A Amazônia que conheci

Larry Rotter, ex-correspondente do NYT no Brasil, o jornalista que Lula quis expulsar, em seu livro de memórias, comentou que há certos assuntos que os brasileiros se consideram especialistas, muito embora não tenham familiaridade nenhuma sobre o tema. Um desses assuntos é a Amazônia. Pelo simples fato de ser brasileiro, isso daria uma autoridade de vaticinar sobre o destino da região, em que pese muitos jamais tenham colocado seus pés lá, não obstante, conhecerem Miami e Paris.
Essa semana, Temer decretou a extinção da Reserva Nacional de Cobre situada entre o Amapá e o Pará, liberando a região para a exploração mineral. Não quero incorrer no mesmo equívoco apontado por Rotter, pois não conheço a região em si, entretanto, tenho que dar o meu testemunho sobre a Amazônia que conheci.
Há dois anos atrás, fui para a Amazônia legal, para a região entre o Mato-Grosso e o Pará, isso para conhecer uma usina hidrelétrica. Na minha imaginação, pensava que iria conhecer algo como as histórias do Marechal Rondon ou dos irmãos Villas-Boas que desbravaram aquela região. Ledo engano. Aquela Amazônia não existe mais.
A partir de Cuiabá até Alta Floresta, avistando pela janela do avião, o que se vê são plantações de soja, pasto e alguns pedaços isolados de mata. Chegando em Alta Floresta, tive que pegar por duas horas uma estrada de terra onde apenas vi um deserto verde (vide foto). Eis o ciclo da floresta. Primeiro chega o madeireiro que derruba as madeiras de lei, depois o carvoeiro que taca fogo na madeira sem valor comercial, em seguida chega o pecuarista para transformar o desmatado em pasto. Essa é a Amazônia que conheci. O pouco do verde que existe, restringe-se a mata ciliar na beira dos rios.
Os ambientalistas chiam sobre as hidrelétricas construídas na Amazônia, acho que com alguma razão, outras não, afinal não há que se falar em desmatamento quando já não há mais floresta. O que testemunhei é que as hidrelétricas são em muitos casos, a oportunidade para que se faça alguma compensação ambiental e para que a região se desenvolva além do triste ciclo da floresta.
Voltando a falar sobre a Reserva Nacional do Cobre, sem conhecer a região e acreditando na premissa de que se trata de uma região preservada e intocada, acredito que foi um equívoco do Temer ter liberado a explicação mineral. Isso sem olvidar que as coisas não brotam magicamente na prateleira do supermercado, isto é, a lata de cerveja um dia foi um mineral extraído da terra, assim como o ferro da lata de atum, isso sem mencionar na energia necessária para produzir etc.
Há que se saber conciliar o progresso econômico e a conservação ambiental. A isso chamamos bem-estar, isso vale tanto para o brasileiro da região Sudeste, quanto para o brasileiro da região afetada.