Negra manhã. Azul contemplação.

É de manhã.

Antes mesmo que o seu alarme já programado toque, ela já está acordada, olhando para o teto e ouvindo um galo cantar bem distante em alguma casa vizinha. Ao seu lado o ronco dele vibra e faz afundar mais em sua mente o quanto a noite anterior que teve foi estranha e de certa forma nostálgica. Algo partindo do melancólico para o não convencional. Tudo o que aconteceu foi que algumas de suas expectativas não foram superadas, enquanto que as más expectativas, se é que existe más expectativas e não apenas a realidade cega, foram mais que exploradas durante aquele fim de semana. Sem incomodar o corpo que está estirado na cama e respira profundamente, ela levanta-se pé ante pé, sente o chão frio sobre seu solado e percebe que seu corpo está dolorido em alguns pontos, tudo isso devido a não conseguir dormir por dois dias seguidos. Dormir com alguém “estranho” foi o que provocou tudo isso. Ela não consegue sentir total confiança em entregar-se aos prazeres do sono quando está conhecendo alguém, fora isso também existe a questão de aproveitar o máximo do tempo acordado ao lado de quem precisa estar. Mas quando a cena é vista de outra perspectiva, o sono parece ser a melhor solução para mostrar como as relações, e principalmente o futuro, devem ser. Ela estica o corpo para aliviar a sensação de ter dormido amarrada. Sente os músculos rígidos e travados por ter dormido encolhida e pelo sol em excesso que levou durante a manhã do dia anterior. Agora são quatro horas e trinta e cinco minutos e o que mais precisa é organizar a sua mala de volta, assim como organizar a sua vida.

Enquanto ele ainda está dormindo, ela toma um banho quente que a ajuda a relaxar. Escova os seus dentes, seca os longos cabelos anelados e fica durante alguns minutos a olhar para o seu reflexo no espelho se perguntando “foi exatamente assim que você imaginou que tudo acabaria?”. O quarto está uma bagunça. Suas coisas estão espalhadas em cima de uma cômoda, junto com as coisas dele, o que faz com que a tarefa de rearrumar a mala se torne mais tediosa e monótona. O jogo de separar as suas coisas das dele a faz ficar pensativa e querer chorar, derramando toda a angústia que sentiu desde a primeira noite. Mas ela precisa se manter forte ou do contrário não conseguirá falar uma só palavra durante a despedida. Após a difícil tarefa de conseguir juntar cada detalhe na pequena mochila que trouxe consigo, ela veste-se completamente e fica a olhar pela janela do hotel, onde está hospedada desde o sábado pela manhã, a testa colada no vidro a olhar o trânsito lá embaixo. A vontade de chorar parece ganhar mais força com a observação da cidade e as lembranças que não param de borbulhar como um fonte em sua cabeça.

Os últimos minutos ao lado dele estão indo embora, e o que pareceu que seria bom, apenas está se transformando num tormento. Aos poucos o céu vai ganhando um tom roxo conforme o sol vai nascendo entre as linhas de concreto que é a massa uniforme da cidade. O céu vai sangrando de leve enquanto o trânsito lá embaixo começa a ganhar a vida de seu dia a dia conturbado. Pela janela ela observa tudo isso: a cidade, o céu e ele, que ainda está na cama sem ter feito o menor movimento. A cidade cresce em sua sinfonia confusa de barulho, assim como seus pensamentos e sua tristeza que parecem ganhar forças a partir de agora.

Antes de o visitar nesse fim de semana muitas coisas haviam passado pela sua cabeça: O que realmente ela estaria fazendo? Onde tudo isso poderia parar?Como seria o seu regresso após os fatos terem sido consumados? Agora nesse momento nada disso faz mais sentido e tudo que havia surgido, todos os pensamentos e expectativas, parecem mais retratos piegas ou momentâneos. Após as conversas, descobertas e confirmações de teorias, as coisas ganham um novo rumo que ao mesmo tempo é estranho, revigorante e assustador. A verdade é que ambos pertencem a mundos diferentes, mesmo tendo respectivos sentimentos e formas de ver algumas coisas. Pode não ser perceptível, mas existe um grau de maturidade entre os dois que é notável e diferente em certos aspectos. Um partindo da linha da irrealidade e o outro da linha da necessidade. Em suma: Carnal versus sentimental. Durante aqueles dias ela ouviu coisas que não queria ter ouvido, mas que na verdade já esperava que se realizassem. Foi uma verdade, uma necessidade sincera que doeu mas que trouxe um novo panorama para o mundo que ela jamais achou que estaria construindo. Naquele momento enquanto estava na janela a esperar o tempo passar, ela percebeu, olhando para ele estirado na cama de emaranhado de lençóis, que ele é sentimental, atencioso, companheiro e carinhoso, mas que também é infiel, um tipo de infidelidade que vai além do fato de estar traindo com outro alguém, mas sim uma infidelidade de atos, de compartilhamentos e de história. A verdade é que ele é dado ao mundo pervertido, se tornando imaturo e não pertencente a bandeira romântica que ela tanto defende. A imaturidade se apresenta quando as pessoas assumem de certa forma o seu lado maduro não existente. Ambos não pertenciam as mesmas épocas. Ela mais 1940, ele mais 2016. Agora, enquanto sua mente firmava melhor seus pensamentos e conclusões, ela percebeu que viveu um sonho, só que compartilhado por muitas cabeças. Antes havia cogitado a ideia de que o problema estivesse nela, em suas atitudes, mas a verdade é que foi melhor não ter atitudes do que as que ele cometeu. Ela não era nada e era tudo. Ele achou que tinha tudo e não tinha nada. Definitivamente eles não se pertenciam e suas naturezas não compartilhariam os momentos vividos durante o presente que estava a ser traçado. A natureza dele era de compartilhar o seu mundinho sujo com os demais, assim como sexo, descompromisso e o falso carinho. Como um terrível Bluetooth de covardia. Ela simplesmente não era do mundo do compartilhamento livre. O que ela estava satisfeita era que a sinceridade entre ambos tinha sido necessária. Dolorosa, mas precisa. Agora ela entendia que não poderia mais ser uma idolatra de pessoas com aquele tipo de pensamento. Não poderia mais alimentar o ego de pessoas que vangloriam suas necessidades e muito menos participar de algum tipo de fã clube. Precisava mais era esquecer os outros e lembrar de si, sabendo que ao regressar o mundo estaria no mesmo lugar onde ela havia deixado.

O seu celular despertou, não para anunciar mais um alarme para acordar, mas sim para indicar que seu tempo havia esgotado e que agora precisava voltar para sua casa, sua realidade e suas obrigações esquecidas. Ela lentamente descolou o rosto do vidro manchado, calçou suas sandálias, colocou a mochila sobre as costas e respirou fundo. Agora precisava decididamente dizer adeus. Lentamente subiu na cama, engatinhando em meio aos lençóis bagunçados da noite anterior, procurando achar entre os fios de algodão o corpo dele que apenas avolumava o monte como um todo. Lentamente ela achou seu corpo, enrolou-se a ele sentindo o seu calor, diferente do frio de seus sentimentos, e chegou próximo ao seu rosto. Ela o olhou detalhadamente. Os seus olhos fechados e redondos, sombreados pelo cansaço de seus dias. Sua barba já um tanto grande que destacava o rosto sério e ao mesmo tempo de menino levado. Seus cabelos soltos em alguns pontos a derramar sobre o travesseiro. Naquele momento ela quase chorou, quase o fez afogar-se em seu sentimentalismo, mas quis poupá-lo disso tudo. Se possível viveria com ele eternamente, mesmo sabendo de seus defeitos, de suas falhas e erros. Mas fazer isso era martirizar o seu monstro interior eternamente. Subitamente sua voz saiu em meio ao caos interior. “Vou-me embora. Adeus!” Ela disse. Precisa, entrecortada, como uma lâmina que mesmo cega ainda corta. Saiu subitamente da cama. Caminhou em direção a porta, ainda dando uma ultima olhada no emaranhado de lençóis e saiu porta afora com destino à sua velha utopia de vida. O mais triste de tudo? Saber que ele não se despediu corretamente dela. Não a abraçou fortemente como prometido. Não disse adeus e nem sequer uma esboço de sorriso estampado entre sua linha de frieza facial. No corredor ela ainda olhou a porta que acabara de fechar, tocando novamente para saber que tudo aquilo tinha sido real. Poderia ter sido mentira ou apenas dramático, mas ela ainda olhou duas ou três vezes para a porta que cada vez ficava mais longe de si. Precisava olhar para saber que aquela tinha sido a última vez de tudo aquilo, assim como tudo que fez naquele fim de semana tinha sido a última vez, porque ela havia colocado em sua cabeça que tudo que fizesse seria a última ação a realizar-se. O último beijo, o último toque, a última mordida, o último emaranhar-se. Só não houve últimas palavras, porque essas ficaram congeladas no tempo entre a despedida e o ego desse monstro que ela havia deixado para trás. Agora, somente dentro do elevador, foi que suas lágrimas desceram junto com ele. Não conseguindo mais aguentar ela chorou durante todo o caminho de volta para casa, até secar completamente e não entender o motivo de continuar chorando.

Só mais um garoto. Só mais um remédio para passar o tempo.

Enquanto o ônibus ia se distanciando da cidade, enquanto ela olhava para o imenso céu azul que se estendia naquele dia ensolarado, ela pensava no sentido de encontrar a felicidade. Sua mão estava espalmada no vidro um tanto sujo de outras mãos, deixando dessa maneira o contorno da sua sobre muitas outras que por ali já estiveram, a chorar, a pensar. A esquecer uma mísera parcela insignificante de suas vidas, essas relacionados a desprenderem o sentimento por alguém. Uma parcela tão pequena e microcósmica capaz de transformar bonanças em tempestades interiores. Olhando para aquele imenso céu, tão grande, tão azul, tão bonito, ela perguntou a si mesma como é possível deixar que problemas tão insignificantes pudessem se transformar em questões homéricas sobre aceitação, amor próprio, felicidade e destino. Nada! Nada disso é predestinado por uma mera paixão sem sentido e unilateral. Nada disso é possível ser traçado pela junção de dois corpos em desiquilíbrio numa cama. Traçando o seu pensamento com o imenso céu azul ela ilimitou-se a saber que precisava de mais horas de sono, mais dedicação aos seus planos, mais compromisso com suas decisões. Numa balança em que o romantismo fosse menor que o realismo. Num complemento em que ela própria se completasse.

Toda a humanidade não é nada e é tudo! Somos muito mais que a ideia do “estar livre”. Enquanto ela olhava pela janela do ônibus, a sua segunda janela naquele dia, dia de janelas, ela acreditou que as máscaras haviam caído e que a dor profunda em seu peito era mais revelação que sentimento não correspondido. Ela acreditou que seus soluços não eram lapsos de suspiros de arrependimento, mas sim uma fina e doce emoção pela contemplação do azul de seu coração, alma e complemente sentimental. Era como se exatamente naquela volta para casa ela soubesse que estivesse acordando de volta ao mundo e descobrindo que ele estava exatamente no lugar onde o deixou. E que esquecesse os alguéns que na verdade já não existiam. É que esquecesse os sentimentos não traduzíveis. É que esquecesse os mundos dos quais não poderia participar.

Texto e desenhos de Rodolfo Vilar

Maceió, Alagoas. 06 de março de 2016.