Noir Blue (2017), Ana Pi
por Iakima Delamare

“Entro no avião e percebo que todas as pessoas nele são pretas. O piloto, a primeira classe. E assim percebo que essa não é uma viagem qualquer. Estou indo para a África Subsaariana”. A voz — doce, de menina — da dançarina brasileira Ana Pi narra em português sua experiência enquanto pontos iluminados de diversas cores se posicionam lentamente sobre um fundo preto. Abaixo, em francês, uma legenda na cor azul. Assim começa Noir Blue, um misto de diário de viagem, performance e ensaio.

Ana Pi alterna sua narração com imagens de sua viagem e de sua dança noir blue. Sua voz é calma. Seus movimentos, em câmera lenta. Como se, assim, Ana estendesse sua presença ali. Tanto na África, quanto na tela. “Meu maior compromisso agora é estar…. presente… com os dois pés no chão”. Na voz que narra, no corpo que dança, ela está sempre presente. Noir Blue é, em parte, um filme sobre a presença. Sobre o direito de estar-se presente em sua terra de origem. De estar-se presente na terra de seus ancestrais. A presença que foi negada a todo um povo por centenas de anos. E que agora é exercida por Ana Pi, de maneira profunda e transformadora. E o filme, é sua forma de compartilhar essa sensação e esse sentimento com o mundo.

Há no filme, um contraste entre o dito e o visto. O invisível e o visível: imagem, que Ana nos mostra e a que ela cria por meio do texto. A força do presente trazido pelas imagens e pela performance é de certa forma quebrada pela forma pausada como Ana reflete retroativamente sobre o que viveu. 
Esse padrão narrativo (de alternância entre narração, viagem e sua performance) é quebrado nos minutos finais do filme. Ela filma seus amigos dançando, sem cortes, inclusive por um longo período em que o “palco está vazio”. Sua voz, fora de campo, pergunta “que dança é essa?”. Me sinto parte do grupo, que assiste e comenta e espera que o próximo dançarino ocupe o palco. Nesse momento é como se Ana nos dissesse: “não basta eu falar, preciso te mostrar”.

Em boa parte do filme, Ana aparece sozinha na tela e não se pode deixar de sentir uma certa solidão. Talvez porque o pertencimento que ela encontra venha também com um lembrete de que ela não é dali. Num continente onde tudo é novo, inclusive o ar que respira, Ana descobre um pertencimento que revela o seu não pertencimento. Um entre mundo, entre línguas. Um alien azul, que todos querem saber de onde vem, que língua fala. Constantemente lembrada de que não pertence ali. Quando perguntam “você conhece o acarajé?” o “mas você não é daqui” fica implícito. “Se você nunca veio aqui como é que já conhecia?”

“É porque a gente tá no futuro” ela diz. E dessa forma, Noir Blue é também sobre o tempo. Distorcido por aquele corpo negro-azul, que transborda os limites do presente e se projeta no passado e no futuro. Assim como sua voz, que relembra as cenas do antes e as trazem pro agora, Ana é como uma ponte que liga os tempos, as gerações e os continentes. Uma ponte que, se antes foi feita à força, agora é feita com força, num ato de resistência. E quando Ana dança em frente a uma arquitetura de uma modernidade imposta ao continente africano pelo colonialismo, seu pequeno corpo dança uma dança de resistência, do pequeno ser negro-azul dançante que veio pelo céu de terras distantes.

Em uma cena a imagem de Ana é sobreposta por imagens da urbanidade africana. Suas cores se sobrepondo às cores do continente, se misturando no pano que parece derramar sobre a paisagem africana. Sua subjetividade se misturando com vários coletivos, várias Áfricas. “É nessa hora que eu faço as pazes com o prefixo afro. Nele cabe todo um continente. E esse continente inteiro cabe em mim.”

Texto escrito durante o 20º Festival Internacional de Curtas de BH