café
desgosto de sua quentura
contra a porcelana fria
ponto
ainda assim, porém, absorvo sua genuína escuridão
e todas as formas que se formam através dela
olhe, não me entenda mal
mas acho que temos um ponto ou outro em comum
você consegue ver também, ou estou perdendo tempo?
pra ser totalmente honesto, acho que o seu calor é poético o bastante
muitas coisas legais a seu respeito surgem através dele
bem, devo confessar:
até que admiro a sua fumaça anuviada, quase transparente
que se eleva em infinitos e rodopiantes espirais
e se dissipam tristemente pela brisa finita
dói, de alguma forma?
acho que sei muito sobre a perda
mais ainda sobre transgressão
quem deixou o vento levar a sua essência?
(quem deixou que o vento levasse a minha?)
temos um ponto ou outro em comum, reparou?
se você não queimasse a minha língua
se você não me marejasse os olhos
se você não fosse quente
mas você queima
você me mareja
e você é
meu sopro gélido te danifica
você não me disse
mas não precisava dizer
erro meu
nossos pontos em comum não são nossos pontos perfeitos
eu deveria te amar pelo o que você é
e você deveria me amar pelo o que eu sou
inteiramente, nada pela metade
espere
podemos tentar outra vez
por que não tentamos
de novo? de novo?
de novo? e de novo?
mais um pouco
mais uma vez
perco-me em seu ardor imperativo
em sua beleza densa
feita de fumaças que embaçam as minhas lentes
não consigo te ver
não consigo me ver
onde estamos?
quem somos?
o que nos tornamos?
nos perdemos, finalmente?
como faço para
voltar atrás?
como faço para
deixar de tentar me encaixar
onde não me encaixo?
como faço para
não te magoar?
como faço para
dizer que acabou?
como faço para
ser justo comigo?
para ser justo contigo?
me desculpe
mas se o café é quente
e se tem leite na geladeira
por que perder tanta essência?
às vezes é melhor seguir em frente
