Altruísmo

O melhor presente é o desapego do passado

Tenho dormido mal, dormido muito mal ultimamente. Uma insônia que me toma a mente de forma bem diferente daquelas de quando eu não me esforço o suficiente para ter um dia produtivo. Naquela madrugada de sexta-feira eu dormi bem, depois de boas horas rolando na cama buscando pregar os olhos. Eu consegui pregar, sonhei algo diferente e de tão diferente consigo relembrar as cenas mesmo se passando quase 24 horas depois desse sono. É sempre um grande esforço tentar lembrar do sonho segundos depois que acordo. Eu lembrei e vou te contar o que aconteceu.

Naquele cenário escuro e juvenil, me encontrei com duas pessoas que pela feição se parecem muito com amizades recentes que fiz. A gente parecia estar numa cena da Malhação, mas não da Malhação de 2002. Rimos bastante numa rua, e decidimos ir para uma festa. Na verdade, era um show de um conhecido meu, mas que só descobri de quem era quando chegamos lá. As duas ficavam me cutucando quando eu falava o nome desse conhecido, como se fôssemos adolescentes implicando com o “gostar de alguém”. Num determinado momento, eu falei. Abri minha boca e disse “parem, eu não voltei no tempo pra estragar o presente dele”.

Depois de falar isso com tom de irritação, no meu interior e nessa mente estranha, compreendi que eu podia controlar meu sonho. Ali eu estava com meus próprios vinte anos, minha idade atual, mas entendi que tinha voltado dois anos para conhecer alguém que só faria parte da minha vida depois de viver aquele presente. Eu simplesmente voltei no tempo para entender o caminho que você fez para chegar até o hoje, o nosso presente.

Ouvi muita gente falando seu nome, procurando por você, mas eu custava para ver seu rosto. As duas amigas que estavam comigo falavam para eu olhar para você, me empurravam até você. Me vi então num cenário que não era meu, num momento que não era meu e numa hora que não era minha. Aquele momento era seu, e eu respeitei isso abrindo os meus olhos.

Realmente sonhei isso, mas foi um empurrão para escrever sobre desapegar do passado. Desapegar do próprio passado é muito difícil, você confunde com esquecer seus caminhos e apagar o que viveu. Desapegar do passado de alguém é mil vezes mais difícil do que relevar seu próprio passado. Para ser mais direta, vou simplificar. Desapega do passado de alguém que você ama, de alguém que você convive ou de alguém que está por perto. Essa pessoa já viveu aquilo, é uma bagagem que só ela pode carregar e, que nesse caso, só depende dela também desapegar dele.

O relacionamento, qualquer relacionamento, seja de namoro, de amizade, de casamento ou até mesmo os fatos, têm passado. O passado faz parte da pessoa, fez parte do presente dela, formou-se ali um bom presente, que hoje virou passado. Não quer dizer também que, por ter virado passado, tenha sido um péssimo presente.

Apenas desapegue, não queira se comparar, e não se alimente de pensamentos ruins. Viva o presente com essa pessoa, tenha seu próprio presente para que tenham juntos o próprio passado. Não viva o passado de ninguém, e nem impeça de alguém não ter seu próprio passado.

Eles foram meus passados namorados, elas foram minhas passadas namoradas, foram minhas amizades e foram comigo um presente.