Hábitos “saudáveis”

Estão promovendo “saúde” ou culpa?

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“Desculpas não contam!”, “desculpas não queimam calorias.”, “ou você tem resultados ou você tem desculpas.”, “muda quem quer, quem não quer arruma desculpa.”, etc. Essas frases têm configurado o discurso de “saúde” ou de “promoção de hábitos saudáveis”. Mas que discurso é esse que expressa um entendimento limitado de saúde à sua dimensão física? Que promoção é essa que deposita toda a responsabilidade no sujeito, além de impor a mudança e fazer com ele se sinta culpado? E que visão simplista é essa que resume o processo de mudança de comportamento a uma simples questão de escolha individual ou de (falta de) força de vontade? É assim que irão promover saúde?

É preciso entender que cada pessoa encara e percebe a necessidade de mudar de forma diferente. Por mais que para nós, profissionais de saúde, a necessidade de mudar pareça evidente (e, ou necessária), as pessoas podem não perceber que o seu comportamento atual possa trazer consequências em algum momento. E, além disso, é preciso considerar com quem estamos promovendo saúde: quais são as características, os valores e objetivos de vida do sujeito; como ele percebe a sua própria saúde e a sua alimentação; e qual o contexto em que ele vive, onde a mudança será construída.

É importante favorecer a reflexão sobre o comportamento atual ao contrário de taxá-lo como péssimo ou horrível. Por que não buscar entender o que a pessoa sente e pensa sobre a mudança ao invés de trazer essas frases prontas e impor a mudança? Por que não investigar os fatores que fazem com que ela permaneça no status quo? Os relatos que o sujeito traz sobre os seus hábitos, considerados como “desculpas”, podem nortear a abordagem. O nosso conhecimento não deveria ser usado para julgar ou criticar as pessoas pelos seus hábitos; e sim para guiá-las no processo de mudança e construção de hábitos (em conjunto com o indivíduo) que honrem a sua saúde e favoreçam a sua autonomia.