Café, fotografia e a subcelebridade

Humberto Lemos
Sep 13, 2018 · 2 min read

Conversando com um grupo de trabalho, discutimos o papel do escritor diante de sua obra, da importância de sua autoria e do seu domínio diante do papel em branco. Unânime! O papel preenchido se torna mais relevante e mais forte que o autor, personagens se rebelam, criam vida própria e ditam seus caminhos. Cabe ao escritor perceber a "linha de chegada", a morte, o ponto final.

Na fotografia, pensadores críticos como Roland Barthes e Susan Sontag nos instigam.

“Sinto que a Fotografia cria meu corpo ou o mortifica, a seu bel-prazer”. Deixar-se fotografar é passar por essa “microexperiência da morte” é tornar-se “verdadeiramente espectro”. E conclui: “a Morte é o eidos da foto”.

“He is dead, and he is going to die"

“Premeditada… como um crime”. Mais uma vez a imagem talhada pela pena do poeta se presta a analogias nem um pouco casuais. Susan Sontag procurou estabelecer a analogia entre o ato de fotografar e a agressão praticada com o uso de uma arma de fogo. Uma fantasia ligada ao uso da câmera fotográfica se expressaria no uso frequente de palavras como “carregar”, “apontar” e “disparar” uma câmera. [Roland Barthes e a escritura: um olhar poético sobre o signo fotográfico - Robson Aurélio Adelino Braga] http://www.studium.iar.unicamp.br/

Conheci o fotógrafo Gui Mohallen há mais ou menos 08 anos, e, no cafezinho contumaz do dito mercado fotográfico, conversamos sobre o seu processo criativo e o avanço na produção imagética. Ele pondera que, seu agente, curador, mentor (ou como você achar mais digno nomear), recentemente lhe aconselhara: Pare! Olhe para a sua obra, apenas olhe. Passe um ano sem produzir e entenda sua produção. Não seja um refém de si mesmo!

welcome home — Gui Mohallem

Dois grandes amigos, atualmente, vivem esse dilema da obra superar o autor. Na fotografia autoral, diferente da comercial, o prazer da linha de chegada, assim como o do escritor ou do maratonista, é o ponto final. Apenas pare! O amor é lindo, mas é breve, parta pra outra — afinal, o fotógrafo sempre será uma subcelebridade de si mesmo.

Ps.: Tô precisando dar uma malhada e correr uma maratona, alguém indica uma academia? Pensei em começar boxe!

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Fotógrafo, apreciador dos vazios da vida.

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