“nada”
vejo-te mergulhar
expressão serena
num oceano profundo
sem pestanejar
entre barcos e velas
âncoras e varas
peixes e algas
pedras e conchas
não há muito ao redor
senão a imensidão
gostaria de poder me dar ao luxo
de navegar por aí
mas não de nadar
não ao seu lado
você é bom nisso
entende-se com a água
e que sorte você tem
encaro-me longe
longe de tudo
mas perto da areia
que entre meus dedos escorre
não posso e não devo
sei disso, sei mesmo
mas é como se a água contra a rocha sussurrasse
e então eu vou
os pés molhados
e então a perna
o abdômen
inteiramente
ir até você
é se afogar para sempre
você segue em frente
e eu
eu não sei nadar
e apesar do seu discurso macio
você não pode esperar que eu nade até você
porque foi o que você gritou para eu fazer
nada
