Era quarta-feira, ela estava ansiosa pelo dia todo a espera de uma conclusão. A gente sente quando as coisas estão dando errado, e a gente sabe quando é hora de colocar um ponto final. O que interfere é somente a escolha.

Era inverno então o dia foi de muito café. “If you’re not shaking, you need another cup”, dizia a plaquinha ao lado da máquina de café. Enquanto adoçava o líquido em sua xícara, pensava no quanto se sentia sozinha nesses últimos tempos. Ela tinha muitos amigos, seus colegas de trabalho eram ótimos e seus pais estavam sempre dispostos a um bom papo. Mas de repente, puff, todos sumiram. Pararam de se importar. Não sabia se esse era um reflexo de suas próprias ações, ou se eles só estavam ocupados, ou. Mas sabia que se sentia sozinha. Interna e externamente.

Já não havia mais proatividade, tesão nas tarefas diárias, nas pequenas coisas que ela amava fazer e até nas pessoas que ela amava amar — redundante do jeitinho que significa. E quanto mais sozinha ela ficava, mais sozinha ela queria estar.

O relógio marcava 18h10, e seu encontro estava marcado para às 18h30, em frente ao Parque Trianon. Seus dedos já estavam prontos para digitar algo como fugir, desmarcar, fingir. Qualquer coisa que anulasse aquela conversa. Ela não queria se justificar por sentir demais, por estar passando por essa fase difícil. Já era difícil entender tudo, ser negada ajuda era ainda pior. 
Os pensamentos corriam pela sua cabeça e ela notou que já haviam passado mais de 30 minutos, acendeu um cigarro e começou a caminhar. No termômetro da Paulista marcava 14C, imaginou se deixaria seu “encontro” esperando por muito tempo no frio, se estava bem agasalhado. Ela poderia emprestar seu cachecol, caso necessário, sua tristeza e decepção não classificavam ódio.

Quando ela entrou na praça avistou de longe a silhueta trêmula — É, esperou muito tempo no frio. Naquele momento sua mente fez uma piada com esse tempo gelado de São Paulo e o gelo do coração, ou algo idiota do tipo. E também se perguntou se aquela seria a última vez que se veriam. Já que aquela conversa seria para colocar fim em um abandono que já era existente. Porque, cê sabe né, abandono não é somente físico, ele também pode ser mental. Neste caso eram as duas coisas. 
Aproximaram-se, cumprimentaram-se, sentaram-se. A conversa durou horas e horas. Alguns xingamentos como “você é insensível demais” saiu pela sua boca, e, algumas justificativas como “já tive muitos relacionamentos que deram certo assim” não a satisfaziam. 8 meses. 8 meses tentando disfarçar todo descaso recebido como uma fase. Um dia ruim. Tá tudo bem. Mas naquele dia não, naquela situação, não. Não não e não! Estava determinada a não se desculpar pelos seus sentimentos. E a parar de insistir no tempo como cura para apatia. E foi aí que seus ouvidos se depararam com a seguinte frase, e por um momento, ela além de morta, quis ser surda:

— Ah, mas isso não temos como mudar. Você é muito depressiva mesmo. — Silêncio. Eterno.

— Posso até ser depressiva — olha com desdém. Mas pelo menos não receio em amar, ao contrário de dar as mãos à covardia como você.

Pega sua bolsa, cospe na grama e caminha em direção a saída do parque. Ouve o seu coração bombear o sangue quente. Os olhos já a transbordar, corre até a entrada do metrô. Gelada, solitária e com medo do futuro.

Do jeito que a história se inicia, termina.