Cibercultura e Novas Relações Sociais

A história do filme Ela (Her), produzido em 2013 com direção de Spike Jonze, se passa em um futuro não muito distante, no qual há uma grande disseminação do advento das mídias digitais, de uma forma ainda mais evoluída das quais estão hoje em processo de desenvolvimento. Essa disseminação é mostrada em diversas cenas onde é visto ao redor do personagem principal, Theodore (representado por Joaquin Poenix), diversas pessoas conectadas e entretidas com seus equipamentos eletrônicos enquanto circulam pelos espaços.

O conceito de infraestrutura técnica do virtual, abordado em Cibercultura (1997) por Pierre Lévy, é visto de forma muito ampla no filme, pois o desenvolvimento dessa infraestrutura se dá de tal forma que mal se vê a necessidade de contato tátil. Os computadores dispensam a necessidade de teclados e possuem um extenso retorno programado. É visto o uso de Sistema Operacional de Inteligência Artificial (SO1), um produto comercial, que atende ao comando de voz ou à captação de movimentos executados, sendo acessado de qualquer aparelho com uso de fone sem fio. Posterior a isso, surge um novo sistema operacional que promete ser uma entidade intuitiva, capaz de escutar, conhecer e compreender seus usuários, resultado de uma inteligência coletiva que é distribuída por toda parte e coordenada em tempo real, ainda mais desenvolvido, que não só atende a comandos de voz, mas também se adéqua ao usuário através da inteligência artificial, que possui um poder cognitivo para anteceder e resolver problemas, no qual acaba economizando a energia de quem o comanda, podendo isso fazer parte de um futuro cada vez mais próximo, onde cria-se uma interface homem-máquina, e sistemas operacionais criam experiência de uso particular com cada usuário, pois o programa incorpora inteligentemente os aspectos comportamentais humanos a partir das interfaces realizadas, chegando ao ponto de sentimentos humanos serem processados por uma máquina, e evoluírem a cada novo instante conforme interage com seres humanos, modificando as formas de relações e explanando as transformações ocorridas no meio tecnológico.

Outro conceito visto na obra de Pierre Lévy que se evidencia muito no filme é a questão da interatividade. O personagem Theodore está sempre imerso em tal interação, seja no trabalho, no metrô, em casa, seja no momento em que o aparelho toca a música desejada por ele, quando lhe dá as notícias do dia, lê seus emails, ou quando lhe conecta a um bate papo virtual. Ao jogar vídeo game, por exemplo, dentro de uma estrutura ainda mais interativa, no qual ele age frente a frente com a máquina e recebe uma reação da mesma instantaneamente. O nível de interação é tão grande que, não só o personagem Theodore que se apaixona pelo seu sistema operacional, mas também outras pessoas começam a se relacionar afetivamente com os seus respectivos seres autômatos, tendo interações que os preenche emocionalmente, dialogando, relacionando e se comunicando a todo o momento, afastando aquele conceito do homem (controlador) e máquina (controlado). Assim, é retratada uma sociedade possuidora de uma cultura extremamente ligada à tecnologia.

No filme, há uma passagem em que Theodore conversa com Samantha (seu sistema operacional), no qual ele diz que a mesma parece REAL para ele, pois os dois, cliente e serviço, desfrutam de momentos e sensações dos quais até então pensamos só ser possível entre pessoas e por pessoas, numa realidade inteiramente material e tangível. Porém, como explica Pierre sobre o virtual e o real, o virtual existe em potência, não sendo um conceito contrário ao real, entretanto, é oposto ao conceito de atualização. A atualização, segundo o autor, é “uma criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e finalidades”. Sendo assim, a atualização é resultante de um conjunto de fatores que geram uma solução para determinado problema. Já a virtualização se opõe à atualização, pois não se refere a uma solução, mas sim a toda e qualquer entidade que se encontra deslocada no espaço, ou seja, desterritorializada, mas que ainda assim é capaz de demonstrar diversas manifestação em variados momentos e locais, não estando parada e presa em um único lugar e tempo. Como por exemplo, o sistema operacional de Theodore chamado de Samantha, no qual enquanto dialogam, a mesma tem inúmeros pensamentos, exerce diversas funções rapidamente, e também interage ao mesmo tempo com outras inúmeras pessoas, de diversos lugares e em tempo real, fazendo com que técnicas modernas se concretizem amplamente, levando até a um crescimento de vinculo sensível entre pessoas e aplicativos já programados para que aja interação emotiva a partir da abertura que é dada pelo usuário. Dessa forma, a sociedade não só assiste, mas também sente a redução de distância e a amplificação de efeitos de sensações e presença.

O filme Ela vem abarcado de reflexões sobre as relações tecnológicas na sociedade, abrindo diversas discussões sobre o caminho do qual a cada ano nos aproximamos mais, assim como também a respeito dos limites processuais da inteligência não artificial. O filme relata experiências que já temos, porém, em estágios ainda inferiores, mas que já nos alertam para uma possível evolução que não tardará. Mostra-nos também o quão complexa pode ser a inserção de tamanha tecnologia no meio social, principalmente quando a mesma se atrela a relacionamentos humanos, sentimentos e emoções, possuidora de um espantoso avanço de capacidade técnica.

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