OCEANOS

Já é tarde da noite e ele está assistindo a TV. Ele muda de canal regularmente, tão regularmente que os botões de seu controle remoto já não possuem nem mais legenda. O que ele realmente queria era apenas ser uma ilusão. E exatamente por isso navegava dentro do oceano de seus próprios sentimentos. Ele muda de canais a procura não do que assistir, mas sim do que encontrar. Em outros momentos de sua vida, nesses quando seu oceano não está tão cheio, ele costuma estar ocupado, não com coisas à fazer, mas sim em amar um outro alguém. Agora a televisão fica ligada até altas horas da noite, não ligada com o intuito de entreter, mas sim de fazer com que o seu quarto fique banhado pelos milhares de luzes néon. Aquele quarto é imenso e vazio e lá está ele, esparramado sobre o chão frio a trocar de canais, a fazer companhia a pessoas das quais ele não dá mais atenção, e pensando se lá fora possa existir um alguém tão igual a ele, isolado e também perdido em néon. Ele não se importa com as cores que dão um certo tipo de vida ao seu quarto, nem sequer com os sons. Ele realmente se importa é com os abraços. Já houve vários, vários tipos de abraços que envolveram vários tipos de momentos, ali, naquele mesmo lugar. Mas ele não se importa realmente com o sentido dos abraços, mas sim com o sentido de encontrar nos abraços, aquele sentimento de preencher o seu vazio colorido do seu quarto de dormir. Agora só resta o momento multidimensional daquele ambiente vazio, da velha televisão e do sentimento de ter o seu oceano inundado de sentimentos que ele mesmo não consegue entender. Sentimentos esses comparados a restos de naufrágios de tempos distantes e de consciências diferentes à sua nova realidade colorida e vazia. Talvez ele se sinta vazio, mas mesmo assim ele sente-se cheio, afogado em seu próprio rancor tão contrastante quanto o seu quarto. Ele sabia que dentro dele havia um grande oceano, não de um imenso mar azul, mas sim de um imenso oceano de sentimentos e perguntas não disponíveis. Mas ele também sabia que só se sentia assim quando o mundo não significava nada nos braços de outro alguém.

Às vezes o seu mar estava calmo como numa manhã tranquila e azul. Nesses momentos sua paciência se tornava uma virtude que muitos não sabiam como aproveitá-la, descartando uma dádiva que a natureza, o cosmo, ou o que quer que esteja acima de tudo isso poderia oferecer. Simplesmente o ignoram em seu mundo quase privado, colorido e vazio. Ele se sentia confortável em dias assim. Era bom sentir o azul esvair-se de seus pensamentos, de suas ações, de seus dedos, de seu oceano. Quando isso não acontecia, só havia uma única explicação: Ele sabia que o mundo não significava nada nos braços de outro alguém.

Havia também os dias de tempestade. Esses eram perigosos comparados aos outros. Cruéis em seu grau de personalidade. Batendo fundo na âncora da consciência. A verdade era que não existia solução para os dias de tormenta. Ele apenas encolhia-se na sua pequena concha protetora, aquecida, bem-vinda. Era nos momentos de tormenta que as melhores aspirações apareciam, que as melhores cogitações apareciam, os melhores insights, os melhores poemas, as melhores reviravoltas. Era nos dias de tormenta que o sol avermelhado sobre sua cabeça dava lugar a um lindo amanhecer. Ele sabia as consequências pela sua reclusão. Entendia o quanto perdia do novo mundo que se construía lá fora toda vez que a chuva se esvaía. Porque nesses dias ele sabia que os braços de outro alguém não representavam o mundo que ele queria.

Muito raramente acontecia, mas os dias de sol também surgiam, mostrando suas intensidades bucólicas, suas virtudes comprometedoras, seus desejos mais insanos. Eram em dias como nesse que os sorrisos das pessoas que o frequentavam se tornavam iluminados, mais acessíveis e suportáveis, quem sabe até, cheio de surpresas. Quando isso acontecia era como se o mar se abrisse aos homens, lhes dando comida através de suas longas redes. Peixes enormes de quase seis palmos de altura que poderiam alimentar uma família inteira. Era também nesses dias que suas espumas se tornavam mais brancas, sua areia era mais macia sobre os pés, e a cor do pecado sobre as peles era mais gostosa de se ver. Ah, esses dias eram difíceis. Mas sempre aconteciam quando menos se esperasse acontecer. Porque nesses dias talvez ele estivesse sobre os braços de quem fosse o mundo para ele.

Dentro desse vasto oceano, alguém poderia o encontrar. Talvez correndo mais que a brisa do vento, ou talvez sendo mais brilhante que o sol a beijar o velho horizonte. O mais encantador era o achar perdido dentro dessa imensidão que muitos temiam entrar. Porque mesmo quando a dor o rasgava, mesmo que ele se sentisse cansado como uma vela de um barco, mesmo nos dias em que a televisão não funcionasse, ele conseguiria juntar suas peças e recompor-se. Ele conseguiria ser a velha lula que espalhava a sua tinta negra para camuflar-se de seus problemas.

Mas agora ele está sozinho em seu pequeno aquário. Assistindo sua velha TV, a zapear a procura de algo ou alguém. Sentindo que o mundo não era o mesmo quando estava nos braços de outro alguém.

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