Mentalidade de dieta

A busca pela epifania alimentar e estética

A mentalidade de dieta racionaliza a nossa alimentação e medicaliza os alimentos

Falar sobre dieta ultimamente é importante e, ao mesmo tempo, delicado, mas decidi me manifestar. O culto ao corpo e o Terrorismo (Alimentar e) Nutricional vem desencadeando uma mentalidade de dieta nas pessoas. Frequentemente, somos “convidados” e induzidos a aderir uma dieta seja da moda ou não. Assim, seguir uma dieta se tornou uma das condições essenciais para ser “saudável” nos dias de hoje. Chegamos, ainda, ao ponto de a alimentação saudável ser reduzida ao simples fato de seguir uma dieta

O problema dessa mentalidade é o foco na perda de peso/medidas e, ou na restrição calórica e alimentar em vez de uma alimentação adequada como um todo, ou melhor, de uma alimentação saudável no seu sentido mais amplo, conforme o nosso Guia Alimentar preconiza. Além disso, o ato de comer se resume a uma questão de estética e de saúde física e, ou um meio para “otimizar”/“potencializar” a saúde, desconsiderando questões hedônicas, culturais, sociais e filosóficas, por exemplo, que compõem o universo de dimensões da alimentação.

Precisamos desconstruir a ideia de que uma alimentação saudável se resume a uma dieta, na realidade, são conceitos diferentes. A chefe de cozinha Rita Lobo fez uma diferenciação bem interessante: dieta é restrição alimentar, enquanto que a alimentação saudável é diversidade. E acho que o pensamento em torno da alimentação está mais restritivo do que diversificado, eu diria… Precisamos também ter a ideia clara de que a alimentação não se resume a um alimento consumido em um dia ou em um determinado momento, da mesma forma que um alimento não emagrece ou engorda. Na verdade, se refere a um estilo de vida, a uma construção de hábitos que fazemos ao longo da nossa vida.

Precisaríamos, então, ter como foco a nossa saúde como um todo e entender que o resultado não está numa simples adesão a uma dieta ou a um plano alimentar perfeitamente calculado. Precisamos ir muito além: rever os nossos hábitos alimentares; a forma como nos relacionamos e lidamos com a comida e o nosso corpo; e não ficar esperando por uma fórmula mágica… A nutricionista Sophie Deram tem uma frase que eu adoro: o comportamento é tão importante quanto o nutriente. E, talvez, a gente esteja dando muita importância para os nutrientes, classificando-os em “bons” ou “ruins”, e esquecendo do nosso comportamento alimentar, eu diria…

Ter uma relação mais harmônica com os alimentos e o nosso corpo se faz necessária numa sociedade marcada pela imposição de padrões de beleza e pelo Terrorismo Alimentar e Nutricional. Ah, e sem deixar de mencionar a grande oferta de alimentos a qual estamos expostos…

Durante milhares de anos, o ser humano viveu a procura de alimentos; nos últimos anos, os alimentos procuram o ser humano em razão da lógica dominante dos mercados globalizados (FILHO et al., 2007).

Eu penso, ainda, que enquanto nos nutrirmos por meio de alimentos, precisaremos enxergá-los como mais do que um combustível e reconhecer todas as suas funções e significados. E as dietas, frequentemente, não consideram todos os papeis do alimento, focando quase que exclusivamente no biológico e no nutricional. Nós comemos por inúmeras razões que precisam ser levadas em conta e a alimentação precisa ser reconhecida como um fenômeno social, conforme destacado na Nota feita pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

Mas a resposta para tudo isso está no próprio símbolo da nutrição se nos atentarmos: a balança, que nos remete a ideia de equilíbrio. Procurar ter equilíbrio e consciência no momento de se alimentar é muito importante. E, talvez, seja nessa linha que a (nossa) abordagem deveria se concentrar. Uma abordagem inclusiva e com equilíbrio em torno dos alimentos é mais praticável e verossímil do que uma abordagem normativa e proibitiva… E, para encerrar, eu deixo uma frase que eu adoro e que acho bastante pertinente para ampliarmos um pouco a nossa visão sobre o ato de comer: “Comer nutre o corpo e alimenta a alma”.

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde, Universidade Federal de Minas Gerais. Desmistificando dúvidas sobre alimentação e nutrição: material de apoio para profissionais de saúde. Brasília, 2016. 166 p.

FILHO, M., et al. Transição Nutricional: conceito e características. In: KAC, G. (Org.). Epidemiologia Nutricional. Rio de Janeiro: Fiocruz/Atheneu, 2007. p. 457.

VIANA, M. R., et al. A racionalidade nutricional e sua influência na medicalização da comida no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, n. 2, p. 447–456, 2017.

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