ESSA NÃO SERÁ MAIS UMA DAQUELAS HISTÓRIAS QUE VOCÊ OUVE E QUE TEM FINAL FELIZ.

Fechar ciclos, fechar portas, encerrar capítulos. É importante concluir as coisas. Assuntos mal resolvidos tomam proporções imensuráveis. Dar números, apêndices e ressalvas para as coisas também é importante.
Eu venho de longo inverno na minha vida. Um inverno tenso e que me castigou demais. Agora está na hora de entrar na primavera e receber o novo ciclo, a nova estação dentro de mim.
Às vezes quando eu chorava noites a fio agarrado ao travesseiro enodado em lágrimas que secavam com o passar das horas tristes, você tentava me confortar com algumas palavras doces. Era pouco pro que eu sentia. Num belo dia você parou de sentir. Parou sem mais nem menos. Era um dia normal, de sol, o tempo estava firme e tudo corria como eu planejava. Don’t Cry do Guns N’ Roses era nossa música. Não precisasavamos dançar mas no toque da pele sabíamos que nos perteciamos. Não éramos donos um dos outros. Man down. I’m down. Éramos almas irmãs,ligados por algo inexplicável, quase cósmico. Quase mágico. As vezes você me olhava com outros olhos. Às vezes me olhava com os olhos dos outros.
Ciúmes doentio, espumava pela boca só de me ver conversar com meus amigos. Dava sermão de quem eu deveria ou não conversar. Às vezes eu olhava suas asas imensas tatuada nas costas e via que você queria alçar vôo. Nunca admitia as quedas. Era um Ícaro fracionado, sem nenhuma outra chance. Uma vez tomando banho você me perguntou se eu realmente queria alguém como você. Eu na hora respondi que sim,mas escolher estava aquém do meu raciocínio. Eu realmente vi que você era o que eu realmente queria pra mim. Agora eu estou aqui, sozinho, enquanto você está do outro lado do oceano. Estou equilibrando pratos de porcelana que podem se quebrar a qualquer momento.
Então chegamos em casa. Eu me sentei no sofá. Cansado. Joguei os sapatos num canto, a bolsa de outros, as pernas pro alto e comecei a olhar o celular. Muitas notificações. Dentro de um mês estreariamos um novo espetáculo. Eu estava tão cansado. Ele me chamou de canto. Precisamos conversar! Olhei no denso e profundo oceano dos seus olhos e respirei. Fala… Eu não sei se a gente deve continuar junto. Eu sei que a gente ficou um tempão juntos e deu certo… Mas eu não sei quanto tempo vamos poder ficar junto. O que você tá querendo dizer com isso? Que acabou? É… Eu acho que nós vamos poder ficar mais tranquilos.
Quem vai ficar mais tranquilo? Eu? Você ? Quem? — Eu não saberia responder diante de tanta mentira. Eu fui embora dali, sem dizer mais nada. Chorei por sete dias. Não liguei pra ninguém e nem pra nada por sete dias. Não atendi ligações por sete dias. Durante sete dias vivi em luto. Morri. Foi uma morte necessária que nunca tinha vivido e que precisava de um tempo meu pra saber digerir aquela dor. Aquela dor imensa e aquele vazio medonho que me assolava. Foi o tempo necessário que precisei para enterrar para sempre sete meses de algo que me preencheu por inteiro. E que em sete minutos tirou-me tudo. Estou parado em frente ao mar olhando o pôr do sol me perguntando aonde está você agora?
Estou equilibrando pratos de porcelana que podem se quebrar a qualquer momento.

IAN BOATO.