Nutrição

Muito mais do que incentivar o consumo de frutas e, ou perder peso/medidas

A nutrição não é uma ciência de exatas nem de estética, ela é uma ciência da área da saúde

A forma como a nutrição e a alimentação têm sido vistas chama muito a minha atenção, uma visão bem restrita e superficial, eu diria… O foco está em atingir um corpo “perfeito” e, ou perder/ganhar medidas de forma rápida e imediata, além de todo o terrorismo, modismos, restrições, dicotomias (“saudável” x “não saudável”; “bom” x “ruim”) que permeiam o discurso alimentar e nutricional. Chegamos ainda ao ponto de classificar os alimentos como lixo e até mesmo veneno

Além disso, o alimento agora é visto como um “remédio” com inúmeras alegações de saúde e propriedades milagrosas e terapêuticas. Isso é tão verdade que o que as pessoas mais me perguntam quando descobrem que sou nutricionista ou mesmo quando eu ainda era estudante é para que serve determinado alimento; o que elas podem e, ou não podem comer; se o alimento/nutriente tal faz bem ou mal; e se engorda ou emagrece. Acho que isso é mais o perfil do Nutricionismo do que da Nutrição… Se passearmos também por algumas bancas de jornal e nos atentarmos para as capas de algumas revistas, podemos observar o quanto o alimento é medicalizado ou até mesmo demonizado.

Eu penso que a Nutrição, no seu status de ciência, não é “pode ou não pode” e não deveria se concentrar em dividir os alimentos dessa forma. Na verdade, essa abordagem está longe de ser a melhor e ela não tem conseguido modificar hábitos alimentares de forma eficaz e duradoura… Comer é muito mais do que um meio para se ter saúde, precisamos lembrar disso e parar de “medicalizar” e “demonizar” os alimentos. Alimento não é remédio e muito menos veneno.

Os alimentos possuem inúmeros papeis, mas antes de tudo, eles servem para comer (ou beber) e eles nutrem o nosso corpo, mas também alimentam a nossa alma. E as pessoas estão esquecendo de algo tão elementar… É claro que existem alimentos mais interessantes do ponto de vista de nutricional e é muito importante que a nossa alimentação seja bastante variada para obtermos uma oferta maior de nutrientes de modo que o nosso organismo funcione de forma adequada biologicamente falando.

No entanto, variedade não é uma das considerações que as pessoas fazem a respeito da alimentação. Na realidade, o que se observa é uma visão muito restritiva e permeada de modismos… Ultimamente, a condição para se ter uma “alimentação saudável” é o consumo de determinados alimentos, especialmente aqueles venerados pela mídia ou então a exclusão de determinados alimentos e, ou nutrientes. Bem simplista, até porque não considera o universo de dimensões que envolve a alimentação, conforme o nosso Guia Alimentar aborda.

Mas a visão restrita da nutrição não para por aí e está no próprio profissional que, às vezes sem querer, associa o seu nome a frutas e, ou a fitas métricas e balanças em seus logotipos e cartões de visita. Eu confesso que nunca entendi essas associações, até porque a nutrição é muito mais do que (passar a) comer frutas e, ou emagrecer/perder medidas, basta analisarmos a grade curricular de alguns cursos de graduação…

Enaltecer um determinado grupo ou alimento não condiz com o real conceito de uma alimentação saudável. Além disso, o foco também não é “remodelar” o corpo ou pelo menos não deveria ser, até porque magreza não é sinônimo de saúde… Eu penso ainda que precisamos lembrar que a nutrição não é uma ciência de exatas e muito menos de estética, a nutrição é uma ciência da área da saúde, posso parecer redundante, mas acho importante enfatizar.

Assim, o nutricionista, enquanto profissional, assume o papel de agente promotor de saúde por meio de uma alimentação adequada e saudável, conforme expresso pelo Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) em uma de suas campanhas. O foco da Nutrição deveria ser então a saúde como um todo e, talvez, a gente precise resgatar a linda definição de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS):

“Um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afeções e enfermidades”.

Pensando assim, então a alimentação (saudável) deveria proporcionar um estado completo de bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afeções e enfermidades. No entanto, tem se dado muita importância para o primeiro ponto, a parte física, e esquecendo dos outros dois… A abordagem nutricional deveria, então, considerar a saúde de forma holística, “mas ao mesmo tempo, o prazer de comer, a comensalidade, a coerência com as práticas alimentares do indivíduo, suas preferências e aversões, sua cultura, sua saúde mental, sua situação financeira e a sustentabilidade ambiental”.

Referências

ANTONACCIO C.; GODOY, C.; FIGUEIREDO, M. Nutrição comportamental para uma comunicação responsável em saúde e nutrição. In: _______ ALVARENGA, M. et al. Nutrição Comportamental. Barueri: Manole. p. 133–160.

ATALLA, M.; COELHO, D. A dieta ideal: sem mitos, sem milagres, sem terrorismo. 1 ed. São Paulo: Paralela, 2015.

DERAM, S. O peso das dietas: emagreça de forma sustentável dizendo não às dietas! 1 ed. São Paulo: Sensus, 2014.

VIANA, M. R. et al. A racionalidade nutricional e sua influência na medicalização da comida no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, n. 2, p. 447–456, 2017.