Permaneça

Ontem estive por cinco horas em uma atividade de balanço do Comando de Greve da UNESP Bauru, o qual completa um mês e uma semana de movimento ativo. Estas são algumas rápidas impressões e, de certa forma, apelos abertos.

O esvaziamento de espaços organizativos dentro dos movimentos sociais não é novidade. Assumir uma posição subversiva à esse projeto de sociedade que ao mesmo tempo que comporta tão bem alguns apaga tão facilmente outros coloca o indivíduo face a face com o maquinário de terror que esse próprio projeto construiu para manter-se sem empecilhos — maquinário esse já bem conhecido pela militância de esquerda vide a eficácia da ampla mídia em construir a imagem dos movimentos de luta com depreciação, com deturpação e com ênfase na repressão.

Como em Bauru o bagulho também é louco e o sol também mata, o cenário do movimento estudantil da UNESP local não é diferente. Uma pequena parcela de militantes fazem um trabalho de muitas e muitos, fatigados porém insistentes e combativos, tentando de certa forma romper com algumas das amarras que esse projeto o qual me refiro tanto se esforça em manter e sustentar distanciando assim o povo dos livros.

O movimento existe, a Universidade para. Não que isso pareça incomodar muito a população de Bauru, o que é completamente entendível — afinal, “quem é que estuda alí? Que que fazem de bom pra nós essas e esses que estudam alí? Baderna? Deixam tudo ao redor mais caro e mal dão uma foda pra cidade”. Eu poderia me demorar nesse parágrafo um tanto bom pra contar um pouco sobre minhas percepções acerca do perfil universitário-público-cursinho-#eumereci, mas meu intuito é outro. Demonizar e apontar pra quem faz ou deixa de fazer nem sempre move a montanha.

Por que esse paralelo cidade-universidade? Por que ontem estavam lá, umas 45 pessoas, discutindo e fazendo um balanço sobre o movimento dessa greve pautada em 2016 principalmente e justamente por políticas de permanência estudantil que possam embasar o acesso crescente de cotistas. Sim, a luta é e é muito sobre a defesa e pela qualidade do ensino público, pelos direitos trabalhistas — de direito e feito direito. Mas muito mais é ela sobre o ensino para quem.

Muitas e muitos de nós não precisam(aram) das cotas pra estudar. De bolsa pra estudar. De moradia estudantil pra estudar. De creche pra colocar os filhos pra estudar. De um Restaurante Universitário com preços populares pra comer bem enquanto passa o dia na universidade pra estudar. Tá aí uma já evidente exclusão de muitas e muitos a esse espaço dito público-pra-mim-mas-não-pra-você. Calma, sem dedos apontados — isso é só uma constatação. E ela vem pra mostrar que não é porque muitas e muitos de nós não vivemos as pautas da greve que estamos completamente isentos de se importar com e se engajar por elas. Isentos de construir uma universidade mais acessível.

O balanço feito ontem chega acompanhado das férias estudantis — o afastamento de uma galera que traz consigo a ideia do “eterno retorno”, como bem pontuado por um deles ontem. Afinal, um movimento é construído por pessoas e terceirizar (mais um pouco q tá pouco) uma função coletiva não me parece justo. Infelizmente essa falta de identificação de causa por conta do perfil universitário e a cultura do medo que tão fácil nos foi vendida, comprada e aprovada causa um certo esvaziamento, distanciamento e pré-julgamento dos espaços políticos universitários. Mas é aquele ditado,

se num for nóis vai fazê quêm?

Uma estudante de artes se pronunciou num momento onde todos estavam desolados com o panorama local e nacional que nosso país e as lutas autônomas e populares enfrentam. Artes é um dos cursos mais precarizados do nosso campus, com a maior taxa de desistência. A maior dificuldade de manter futuros artistas e professores. De fazer as pessoas permanecerem. Foi sobre isso, sobre permanecer. O recém formado coletivo e CA Chave vem construindo atividades todas as semanas paralelas às atividades do CEUB para fazer com que as pessoas permaneçam. Com que, com o cessar provisório das aulas enquanto ato político por respostas e resultados (greve), as pessoas sintam-se a vontade de estar na universidade e construí-la. Sentir parte de algo que é feito pra ser maior. De mais povo além de nós.

Me emocionei de certa forma. O curso mais precarizado, com mais taxa de “despermanência”, é o que tem feito mais esforços pra permanecer, resistir e existir dentro do campus, empenhando tanto esforço quanto os militantes dentro daquela sala de balanço que se dobram e desdobram pra construir uma greve que ao mesmo tempo tenha atividades, politização e seja combativa.

No fim, depois de certo pânico coletivo, todos respiravam um pouco do ar que a esperança traz e logo ameaça tirar. A palavra permanecer ecoou na minha cabeça essa manhã e insiste em me consumir.

No fim é tudo sobre permanecer. O convite é aberto: permanecer por sí, permanecer pelo próximo. E assim seguimos.