
A frieza européia
Muito se fala sobre a famigerada frieza européia em terras tupiniquins. Da mesma forma que tenho muita dificuldade em aceitar a ideia de calor humano, nunca entendi por completo ao que essa tal frieza se referia. Primeiro que eu nunca havia conhecido bem nenhum europeu. Tampouco me sentia inclinada a acreditar que 740 milhões de pessoas pudessem compartilhar de uma mesma característica comportamental no mesmo perímetro. Após conviver diariamente com os dito cujos e partilhar de ideias, momentos e vivências, admito que me tornei capaz de compreender o que levou à criação desse estereótipo, mas insisto em não concordar com ele. Para melhorar a fluidez aqui, vou dividir por pontos a serem abordados. Tome teu ar, e bora lá!
A Europa não é apenas o Oeste
Que países te vêm à mente quando você pensa em Europa? Alemanha, França, Portugal, Espanha, Itália? Talvez Bélgica, Noruega e Suécia também. Pois é, não pensou em Armênia, Azerbaijão, Bulgária e Moldávia? O continente europeu é um sopão de diferentes culturas, línguas, povos e etnias. Naturalmente, os vizinhos mais eminentes acabam ofuscando seus parceiros economicamente ou socialmente mais frágeis. Quando nos referimos a Europeus, há uma cambada de gente envolvida. É legal tomar cuidado. Quantas vezes meus amigos gringos abriram a roda de dança e me colocaram no meio porque eu sou latina. Ah, doce decepção a deles.
O que é a Frieza?
O que seria essa frieza? Ao que ela se refere?
O que você quer dizer quando diz que alguém é frio?
Significa que a pessoa não gosta de contato corporal?
Ou que um estranho não lhe sorriu de volta na rua? Ou não lhe deu bom dia?
Será que você não está julgando alguém antes mesmo de ver como a pessoa se comporta ao se sentir confortável?
Será que a sua ideia de frieza não está diretamente relacionada a sua definição de limite/espaço pessoais?
Ser considerado frio por alguém te faz imediatamente alguém insensível?
É possível ser socialmente frio e amável/carinhoso?
Não estamos confundindo as coisas e trazendo diferenças culturais ao campo do individual mais uma vez?
Diferenças culturais não definem caráter
Tendo comentado sobre a diversidade no primeiro tópico, vou deixar claro que agora prosseguirei utilizando minha experiência com Finlandeses na argumentação. Os quais, tendo a fama que têm de antissociais, acabam servindo direitinho para desconstruir a ideia.
Um dos primeiros choques culturais que tive ao chegar no país do gelo foi fazer uma viagem de trem que durou quatro horas em completo silêncio. E não pense que meu vagão estava vazio ou algo do tipo; estava lotado. Finlandeses prezam muito pelo espaço pessoal. Mesmo que você esteja cercado de amigos num espaço público, você não vai querer invadir o espaço pessoal das pessoas ao seu redor causando tumulto ou barulho. Recém chegada, eu ainda não compreendia essa mentalidade. Foi assustador. A sensação era de ter pego uma carona no barco de Caronte. Nas semanas que se seguiram, eu consegui compreender como um brasileiro, à primeira vista, pode comprar a ideia de frieza. Todos ao seu redor parecem distantes, se não totalmente indiferentes à sua existência.
Aqui é que entra a utilidade de uma real experiência intercultural, para ir mais longe. Dificilmente um Finlandês vai te dar bom dia na rua, ou te sorrir de volta. Não é assim que a sociedade deles se estrutura. Seja pelo clima congelante a maior parte do ano ou pelo anseio pela eficiência para se sobreviver nessas condições, eles prezam pelos espaços privados e pela sinceridade. Conversar com um finlandês pode parecer uma tarefa impossível à primeira vista. Eles podem parecer aborrecidos, ou simplesmente desinteressados. E muitos provavelmente estarão. Mas dificilmente um finlandês te negará ajuda ao te ver perdido na cidade. E mais: se quiserem te conhecer, eles vão fazer por onde. Lembra o que eu falei da sinceridade? Pois é. Eles são bem fieis aos próprios ideais. Depois que você consegue engatar uma boa conversa, ela rende.
Das intenções
Você deseja o bem de todas as pessoas para quem ‘cê desejou bom dia?
Você está realmente interessado nas coisas que todas as pessoas para quem ‘cê perguntou como estavam sentem ou pensam?
Quantas das pessoas aue você engata conversa por conveniência você pode chamar de amigos?
Você realmente se importa?
A gente fala por educação, porque fomos ensinados que é feio dizer, seja pelo corpo, seja pelas palavras, que a gente não tá nem aí. E tá tudo bem! Isso é a cultura agindo na gente, a mesma cultura que faz com que estrangeiros comentem como o brasileiro é caloroso. Mas, por trás disso, somos duzentos milhões de tímidos, extrovertidos, introspectivos, conversadeiros…
O que não vale é querer se colocar num molde para preencher um lugar-comum, ou utilizar de uma característica para contestar algum tipo de superioridade e, assim, se afirmar como povo. Isso é procurar orgulho nos lugares errados. Quantas vezes você já ouviu alguém dizer, em tom oficial, que o Português é uma das línguas mais difíceis do mundo para se aprender? Peraí. Não precisa de muito tempo para perceber que a afirmação é suspeita; (baseado em que estudo? mais difícil no ponto de vista de quem ou do quê?)
A gente parece trocar os pés pelas mãos de vez em quando nessa de se valorizar, buscando, de certa maneira, maior aceitação a partir do olhar estrangeiro do que vinda de nós mesmos, através de uma profunda reflexão acerca de nossa identidade e ligação com a terra que nos cria. E essa reflexão não deveria resultar em nacionalismo demais, ou em usar o problema dos outros como escadinha. Mas sim nos fazer perceber o valor que nossa cultura (como qualquer outra) possui. Essa, sendo algo em constante movimento, deve ser valorizada como, para bem ou para mal, o cerne daquilo que nós somos.
Na próxima vez que um europeu só der a mão ao te conhecer, segura o choro e segue em frente.