construtiva, a Guarda Municipal colocada por Paes sob a batuta da Seop impediu 84 adultos e 32 crianças de dormirem nas ruas mais nobres das áreas mais nobres dos bairros mais nobres da Zona Sul. Anos antes, iniciado o governo Eduardo Paes, um outro e outrora órgão da imprensa carioca publicava um perfil do titular da nova Secretaria Especial de Ordem Pública no qual se afirmava que o “Choque de Ordem” de Paes e Bethlem chegava mesmo até a casa do secretário no condomínio Península, até os filhos do xerife, portanto, ficando livre para a bagunça apenas seus quartos de dormir. Anos depois a atriz Maria Zilda Bethlem protestava em uma rede social contra as acusações de corrupção envolvendo sua cria, que na época só começavam a aparecer: “Posso atestar sua honestidade. E há 20 anos, quando ele começou na política, eu avisei a ele: cuidado, você não é malandro nem mau caráter. Um dia você poderá sofrer!”.

As denúncias daquela feita jogavam água na pretensão do antigo “xerife do Rio”, transmutado em cowboy fora-da-lei, de disputar a prefeitura da cidade em 2016. Naquela altura Rodrigo pode ter dito a Maria Zilda como antigamente dizia Raul: “Mamãe, não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito, e alguém pode querer me assassinar”. William Munny afinal deu cabo de Little Bill, que julgava não merecer aquele fim. Antes, porém, do tiro fatal, Munny deixou para a história do cinema e de outros espetáculos de caçada a tudo o que anda e rasteja um aforismo sobre a justiça à moda Oeste Selvagem: “merecer não tem nada a ver com isso”. E antes que o gatilho da espingarda fosse apertado os imperdoáveis marcaram um encontro no inferno.


Originally published at medium.com on August 15, 2017.

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