Espadachins da Selva Canibal Livro 1

Livro 1: Inferno Verde

bodji harri
Nov 2 · 27 min read

PARTE 1

UM PÉSSIMO NEGÓCIO

Carta de Naya da Tribo Iuna ao Vice Rei da Portuária

Caro Vice Rei da Portuária, me adianto pedindo desculpas por não ter ainda o entendimento completo de seu idioma estrangeiro. Mas como vossos conterrâneos nunca deram o respeito devido a lingua de meu povo, imagino que isso não o faça menosprezar a importância do meu relato.

Hoje fazem 100 anos que o povo do Reino Leão chegou em nossas praias enevoadas. E também é o aniversário da cidade de Bruma Grande, que com grandes reservas, já ouso chamar de lar.

Seus cavalos e carroças em ruas apertadas e casas altas de pedra. Sua fumaça, seus aromas de especiarias estranhas para o meu povo. Seus homens e mulheres que vendem os corpos na Feira do Prazer. Seus soldados de olhos vazios vestindo armaduras de ferro enferrujadas pela maresia implacável dessa floresta ancestral. Os gritos de dor de seus escravos da tribo Mobanto. E os sussurros maliciosos de seus nobres. Um grande caldeirão de maldades e mentiras a qual seu povo parece estar tão acostumado. Existe algo de maligno em vocês. Algo sombrio e encoberto que está preso nas entranhas de nossos “ invasores “ do Reino Leão.

Mas não é por isso que lhe escrevo essa carta, Vice Rei. Venho por meio desta lhe informar sobre o grande engano que vocês estão cometendo. Porque aqui, na Selva Canibal, existe algo muito mais antigo e pior.

Nunca conheci as resplandescentes aldeias Iuna dos Bosques da Chuva. Dizem que foram todas dizimadas ainda antes de eu nascer. Passei a minha infância no Cortiço dos Ratos de Bruma Grande. Como outros do meu povo. Mas como a água da chuva pode encontrar o caminho mesmo pelo telhado mais perfeito de seus palacetes de pedra, nossos antigos costumes continuaram vivos. Bem como nossa arte ancestral com a espada. A Amana. nossa grande ferramenta marcial que permitia a meu povo seguir suas trilhas pelas profundezas da Selva Canibal.

Assim que fiquei adulta, logo aprendi a agir como as pessoas da Portuária e vender minhas habilidades marciais por suas moedas sujas e fedorentas feitas de cobre. Além de me manter alimentada, o que é cada vez mais raro entre as pessoas da minha tribo, isso também me deu uma certa importância na cidade.

Assim que comecei a trabalhar como Guia de Caravanas para os vilarejos da região da Primeira Capitania. E como um aviso, que resolvi lhe escrever essas linhas.

Tudo começou, quando eu e meu ajudante, um pequeno mobanto chamado Bandile, de um braço só, o qual eu mesma comprei a Alforria, fomos chamados a Mansão Zote, no Quarteirão Esmeralda em Bruma Grande.

Entramos na propriedade dos Zote escoltados por mais de dez guardas enfiados em armaduras pesadas e carregando grandes e velhos mosquetes, nos quais tinha sérias dúvidas se seriam capazes de deter nossas espadas Amana a tempo suficiente. É bem provável que não. Eu e Bendile estávamos treinando muito naqueles dias. E com certeza se eles errassem seus tiros, não lhe daríamos tempo suficiente para recarregar enquanto ainda tivessem as gargantas.

Cruzamos um amplo jardin cheio de sambaias e fontes de água artificiais. Estátuas de antigos heróis da Casa Zote estavam espalhadas pelo gramado verde, e devido a humidade da Selva Canibal já estavam tomadas pelo limo. Em uma grande varanda em frente a mansão que ficava além do jardim encontramos o velho Honário Zote. Um homem já corcunda pela idade, de cabelos e pele brancos como a espuma do mar. Rugas profundas e olhos acinzentados que um dia devem ter sido azuis. Enrrolado em um cobertor e se embalando levemente em uma cadeira de balanço enferrujada se apoiando em uma bengala desgastada e enegrecida.

Assim que nos viu, o velho senhor dos Zote mandou os guardas saírem. Um homem corajoso para seu povo. Bandile não gostava de nobres de qualquer tipo e percebi quando ele colocou sua única mão sobre o punho de sua espada amana. Um olhar meu foi suficiente para o afoito Bendile engolir seco e aguardar os desdobramentos da situação.

- Você é a espadachim nativa eu presumo?!

Disse o velho Zote cuspindo uma golfada de sangue, saliva e pus em uma bacia de alumínio próxima a cadeira.

Eu respondi sem muita cerimônia:

- Qual é o serviço?

Ele me encarou com os olhos maliciosos de seu povo e respondeu:

- Preciso levar uma carga preciosa até Santa Lola. E preciso que uma mercadoria venha de lá até aqui depois. Sabe o caminho?

Santa Lola. Um dos primeiros vilarejos do Reino Leão na Selva Canibal. A cidade onde uma prostituta havia sido canonizada. E agora era a Santa das Cortesãs. Mulheres e homens que vendiam seus corpos para o prazer dos nobres, agora haviam tornado o local uma fortaleza. Defendida com aço e pólvora. E haviam cortado relações com Bruma Grande. De uma vez por todas. Por isso achei melhor perguntar:

- Ouvi dizer que eles são independentes agora. E não fazem mais negócios com seu povo.

O velho sorriu exibindo quatro dentes de ouro e respondeu:

- Ouvi dizer que você é a nativa que consegue entrar em qualquer lugar.

Nunca fui conhecida por negar um desafio. Então resolvi ver onde aquela história ia terminar:

- Mas isso vai deixar as coisas mais caras.

O velho ergueu uma sombrancelha. Não era comum entre os membros do meu povo ser tão avarento nos negócios. Mas como disse antes, receio que tenha convivido demais com os forasteiros do Reino Leão, e tenha adquirido muito de seus hábitos detestáveis.

- Faça o seu preço!

Cinco mil peças de cobre, seria o suficiente. Já havia vivido em perigo por muito tempo. E isso pagaria a passagem minha e de Bandile para bem longe dali. Talvez até mesmo iríamos para o Reino Leão.

Mas hoje, posso ver que foi um péssimo negócio.

PARTE 2

PERDIDOS NA SELVA

Carta de Naya da Tribo Iuna ao Vice Rei da Portuária

Não que eu queira admitir que goste de falar mal de seu povo. Mas uma verdade deve ser dita. Alôncio e Viriato não me pareceram muito apropriados para o serviço. Com aqueles mosquetes desajeitados e armaduras caindo aos pedaços. Os dois ostentando aqueles bigodes grandes e esquisitos e se gabando de estarem indo para uma espécie de “ paraíso terreno “. Logo se pode perceber que nunca haviam estado em Santa Lola antes.

Haviam outros vinte membros de seu povo em nossa comitiva. E quando os grandes portões se abriram, logo pude notar que muitos deles não chegariam ao destino. Nossa carga estava sendo conduzida em uma carroça puxada por quatro grandes búfalos. A chuva havia parado o que poderia parecer um bom sinal. Mas a quantidade de armas que os soldados da Casa Zote estavam carregando revelava que carregávamos uma mercadoria mais preciosa do que o nosso velho contratante poderia admitir.

Lidando com as pessoas do Reino Leão por um certo tempo, se aprende que perguntas são inúteis de qualquer forma. Vocês raramente dizem a verdade. E quando o fazem, geralmente é para que alguém se ofenda com o que foi dito. Isso faz de vocês bons negociantes, mas uma grande e gorda horda de patifes.

Em cima da carroça, foram o frei Cândido de vossa Imaculada Igreja Hierofante, e ao seu lado o jovem noviço Jordão. Em seus hábitos e peles extremamente brancos que nada combinavam com o verde penetrante da floresta. Bandile assim que os viu, me perguntou que tipo de deus teria sacerdotes tão fracos que não seriam capazes de andar a pé. Minha resposta foi apenas um sorriso. Existem muitos deuses na Selva Canibal, mas com certeza a Vossa Igreja Hierofante tem o mais fraco deles. Ou então seu projeto de “ colonização “ estaria indo melhor.

Mas de qualquer forma entramos na floresta.

O primeiro dia nublado de jornada, até que transcorreu tranquilo. Apesar de que seu povo, Vice Rei, é muito barulhento para esse lugar. Comentários inúteis, gargalhadas e brincadeiras estúpidas a respeito de mim e Bandile se tornaram comuns durante o caminho. Todas tendo origem na mente pequena e preconceituosa de Viriato. O único que não parecia compartilhar dessa diversão duvidosa era Alôncio. Ele mostrava um respeito incomum pelos outros povos para alguém de sua tribo. E com o tempo acabei me acostumando com o bigode dele, devo confessar. Mesmo assim, tinhamos um trabalho a fazer.

Na noite do primeiro dia, Bandile percebeu algo estranho. E eu notei que estávamos sendo observados. A tribo Araraúna, com certeza. Furiosos por terem suas terras invadidas eles querem vingança contra Bruma Grande. E por isso tem patrulhado as terras em torno da cidade em uma complexa estratégia de cerco. Que inclusive envolvia araras e saguís espiões.

Mesmo assim, eles não atacaram nossa comitiva. Bandos de caça Araraúna podem ter até cinquenta membros. Se eles o tivessem feito, com certeza seria uma luta perigosa. Eles são especialistas na esgrima Araraúna. Uma arte que mistura o uso de duas espadas, uma em cada mão, com perigosas técnicas de furtividade.

Mas os Araraúna não nos atacaram aquela noite. Como se soubessem o que estava por vir.

Na manhã seguinte seguimos a trilha. Até onde ela teve seu fim. Alguma coisa havia mudado na floresta.

- Sua nativa imbecil. Você se perdeu da trilha. Agora vamos demorar ainda mais tempo para encontrar Santa Lola. Vociferou Viriato, inconformado por se sentir perdido na imensidão verde.

Ergui uma sombrancelha e olhei para ele com uma cara de poucos amigos e a mão em minha espada dizendo:

- Calem a boca! Estamos com problemas.

Antes que pudesse terminar de falar, cinco membros de nossa expedição foram erguidos as alturas por cipós vivos. Toda a relva em nossos pés se revelou a camuflagem de uma imensa planta carnívora que ergueu diante de nós duas cabeças infestadas de dentes afiados gotejando veneno.

Uma gigantesca Tafaia Comedora de Gente. Logo uma das cabeças devorou as pernas de um dos expedicionários aprisionados em seus cipós, partindo o corpo dele pela metade e nos “ regando “ com uma verdadeira chuva de sangue.

A outra cabeça avançou na direção dos soldados do Reino Leão, que ainda se demoravam carregando seus mosquetes. Eu e Bandile sacamos as espadas e saltamos sobre o caule da criatura correndo até suas grandes cabeças vegetais. Mas a Tafaia tinha um exército de cipós a sua plena disposição. Logo os usou para enrredar três dos soldados que nos acompanhavam quebrando suas colunas vertebrais como gravetos. Enquanto a outra cabeça mastigava preguiçosamente os pedaços do corpo de outro “ invasor “.

Finalmente saltei sobre uma das cabeças da Tafaia e perfurei seu centro nervoso com apenas uma estocada fatal. A fazendo despencar sem vida. Mas Bandile estava com problenas. Atacado por uma dúzia de cipós cobertos de espinhos, o jovem Mobanto se esquivava de todos tentando alcançar a outra cabeça da Tafaia Gigante. Mas um dos cipós agarrou seu calcanhar o erguendo até onde estavam os outros. Logo, as barulhentas armas do Reino Leão começaram a atirar. Sem nenhum sucesso. Destruir pedaços da Tafaia não iria matá-la. E os movimentos da planta gigante era mais rápidos que os mosquetes. Prestes a ser devorado, Bandile invoca o poder de seu Ikal. O antigo dom dos Mobanto para situações perigosas. Seus olhos brilham com uma sinistra luminosidade branca e uma aura trovejante o cerca, fazendo com que os cipós o libertem. Então ele salta no chão em frente a ultima cabeça da Tafaia e a encara com coragem. Quando ela retorna para devorá-lo ele salta na boca da criatura. Um trovão se escuta na floresta e a cabeça da planta carnívora explode em centenas de pedaços nos dando um banho de suco verde.

O monstro estava morto. Nossa carga salva.

Mas agora éramos apenas treze.

PARTE 3

O VALE DOS MAPINGUARIS

Carta de Naya da Tribo Iuna ao Vice Rei da Portuária

A Tafaia Gigante havia apagado nossa trilha. E o humor duvidoso de seu povo agora era desespero. A viagem se tornou mais lenta. Alôncio tinha um mapa, e decidimos que o caminho mais perto para Santa Lola, era cruzar um vale singrado por um riacho escuro e profundo que era um afluente não navegável do Rio Sucuri.

Minha tribo, os Iuna, sempre evitaram aquele lugar. E nossos sábios, costumavam dizer que aquele vale tinha dono. Uma antiga tribo de demônios que estava presa naquele local desolado. Além disso tinha lá minhas dúvidas se nossos búfalos iam conseguir passar nos naquele terreno acidentado com a carroça. Por isso decidi:

- Vamos deixar as carroças. Elas serão inúteis agora. Carreguem a carga em mochilas. E vamo seguir adiante.

Os protestos foram muitos. Principalmente por parte do Frei Cândido:

- Sua nativa insolente. Como homens de Vossa Igreja Hierofante podem caminhar a pé nesse solo imundo e venenoso? Vamos todos morrer aqui.

Não me contive e respondi com uma dose generosa de sarcasmo:

- Perdendo sua fé, sacerdote?

Bandile sorriu. E Alôncio também. Viriato não sorria mais. Havia sido envenenado por um dos cipós na luta contra a Tafaia Gigante. E agora estava suando cântaros. E com certeza estava com febre. Mas como não gostava dele. Confesso que ignorei.

Quando os homens descarregaram a carroça pude ver do que se tratava nossa “ preciosa carga “. Armas. Mosquetes, pistolas e bacamartes. Bem como vários barris de pólvora. O que diabos o velho Zote estava tramando. E o que a Igreja Hierofante tinha haver com isso. A coisa estava cheirando cada vez pior.

Carregando tudo em mochilas improvisadas. Descemos a ribanceira selva a dentro até o vale dos demônios de minha tribo.

Dos treze restantes de nossa comitiva, cerca de sete estavam feridos e mancando. Eu, Bandile e Alôncio íamos na frente. E Viriato na retaguarda suando ainda mais. Alôncio sempre muito educado me perguntou:

- Senhorita, receio que tenhamos que prestar socorro a nosso colega aventureiro Viriato. Ele não parece nada bem. Talvez devêssemos parar um descanso quando chegarmos ao riacho.

Solidariedade é coisa rara em seu povo, Vice Rei. Por isso apesar de não gostar de Viriato, em respeito ao “ respeitoso “ Alôncio, resolvemos acampar. Bandile não gostou nada disso.

A ligação com seu Ikal o avisava quando as coisas iam ficar perigosas. Mas quanto mais gente tivéssemos, mais chances teríamos de chegar em Santa Lola. Paramos em uma cachoeira de águas escuras para acampar sobre as pedras. E eu fui falar com o Frei Cândido:

- Que armas são essas?

Frei Cândido desconfortável com minha pergunta enquanto enchia seu cantil no rio respondeu:

- Não devo satisfações a você, sua concunbina do demônio imunda.

Eu não gostei da resposta. Lembro que franzi minha testa e chutei com minhas botas a boca do sacerdote o fazendo “ capotar “ para dentro do riacho. Depois entrei na água ergui sua cabeça gorda pelos cabelos e esfreguei com força minha espada em sua garganta fazendo outra pergunta:

- O que está acontecendo em Santa Lola?

Então o Frei Cândido se tornou mais sociável:

- Monstros. Por toda parte. Uma carta foi enviada ao velho Zote. Eles precisam de armas para recuperar a cidade. Em troca, Santa Lola vai enviar sua sobrinha, Isaura Zote, de volta.

Satisfeita, arrastei o corpo pesado do frei até a margem, e bati sua cara contra as pedras tão forte que pude vê-lo catando alguns dentes enquanto me afastava.

Foi quando ouvi um grito.

Criaturas peludas e gigantescas saltaram no meio do acampamento. Uma delas partiu um dos soldados do Reino Leão em dois com armadura e tudo em meio a uma explosão de sangue. O monstro enfiou sua mão peluda e cheia de garras dentro da caixa toráxica do homem e começou a puxar suas tripas para fora, alimentando com elas sua grande bocarra que ia de seu fucinho até a parte baixa de seu quadril musculoso.

Outro dos monstros enfrentava Bandile. Que mostrou estar muito bem versado na esgrima Amana evitando as garras da besta com sua espada e estocando sua mandíbula quando via oportunidade. Alôncio defendia Viriato indefeso e agonizante de outro monstro. Os cinco soldados restantes do Reino Leão correram para pegar seus mosquetes. Mas encontraram um quarto monstro entortando suas armas com os dentes e cuspindo golfadas de pólvora no chão.

O jovem noviço Jordão correu em direção ao Frei Cândido, que ainda procurava alguns dentes na beira do riacho, mas acabou sendo atacado no caminho por outro monstro. Que o agarrou e o enfiou na boca deixando cair apenas os seus calcanhares. Ajoelhado em sem alguns dentes, com a boca pintada de sangue, o Frei Cândido gritou de pavor.

Saquei minha espada e fui a luta. Os monstros eram fortes e rápidos, mas pela boca muito grande tinham um ponto fraco que era um alvo fácil. Ataquei primeiro o que havia devorado o noviço Jordão e ainda mastigava as pantorrilhas do menino sacerdote. Ele não esperava o ataque, e estoquei minha espada no céu da boca “ ocupada “ da criatura atingindo seu cérebro. Ele caiu no chão sem vida imediatamente.

Alôncio usava duas pistolas contra um dos monstros. E vi que ele conseguiu alvejar um deles acertando em cheio no meio de seus olhos e pintando seu grande bigode com o sangue do monstro.

Bandile ainda estava com dificuldades. Mas logo percebeu a fraqueza daqueles monstros, e destruiu outro deles estocando no céu da boca da criatura sua espada amana.

Ainda faltavam dois, que estavam se banqueteando com nossos soldados. Eu, Bandile e Alôncio corremos até lá. Mais apenas três soldados ainda estavam vivos, enquanto as bestas se regogizavam sobre uma grande piscina de sangue.

Ataquei um deles enquanto Bandile e Alôncio foram em direção ao outro. Esse não estava desprevinido e usou suas garras para me abrir um rasgão profundo em meu abdômem. Mesmo assim, com minha armadura de couro colorida de sangue, consegui atravessar minha lâmina em um dos olhos do monstro até seu cérebro.

Os três soldados sobreviventes finalmente alcançaram seus mosquetes e começaram a atirar no outro monstro. Mas sua pele dura, ignorava os projéteis do Reino Leão. Apenas os olhos e a boca eram vulneráveis. A besta derrubou Alôncio em um salto rápido e abria sua grande bocarra para devorá-lo quando Bandile saltou sobre o monstro e estocou sua espada amana em sua bocarra fedorenta o fazendo cair sem vida no chão.

As bestas estavam mortas.

E agora haviam sobrado apenas eu, Bandile, Alôncio, o Padre Cândido e mais três soldados.

Éramos apenas sete.

Viriato havia desaparecido.

PARTE 4

A CAVERNA DAS CORTESÃS

Carta de Naya da Tribo Iuna ao Vice Rei da Portuária

No dia seguinte, nós sete conseguimos cruzar aquele vale maligno.

Eu e Bandile percebemos que durante todo caminho estávamos sendo observados por pelo menos uma dúzia de criaturas. Possivelmente iguais ou piores do que aquelas que haviam nos atacado uma noite antes.

O Frei Cândido estava imerso em suas orações inúteis. E tenho certeza que entre tantos pedidos ao deus estúpido da Igreja Hierofante, havia um sobre minha morte. Alôncio estava quieto, e confuso a respeito do desaparecimento de Viriato. Os três soldados suavam, choravam e se lamentavam. E agora carregavam uma carga de armas e pólvora bem maior. Uma vez que éramos poucos.

Assim que deixamos o vale, voltamos a trilha que levava a Santa Lola. E logo ouvimos cavalos vindo em nossa direção. Mulheres armadas até os dentes. Lideradas por uma que me era familiar. Ariana, Fogo na Selva. Ela parou seu cavalo segurando seu mosquete, enquanto suas outras cinco companheiras preparavam suas pistolas e bacamartes e disse:

-Naya? Então o velho mandou você. Que bom. Pelo visto não teriam conseguido sem você.

-Olá, Ariana. Pegamos um atalho. Mas a carga chegou. Pelo menos parte dela. Onde está a garota Zote.

Ariana olhou para o Frei Cândido com as vestes brancas ensanguentadas e olhou para a floresta na direção do vale e depois se virou para mim dizendo:

-Tem um problema. Não estamos com ela. Se querem levá-la vão ter que nos ajudar a recuperar a cidade.

Sempre me dei bem com Ariana. A achava uma mulher forte e corajosa. Que lutou pela independência de Santa Lola. E tirou seu povo, da condição de escravos. Mas aquela luta não era minha. Então fui obrigada a perguntar:

-Isso não estava no combinado. Trouxemos as armas. Devemos levar a garota.

Ariana começou a ficar impaciente. E percebi que suas garotas armadas sussurraram algo entre elas. Então Ariana fez um sinal para elas ficarem em silêncio e falou:

-Ela está em Santa Lola. Mas em cativeiro. A cidade foi invadida por Caiporas. Se a querem. Devem nos ajudar a recuperar a cidade. Além disso, vocês trouxeram apenas uma parte da carga. E não estão em condições de voltar para Bruma Grande agora. Mesmo se voltarem, duvido que o velho Zote vai lhes pagar se não entregarem a sobrinha dele.

Os argumentos de Ariana eram fortes. Então resolvi aceitar. Fui até ela e nós duas cuspimos na palma de nossas luvas de couro para depois apertarmos a mãos.

-Fechado! Falei.

Bandile me olhou com um olhar atravessado enquanto Alôncio apenas engoliu seco. O Frei Cândido e os soldados já estavam em um momento de negação. E não comentaram nada sobre nossa decisão.

Assim, nos juntamos a Ariana e suas guerreiras e fomos na direção de Santa Lola.

No caminho para a cidade, nos encontramos a outro grupo de cortesãs armadas em uma caverna onde faríamos nossos planos e passaríamos a noite. Entre os membros da força guerrilheira estava uma curupira, que vivia em Santa Lola já fazia um tempo. Seu nome Uniri. Ela tinha os cabelos longos e ruivos enfeitados com penas, os olhos pintados profundamente de negro e usava uma armadura de couro com uma aljava nas costas. Quando escureceu na Selva Canibal, nos juntamos em torno da fogueira para pensar como faríamos para recuperar Santa Lola dos Caiporas. E a ajuda de Uniri seria decisiva. Os Curupira eram inimigos ancestrais dos Caipora. E antes da invasão do Reino Leão, quando as tribos da selva ainda eram jovens, esses dois povos haviam travado um longo e sangrento conflito. Conhecido como a Guerra do Fogo.

Ariana, por mais segura de si que fosse, também tinha dúvidas sobre como proceder nesse caso. Então resolveu nos deixar a par dos fatos:

- Foi mais ou menos a umas duas semanas. Estávamos comemorando o aniversário de Egumberto. O rapaz que atende lá na taverna. Ele é filho de uma das primeiras moradoras de Santa Lola. Então o assoalho de madeira da taverna estilhaçou-se e um enxame de caiporas, com a pele cinzenta, olhos vermelhos e cabelos espetados como ouriços invadiram o lugar. Tentamos reagir, mas eles eram muitos. E logo começaram a devorar pernas e braços, enfraquecendo muito a moral de nossas garotas. Escapamos da taverna e nos esgueiramos pelos becos de Santa Lola. Mas eles começaram a vir em cada vez mais número. E logo havia um formigueiro deles transitando nas ruelas da vila. Pegamos os cavalos e fugimos para essa caverna. Que por bondade do destino, Uriri conhecia. Então enviamos uma arara mensageira até Bruma Grande. Pedindo armas ao velho Zote. Mas devo ser sincera. Não tenho como saber se sua sobrinha está viva.

Uniri interrompeu Ariana olhando ameaçadoramente para fogueira e dizendo:

-Ela vai estar. Pelo menos até a Lua Cheia. Daqui a duas noites. Quando os invasores do Reino Leão construíram Santa Lola, eles a fizeram no lugar errado. Muitos curupira morreram tentando avisar os colonizadores. Mas nunca foram escutados. Quando os caipora foram banidos para as profundezas da terra após a guerra contra meu povo, eles encontraram alguma coisa estranha lá embaixo. Um Espírito Perdido que jamais havia sido encontrado. Mais antigo que a própria Selva Canibal. Não sabemos o seu nome. Mas nossos bruxos e xamãs já sentiram seu poder. Ele atormenta o sonho dos sábios curupira a muitas estações.

Ariana toma um gole de rum velho de uma garrafa empoeirada passando para mim e pergunta:

-Mas o que diabos Santa Lola tem haver com isso?

Uniri joga um punhado de folhas na fogueira com suas mãos tatuadas e garras negras levantando uma nuvem de brasas até o teto da caverna. Enquanto as brasas caem novamente sobre a fogueira ela responde:

-O Espírito Sombrio que encontrou os Caiporas embaixo da terra, exige sacrifícios. Que devem ser feitos em seus templos. A vila de Santa Lola está construída acima de um desses templos. E durante a lua cheia, um grande sacrifício deve ocorrer. E dessa vez não será necessário que eles matem caiporas. Nossas irmãs e irmãos de Santa Lola serão mais do que suficientes.

Numa tentativa estúpida de “ quebrar o gelo “ Alôncio perguntou:

-Perdoe-me, senhorita! Vocês não deviam ter os pés virados para trás?

Uniri franze a testa e pega Alôncio pelos cabelos enfiando sua cara perto do fogo até que um lado de seu bigode começasse a “ fritar “ dizendo:

-Você não devia ter um só um lado da cara?

Ariana já estava bêbada a essa altura. Se jogou para trás e começou a rir. Bandile afiava sua espada e não conseguiu conter a risada. Também achei graça no começo, mas talvez Alôncio fosse ser útil na luta em Santa Lola. Então falei:

-Uniri! Deixe o bárbaro. Ele acredita em tudo que escuta.

Depois que metade do bigode de Alôncio havia virado cinzas ela o soltou no chão choramingando. Levantou-se e foi na direção na selva ver como estavam os cavalos. Mas notei que se não tivesse dito nada, a curupira teria deixado a cara de Alôncio derreter. Assim que ele se recompôs expliquei que os curupiras não tem os pés virados para trás. Apenas um deles tinha. Os outros ficam terrivelmente ofendidos quando tem que escutar isso. Bebemos mais um pouco. E adormecemos.

PARTE 5

O BACANAL DOS CAIPORAS

Carta de Naya da Tribo Iuna ao Vice Rei da Portuária

Na manhã seguinte acordamos atormentados por uma dor de cabeça arrebatadora. E ainda precisávamos de um plano para invadir Santa Lola. Uniri havia nos dito que Caiporas não gostavam de fogo. E que fora assim que os Curupiras venceram a guerra. Tinhamos Alôncio liderando os três mercenários Zote e a gangue de prostitutas armadas de Santa Lola. Eu, Bandile e Ariana iríamos a cavalo tentar encontrar a sobrinha do velho do Zote. Uniri iria furtivamente sozinha para começar um incêndio. O Frei Cândido ficaria na caverna. Rezando para sermos esquartejados pelos Caiporas com toda certeza.

Tudo teria que acontecer durante o dia. Quando os Caiporas não enxergavam muito bem. A noite, eles teriam uma vantagem muito grande.

E assim fomos nós. Uniri pegou um dos cavalos e carregou sua aljava com flechas untadas com veneno de cascavel e galopou na direção de Santa Lola. Alôncio e seus atiradores e atiradoras desceram a pé em seguida para se posicionar. Eu, Ariana e Bandile fomos por último também a cavalo.

Tivemos sorte naquela manhã, e nada apareceu em nosso caminho na floresta. Mais ou menos umas duas horas depois, eu, Ariana e Bandile cavalgavamos na entrada de Santa Lola. Uma estranha névoa encobria o vilarejo. E essa névoa não era natural. Parecia ter vindo de outro mundo. A terra estava escura e até mesmo os vermes e as minhocas tentavam escapar. Assim que entramos na vila, os cavalos ficaram incontroláveis. E tivemos que abandoná-los e seguir a pé.

Não havia sinal de Caiporas pelas ruas. E Alôncio e seu grupo ainda não haviam chegado. Por um momento pensei que poderiam ter tido problemas na Selva. Mas problemas, todos nós temos. Também não havia sinal de Uniri e seu incêndio ainda não havia começado. Andamos pelas vielas desertas com casas de janelas e portas despedaçadas e borrões de sangue até a praça central. Onde antes ficava a Taverna Cortina Vermelha. Onde havia, segundo Ariana, começado a invasão.

A taverna estava lá. Praticamente em ruínas mas parte do teto ainda estava de pé. Eu e Bandile sacamos as espadas e Ariana suas duas pistolas. Entramos no lugar, e uma arrevoada de moscas varejeiras levantou-se diante de nós. As mesas, o balcão e o assoalho estavam pintados com sangue. E um grande buraco sombrio jazia bem no centro do estabelecimento. Conduzindo direto para as profundezas da terra.

Percebi que Ariana ficou perturbada com aquela visão. Mas estava naquela situação e ela também. Então preferi não comentar nada sobre o assunto. Bandile estava perturbado também. Mas se há uma coisa que se pode dizer sobre os Mobanto, é que eles tem o coração mais corajoso que alguém pode encontrar.

Assim que andamos na direção do buraco ouvi coisas se mexendo nas paredes e no teto da taverna. E logo as coisas apareceram. Seis Caiporas. Com olhos vermelhos brilhantes, pele cinzenta e cabelos ouriçados como os de um porco espinho. Sairam das sombras da taverna em ruínas com estranhos arcos feitos de ossos e logo um enxame de flechas voou sobre nós. Eu e Bandile rebatemos uma dúzia delas com nossas espadas, mas uma acertou minha perna e outras duas a coxa e o ombro de Ariana que caiu de joelhos vertendo uma cascata de sangue sobre sua armadura de couro. Ariana atirou duas vezes, e estourou o crânio fedorento de dois caiporas. Uma com cada tiro, e seus corpos magros e deformados caíram no assoalho da taverna sem vida. Não sabia até então que ela estava usando aquelas coisas tão bem. Bandile correu sobre uma mesa, pendurou-se no velho lustre de bronze que ainda estava preso no teto e golpeou dois Caiporas que atiravam da escada certeiramente na garganta. Os degolando com precisão. Fiquei orgulhosa de meu aprendiz. Eu então chutei uma cadeira na cara de um dos monstros o deixando atordoado enquanto deslizei até o outro atravessando sua cabeça asquerosa com minha espada amana. O que deu tempo para Ariana recarregar e espalhar os miolos do último Caipora na parede ensanguentada com um tiro mortal.

Sentimos cheiro de fumaça. E começamos a ouvir tiros nas casas de Santa Lola. Alôncio havia chegado. E Uniri começou a desempenhar seu papel.

Quanto a eu, Ariana e Bandile. Tinhamos que entrar naquele maldito buraco.

Improvisei uma tocha para enxergarmos no escuro e lá fomos nós.

Ariana estava ferida e mancando. Como Caiporas não usavam escadas, descer por aquele túnel apertado nã o fora nada fácil. E logo ouvimos os passos apressados de dezenas deles vindo em nossa direção. Achei que ali seria nosso fim. Mas Bandile não. Se colocou a nossa frente e se concentrou invocando o poder de seu Ikal. Seus olhos brilharam com uma luz azul e trovejante, e assim que as “ cabecinhas “ da procissão de Caiporas começaram a aparecer na curva do túnel, ele os fulminou com uma pesada corrente de relâmpagos. Gosto de pensar que salvei a vida de Bandile uma vez para que ele salvasse a minha para sempre. Eu acho que foi isso mesmo.

Seguimos pelo túnel pisando sobre os corpos carbonizados dos Caiporas mortos por Bandile. Com o seu Ikal ativo, o jovem mobanto de um braço só reconduziu seu poder trovejante para a lâmina de sua espada amana. E agora sua arma eletrificada dava grandes descargas estáticas que ecoavam pelo túnel.

Lá embaixo deixamos de ouvir o que acontecia na superfície da cidade. Então vou relatar apenas o que Alôncio me contou depois.

“ Olha, senhorita Naya, quando chegamos não encontramos ninguém. Os cavalos de vocês haviam passado por nós na estrada então achamos que vocês podiam ter morrido. A coisa começou a ficar preta depois que a fumaça do fogo feito pela curupira começou a subir. Tudo quanto era Caipora resolveu desentocar na mesma hora. Nos entricheiramos nos estábulos e começamos a atirar. Mas eles não queriam saber não. Avançaram sobre nós e começaram a comer os braços das moças de dona Ariana para que elas parassem de atirar. Os três soldados de Bruma Grande foram mortos enquanto tentavam recarregar. Um dos Caiporas era bem maior que os outros e comeu a cabeça de um deles inteira. Uma pororoca de sangue brotou do pescoço do infeliz. E daí esse que era maior veio na minha direção. Mas uma garrafa pegando fogo bateu nas costas dele. E ele se virou. O que deu tempo de recarregar e descarregar o mosquete na nuca daquele diabo. A Curupira amiga de vocês apareceu do nada usando um monte de flecha pegando fogo e acabou o serviço. Mas a gente tava em menor número. Na verdade, senhorita Naya, naquela hora nós era só nós dois. Eu e a Curupira que queimou metade do meu bigode. Ela me deu aquela mão esquisita com as unha tudo preta e me ajudou a subir nos telhados. Os telhados ficavam acima da névoa que cobria a cidade, e os Caipora tinham medo do sol. Assim a gente ficou pulando de casa em casa e atirando nos que dava pra atirar. Eu com o mosquete e a Curupira com as flechas de fogo. Foi bonito de ver Senhorita Naya. Queria que Viriato tivesse visto isso. “

Eu também queria ter visto isso, com certeza. Os Curupiras são grandes guerreiros. E Uniri devia estar se sentindo como uma grande heroína da Guerra do Fogo naquela hora. Apesar de Alôncio. Mas acho que ele até se saiu bem.

Enquanto isso nós três chegamos a uma grande galeria cavernosa. Onde grandes gaiolas de madeira estavam suspensas no teto. Ali haviam seis moças de Santa Lola presas e um rapaz. E Egumberto, o aniversariante. Um lago de águas negras e profundas estava abaixo das gaiolas. E grande pedras rodeavam o lago. Com certeza, assim que chegassemos a essas pedras, uma multidão de Caiporas iria brotar das sombras para nos destroçar em pedaços. Então precisávamos de um outro plano.

Perguntei a Ariana:

-Qual delas é a sobrinha do velho Zote.

Ela apenas respondeu:

-Nenhuma. Já deve ter sido comida.

Más notícias. Minha passagem para o Reino Leão iria ter que esperar. Mas já que estávamos ali e tínhamos pelo menos que salvar aqueles pobres coitados. E sendo uma Iuna e vendo toda aquela água preta debaixo da terra, tinha certeza que aquele ritual não daria em boa coisa.

Bandile me olhou com seus olhos trovejantes e eu assenti com a cabeça para ele descer. Ariana carregou as pistolas atrás de uma pedra e se preparou para começar a atirar. Eu saltei em uma das paredes da caverna e comecei a escalar até as gaiolas.

Enquanto isso, lá em cima no vilarejo, relato aqui o que Uniri me contou depois:

“ Eu e seu amigo do Reino Leão estávamos encurralados. Saltamos pelos telhados da vila enquanto deu, mas logo estávamos nós dois sem flechas ou seja lá o que for que os “ invasores “ usam em seus paus de fogo, cercados por um exército de Caiporas infurecidos. Os demônios então começaram a roer as vigas da casa onde havíamos nos refugiado e ela começou a ruir. Eu e o homem branco de meio bigode saltamos sobre um alpendre e depois corremos desesperados atravessando a praça e entramos na Taverna Cortina Vermelha, desarmados e perseguidos por uma multidão de Caiporas famintos. Chegando lá dentro e não tendo o que fazer. Entramos no buraco. “

Bandile chegou lá embaixo nas pedras e se pôs em guarda com sua espada trovão. Mas nenhum Caipora apareceu. Enquanto isso, pendurada como um macaco aranha, eu já havia aberto a terceira gaiola. A próxima seria a de Egumberto. Foi quando ouvi Ariana gritar:

-Cuidado, Bandile!

Um caipora magricelo e corcunda vestindo um manto comprido feito com pele humana apodrecida emergiu das águas escuras sorrindo com presas afiadas na direção de Bandile. Ele tinha sobre a cabeça uma grande coroa de crânios humanos. E falou no idioma da selva com uma voz rouca e profunda:

-Quem ousa atrapalhar o repouso de Sugu Maoré! O grande Rei Caipora.

Bandile saltou com sua espada trovejante sobre ele, mas o Rei Caipora se desfez em uma nuvem de corvos para reaparecer atrás dele e o atravessar com suas garras derrubando Bandile sobre as pedras e fazendo sua espada quicar muitos metros longe dele sobre as pedras. Ariana abriu fogo contra a criatura. E o Rei Caipora percebeu sua presença. Com a minha tocha na boca libertei Egumberto e disse a ele que me olhou assutado:

-Solte as outras!

Percebi que ele não sabia como fazer isso. Mas não liguei. Bandile estava desacordado. E o Rei Caipora começou a ruminar coisas estranhas em um idioma desconhecido olhando fixamente para as águas negras.

Saltei onde Bandile estava e percebi que ele ainda respirava, embora estivesse sangrando muito.

Nessa hora Uniri e Alôncio chegaram as pedras onde Ariana estava e ouvi a curupira falar:

-Vamos ter compania!

Ariana deu uma das pistolas para Alôncio e eles começaram a descer.

Em uma cambalhota no ar saltei sobre Sugu Maoré e fiquei e caí com ele nas águas escuras em uma luta brutal. A criatura me atacava com suas garras e voltava se transformar numa nuvem de corvos antes que eu pudesse atingi-lo com minha espada. Sempre aparecendo em minhas costas o que estava me dando um trabalho do cão.

Lá em cima Ariana e Alôncio atiravam na horda de Caiporas que se aproximava pelos túneis. Percebi Egumberto se balançando em sua gaiola para tentar alcançar uma outra, mas ignorei. E achei que aquilo não ia dar certo. Uniri havia derramado rum e óleo na boca do túnel e agora usava suas pedras de pederneira para incendiar a passagem e evitar que mais caiporas chegassem a galeria.

Enquanto lutava com o Rei Caipora pude notar Bandile se arrastando até sua espada. Mas preferi não chamar a atenção do monstro sobre isso. Depois de tantos ataques falhos, comecei a prever o movimento da nuvem de corvos de Sugu Maoré. E consegui atravessar o crânio do demônio assim que ele se materializou em minhas costas. A criatura afundou nas águas escuras sem vida. E eu cai de joelhos e ferida nas margens daquele lago putrefato. Mas uma vencedora. Pelo menos foi o que pensei naquele momento.

Lá em cima Uniri havia posto fogo no túnel, e o guinchado ensurdecedor de mil caiporas se espalhou pela caverna. A munição de Ariana e Alôncio terminou. E Egumberto conseguiu libertar outra prisioneira. Achamos que tudo estava indo bem a final de contas. Mas não podíamos estar mais enganados.

Percebi a água negra do lago começar a esquentar. Depois a borbulhar. E depois a ferver. Saltei para fora dali sobre as pedras justamente no momento em que uma grande besta em forma de verme, com a cabeça de um dragão e uma coroa de chifres emergiu das profundezas e devorou Egumberto e a gaiola que ele estava tentando abrir. A besta era negra como a mais escura das noites e mastigou a gaiola e o pobre Egumberto preguiçosamente antes de olhar para nós e dizer com uma voz que parecia mil trovões:

-É tarde mortais. A minha semente já foi plantada. E logo estarei libertado. A Selva será minha denovo. E todos vocês meus escravos.

Então percebi as palavras nos lábios escuros de Uniri:

-Juru Mawe!

Ariana arremessou uma saraivada de adagas na boca da criatura o fazendo ficar quieto. Pelo que fiquei muito grata. Eu saltei no ar dando duas cambalhotas e me sentei sobre a cabeça chifruda do monstro estocando minha espada amana várias vezes seguidas sem sucesso. E Uniri pegou alguns pedaços de gaiolas estilhaçados e começou a improvisar flechas de fogo para seu arco. Alôncio pegou seu facão e começou a bater no tórax do monstro compulsivamente e Bandile invocou novamente o poder de seu Ikal. Dessa vez ele levitou ao som de uma grande trovoada e descarregou seu poder elétrico diretamente na testa do demônio. A criatura levou um grande choque e caiu na água. E eu também. Quase fui “ frita “ pelo poder sobrenatural de Bandile, arremessada ao teto da caverna e depois sobre as pedras com graves queimaduras e os cabelos ouriçados de eletricidade como se fosse a “ Rainha dos Caiporas “.

Mas sobrevivemos. E Juru Mawe afundou nas águas. Perguntei a Uniri:

-Ele morreu?

A Curupira apenas respondeu com uma negativa de cabeça.

Achamos melhor não ficar ali para esperar. Bandile havia usado muito de seu poder. E agora estava desmaiado. Alôncio o colocou nas costas. E Uniri ajudou Ariana a subir. Cruzamos o túnel sobre as cinzas dos Caiporas queimados e voltamos ao vilarejo. Que dessa vez, para nosso alívio estava deserto. Fomos para a Casa de Ariana. A maior casa de Santa Lola. E tratamos de nosso ferimentos.

Foi uma aventura e tanto. Naquela noite, Santa Lola pertencia a Ariana e suas meninas de novo. E fizemos um grande banquete para comemorar nossa sorte. Foi aí que descobri que Alôncio era também um grande cozinheiro. E Bandile comeu tanto que havia recobrado quase completamente suas forças. Uniri pegou umas oito garrafas de vinho e ficou bebendo no telhado assistindo o espetáculo da Lua Cheia sobre a Selva Canibal.

Quase esvaziamos a adega de Ariana e no fim da noite, eu, Ariana e Alôncio fizemos amor nos lençóis de cetim da Rainha da Vila das Cortesãs.

E o dia seguinte nasceu feliz.

EPÍLOGO

O sol brilhava sobre a Selva naquela manhã. E Alôncio preparava omeletes. Quando eu e Bandile treinávamos nos jardins de Ariana, ouvimos cavalos.

Sacamos as espadas e vimos dois cavaleiros encapuzados vindo em nossa direção. Assim que chegaram nas dependências da Casa Grande, logo reconheci um deles. Frei Cândido.

E ao lado dele uma moça misteriosa de cabelos negros. Ariana surgiu na sacada e disse:

-Isaura?

Frei Cândido me saudou com a cabeça e falou:

-Encontrei a sobrinha do Velho Zote. Missão cumprida. Já podemos voltar para Bruma Grande.

Bandile me olhou confuso e eu retornei o olhar.

Mas assenti com a cabeça.

Começamos a arrumar as coisas para voltar a Bruma Grande naquela tarde.

Mas aquilo que o demônio falou na caverna não saía da minha cabeça:

“ -É tarde mortais. A minha semente já foi plantada. E logo estarei libertado. A Selva será minha denovo. E todos vocês meus escravos. “

Fim do Livro 1

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