Moralismo (ou a negação da realidade como método de emburrecimento)

Comecei a esbouçar esse texto na semana passada, quando li alguns comentários na página do Instagram da editora Companhia das Letras, que havia recomendado o livro “Lolita” do escritor Vladimir Nabokov. Imediatamente, a chatíssima patrulha do politicamente correto teceu diversas críticas ao polêmico livro, tais como que a obra seria uma “romantização” da pedofilia.

Antes de tudo, adianto que Lolita é um dos livros que considero mais bem escritos que já li. A narrativa de Nabokov é fabulosa. Há que se também dar os créditos ao tradutor Jorio Dauster que fez um trabalho irretocável. Voltando à crítica, evidentemente que se trata de um romance (na sua concepção de estrutura literária), logo é uma romantização, contudo, a obra não se trata de um elogio ou incentivo à pedofilia.

Muito pelo contrário, o narrador abusador, Humbert Humbert, foi concebido de tal forma que sob a aparência de um cidadão normal, escondia-se um monstro lascivo capaz de cometer atos pérfidos para conseguir abusar da sua enteada Lolita. Em suma, o livro não é um elogio à pedofilia, mas uma denúncia crítica. Em que pese possa concordar que há um toque Leni Riefenstahl ao “embelezar” algo sórdido. Mas essa é uma crítica recorrente na arte. Por exemplo, dizem o mesmo das fotografias de Sebastião Salgado e a sua estetização da pobreza.

Essa semana, o Banco Santander cancelou a exposição Queermuseu, em razão de diversas críticas de que as obras fariam uma apologia à pornografia, à zoofilia, à pedofilia. Interessante ver que quem empunhou a bandeira da “moralidade” foi o MBL. Tendo a acreditar que o posicionamento do movimento se dá mais em razão de sua bandeira anti-PT e tudo aquilo que esteja (aparentemente) próximo à esquerda, como o movimento LGBT.

É verdade que há um exagero demasiado no discurso do politicamente correto e na história da ausência de gênero. Aqui, embora seja um vídeo cômico, a opinião do Bispo Arnaldo é acertada*. Todavia, há que se frisar que o posicionamento do MBL cheira ao Macarthismo, algo que deve ser condenado. Vi algumas das fotos das obras da exposição. Tenho dúvidas se considero aquilo como arte de qualidade, mas é arte. Arte não é só o belo, como as pinturas clássicas, mas também aquilo que traz questionamentos, inquietação e provocação.

É um tanto pueril acreditar que alguém vá achar que a pedofilia é normal depois de ler Lolita ou que ao frequentar a exposição Queermuseu as pessoas vão sair lançando purpurina por aí. Tão pueril como, por simplesmente não abordar tais temas, essas coisas deixarão de existir. A isso chamamos de negação da realidade. Mas negar a realidade é compreender o que nos cerca? Acredito que é exatamente o contrário. Negar a realidade é uma forma de emburrecimento.

O Santander ao se deixar dobrar pela patrulha ideológica carola faz um enorme desserviço, algo como os radicais do Talibã que dinamitaram obras milenares exatamente por contrariarem “a visão de mundo e os valores que pregavam.” Tristes tempos que vivemos.

(*) https://www.youtube.com/watch?v=F_UxiBEAAsY

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