Sobre felicidade e tudo que agrega
4 de setembro de 2018

Um dia, perguntei aos meus pais o porquê do meu irmão ser motivo de orgulho e eu não. Ao darem a resposta automática de “lógico que você é especial”, pedi pra citarem alguma virtude.
Passei meus últimos anos ponderando sobre a natureza da felicidade. Não por nada, mas porque a ausência dela na minha vida tornou presente os longos dias de pura reflexão. De solitude, claro, porque depois de tanto viver relações execráveis, ficar sozinho chega a ser um lapso de paz.
Até abrirem a porta.
Alguns adolescentes por vezes chegam dizendo que eu só falo sobre tragédias. Ora, mas é claro. Nossos momentos mais felizes não rendem textos, rendem lembranças.
Nunca escrevi sobre as vezes que matei aula com meu antigo grupo de antigos amigos, nem sobre o dia em que fomos pegos por uma inspetora do colégio e passamos o dia todo com o cu na mão, achando que ligariam pros nossos pais.
Nunca escrevi sobre os dias que viajei pra outros lugares e deixei a vida pra lá.
Sabe que meus pais nunca souberam me responder sobre as minhas virtudes? Dentre desculpas esfarrapadas e desvios, eu nunca obtive aquela resposta que faria o meu dia. Porque no dia que minha mãe disse que eu seria um bom pai, eu fui pro meu quarto chorar, emocionado. Feliz de verdade. Escondido.
Parei pra pensar que ninguém É feliz de verdade. Todos têm suas próprias crises. De vez em quando algo de bom acontece e pronto: nos convencemos de que somos felizes. De que a tristeza é uma escolha, e mil e um outros discursos bastante românticos sobre sentimentos.
A verdade é que não escolhemos nada. A última coisa que temos é livre-arbítrio. Você age. Não tem controle sobre as consequências dos seus atos e nem de como essas consequências vão te afetar. Não tem controle sobre o próprio cérebro, muitas vezes nem sobre as próprias ações.
Muitas vezes eu fico triste.
Não sou de chorar, mas ando chorando muito. Como em todas vezes que meus pais me fazem sentir igual o filho que só os trouxe problemas. Quando eu lembro que não consegui ser bom o suficiente pra minha ex-namorada, quando eu lembro que não consigo ser bom o suficiente pros meus pais.
Não consigo ser um amigo interessante, nem um bom aluno. Ou corrigir a vice-diretora, que um dia trocou a palavra “demagogia” por “pedagogia”. Ou ter coragem de falar pra minha ex-namorada que sinto muito por tudo.
Ultimamente, não tenho tido vontade de acordar. Nem de dormir, sabendo que terei que acordar. Nem de me levantar, pra vestir alguma roupa não-tão-bonita e ir ao encontro de colegas aos quais eu tento parecer mais legal do que sou.
Ultimamente, chegar em casa tem sido pior do que acordar. Por saber que eventualmente vou ter que lidar com alguma briga besta, ou passar o dia inteiro estressado.
Ultimamente, só tenho vontade de dormir o tempo todo. Mas se eu o fizer, tem briga.
Ultimamente, a felicidade tá em falta. A vontade de comer, de conversar, de se relacionar, de sair com minha única amiga que realmente gosto. De fazer amigos tão temporários quanto a felicidade, de conversar com um pai que já disse que me vê como uma decepção.
