Entre linhas e lençóis

Chega um momento em nossas vidas em que nos tornamos totalmente vulneráveis. Um momento em que nos olham dentro dos olhos e é como se estivessem olhando para nossa alma. Um momento em que experimentamos a comida feita por alguém e sentimos o amor que ela empreendeu no seu preparo. Um momento de tristeza em que nem mesmo nossas lágrimas são capazes de limpar a nossa alma e muito menos abraços se tornam remédios. Necessitamos apenas conhecer a nós mesmos. Nus. Vulneráveis. Chega um momento em que lemos um livro e conseguimos sentir a inspiração, a contemplação, a profundidade da existência de um escritor. Chega um momento, nesse quando perdemos a nossa inocência, que fazemos sexo e nos tornamos a síncope de nossa vulnerabilidade. É nesse momento em que não somos ninguém ou somos tudo. É nesse momento que estamos despidos, estamos vestidos com nossos desejos.Sexo às vezes é como colocar a mesa e esquecer-se de lavar os pratos. É como ir a um piquenique. Apenas na maioria dos casos, entregar-se a alguém ou a algo é tornar-se vulnerável. Uma simples experiência que pode nos deixar reflexivos. Para eu, em caso particular, é sentir-se objetificado. É como adorar a embalagem do chocolate e esquecer-se de lambuzar os dedos.

No caso em particular que narrarei, o chamaremos de livro, de meu livro. Assim como a maioria dos livros que leio, o encontrei de uma maneira bem peculiar. Na verdade eu sou fanático por títulos. Não por capas bonitas, belas brochuras ou uma perfeita encadernação. Não. Os títulos são como um convite, uma porta aberta para conhecer o outro lugar ou alguém. Vários títulos passaram pela minha mão, poderia citá-los em ordem cronológica de leitura e seu grau de aprovação como leitor. Fazer isso seria tortuoso, porque simplesmente estaria coisificando meus exemplares, os tornando parcela de um mundo já tão banal. Num resumo, todos eles me fizeram crescer. Fizeram-me entender o mundo, a mim mesmo e até quem sabe, os meus próprios sentimentos, esses tão separados do meu "eu". Ultimamente li um livro bastante peculiar, enorme em amplos os sentidos e carregado de uma magnitude imprescindível. Ele simplesmente ficou fixo por um único motivo: Eu não o entendi.

Tive que o reler umas três ou quatro vezes. Não seu todo. Isso seria torturante no sentido de aprofundar-me ainda mais dentro de suas entranhas. Seria um processo sem volta, caso eu me arriscasse a entender o seu mundo novamente. Apenas deixei que sua alma fragmentada, essa em forma de palavras, entrasse superficialmente dentro de mim. Entrasse o suficiente para saber que o meu mundo não era uma simples particularidade, mas sim um complexo e intrínseco emaranhado de emoções. Coisa que nenhuma outra alma seria capaz de sentir. Incompatibilidade. Ao fim de tudo, reli apenas as suas páginas finais. Nelas estavam o suficiente de sua fragilidade tão mascarada pelo caráter e o ego forte, que apenas um gole desse café amargo seria o suficiente para saber o seu fim. Só sei que o terminei de ler e não entendi bulhufas. Apenas o larguei, jogado sobre minha mesa. Aquela mesma mesa onde inúmeras vezes fiz rascunhos sobre diversos enredos, tracei planos sobre o desenrolar de algum futuro, talvez de nosso futuro, do meu e do livro. Não sei como descrever essa sensação de abandono. Na verdade quem deveria descrevê-la era o livro. Felizmente - ou não - ele é apenas um objeto, algo-alguém que não consegue emitir seus próprios sentimentos, suas idealizações. Mas quem não é um objeto hoje em dia? Gostei dele, do livro, na mesma proporção com que ele se parecia tanto comigo. Se você parar para olhar - ou até mesmo observar - ambos somos como espelhos de pensamentos terceirizados. Somos como reflexos de um outro alguém que nos esculpiu, na verdade que nos cuspiu, que nos transformou nesse objeto inanimado capaz de transmitir apenas um segunda voz, algo que já foi utilizado e desprezado. A relação “leitor-autor” baseia-se exatamente nisso não é? É como colocar dois espelhos, um na frente do outro e aquele mesmo reflexo ser transmitido simultaneamente num looping sem fim. Pode não parecer, mas tudo é uma reprodução barata e recíproca da alma. Gostei do livro porque intimamente somos parecidos um com o outro. Somos fantasmas abandonados. Assim como o livro, já me julgaram pela capa. Já transformaram os conceitos, os meus conceitos, revestidos em capas de couros e luvas de emborrachado, nas opiniões mais medíocres e reconfiguradas que se possa imaginar. A resposta que sempre digo é que o mundo está cheio de pseudo-intelectuais. Cheios de hipocrisia e um tolo realismo distópico. É como dizer que Os miseráveis se passou na revolução francesa. É como dizer que existe uma barata na Metamorfose de Franz Kafka. Muitos se enganam aqueles que não me leram, que não leram o meu amigo livro. A base do conhecimento é composta necessariamente em se transar com os livros, com as palavras. Tolos são aqueles que não bebem dessa fonte inesgotável.

Ah, mas eu transei com o livro. Estive totalmente cansado, esgotado das noites que passei junto com meu amigo. Será que posso chamá-lo de amigo? Ou ele simplesmente é meu objeto? Estou rindo insanamente desse meu delírio-poético-sarcástico-e-indireto. É gostoso rir de nossas insanidades. É sentir-se sóbrio em meio a nossa loucura generalizada. Eu folheei cada página do meu amigo livro. Eu toquei cada folha traiçoeira, que algumas vezes já cortou meus dedos, no intuito de senti-lo por inteiro. No sentido de sentir o gosto de todas as suas páginas. Eu o devorei em todas as suas linhas, mordendo cada palavra de leve. Eu senti o seu cheiro, de sua capa e ele memorizou o meu. Eu suspirei em sua orelha, mas não queria de maneira alguma que ele me retornasse com spoilers. Eu pude despi-lo com meus olhos. Ver cada frase, cada sílaba, cada palavra, cada letra da infinita alma que ele continha. Pude abri-lo em dois e penetrá-lo em seu miolo existencial. Sentir sua lombada, sua brochura e suas enervações. Pude sentir até mesmo o toque de outras pessoas. De suas digitais. Isso me soou tão de uma maneira descartável. Mas teria que ser descartável e por isso mesmo coloquei esse pensamento em minha cabeça. Virei cada página sabendo que meu orgasmo estava próximo. Que meu sentimento de ápice estava tão perto do clímax que não queria largá-lo de maneira alguma. Aproveitar cada segundo ao seu lado. Toque no toque. Olho no olho. Era uma maneira de tentar estender o momento que sempre tive dentro de mim mesmo como único. E por isso mesmo deveria ser atemporal. Houve momentos em que precisávamos parar, acender um cigarro, tomar um café, ouvir uma música quem sabe. Tudo isso somente para não saber que aquele momento, entre eu o livro, não seria apenas de um carnal literário e barato. Nesses momentos eu o emborcava, sempre colocando um peso sobre onde estava a minha situação atual. Lembro-me de ir algumas vezes à janela, observar o ambiente que ate então não era estranho para eu e observar que me observavam. Mas sempre, de uma maneira involuntária, eu voltava para meu amigo livro. Era um charme. Era uma tentação. Era saber, que agora, o meu fim estava próximo. Quantos foram mesmo os dias de devoro? Não lembro. Só lembro-me de ter passado tão rápido que nem mesmo o sol chegou a queimar a minha pele. E a minha barba que estava aparada, já começava a mostrar sinais de desleixo. Eu não sabia ao certo porque o tinha tirado da estante. Não sabia por que em meio a tantas opções, mesmo não querendo ter opções, eu o havia escolhido. Talvez tivesse gostado da capa - mas olha eu, que tanto reclamei sobre isso - gostado do seu título ou simplesmente houvesse existido algum tipo de afinidade. Tudo se resumia a primeiras impressões e a voracidade em ler algo. O desejo de consumo e os custos emocionais e financeiros. A carência por companhia e a possibilidade de se conhecer novos lugares, já conhecidos. Mas a grande verdade foi que o resultado foi uma grande ressaca literária. Foi uma objetificação e o sentimento de ociosidade. Eu virei um ócio ambulante.

Acabar de devorá-lo foi como tomar o consumo extrapolado da minha bebida diária. Eu tinha me embriagado em suas palavras, em seu cheiro doce e velho. Tinha me apegado a possibilidade de viver dentro do seu mundo, do seu outro alguém espelhado. Porque somente agora eu percebia que ele não poderia ser um reflexo de mim. Talvez um prefácio, um interlúdio. Mas nunca uma história que completasse a minha. Mas para descobrir isso tive que o reler umas três ou quatro vezes. Não seu todo. Isso seria torturante no sentido de aprofundar-me ainda mais dentro de suas entranhas. Seria um processo sem volta, caso eu me arriscasse a entender o seu mundo novamente. Apenas deixei que sua alma fragmentada, essa em forma de palavras, entrasse superficialmente dentro de mim. Entrasse o suficiente para saber que o meu mundo não era uma simples particularidade, mas sim um complexo e intrínseco emaranhado de emoções.

Mas tudo isso para quê? Para afogar-me numa maré de descontrole emocional? Para atirar-me do penhasco que separava o meu eu racional do meu eu sentimentalista? A verdade era que nunca queria separar-me do meu lado realista, racional. Era ele quem ditava as regras da minha vida já pré-mediócre e estabelecida. Estar com meu companheiro livro foi de certa forma sair da minha redoma de vidro e experimentar o descontrole dos meus instintos, dos meus impulsos. Foi saber que estava correndo riscos de estar num território já conhecido e me deparar com meus fantasmas já esquecidos. Os livros são cheios deles. Entrar dentro de sua alma foi uma possibilidade de fugir da minha. Mas eu não sabia que tentar fugir, interagir, divergir, fossem coisas tão perigosos.

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