Melhor que te esqueçam ou que continues cego. Ou Ensaio para um homem invertebrado.

Que antes de tudo eu lembre de despedir de todos antes de ir. Quando as coisas não vão bem, nem pra pessoa que vai, nem pra pessoa que fica — a solução é simples, decidir se vai se despedir. Para os que vão é sempre mais fácil chegar numa conclusão. Primeiro se fala de vida e depois de amor. Depois se ama e resolve-se em poucas palavras, abraços e trocas de afeto. O que demora pra ser jogado fora é o que nós criamos. As desconfiança​s, cobranças, as mentiras e os porquês. A própria ciência diz que, após a morte o parente mais próximo pensa em colocar em dúvida o amor pelo outro. Ah, mas o que a ciência entende de sentimentos?

Pensando agora em falar de afetos​ e desafetos, os desdobramentos desta conversa podem ir longe. Mas sem mais delongas o que te move para amar o pintor de paredes, a prostituta ou o herege? Confesso não ter riscado da minha lista de coisas a fazer a opção “amar o outro como a ti mesmo” até porque eu não tenho praticado muito o meu potencial divino dentro de mim. E isso talvez seja o meu Deus falando dentro de mim: você precisa prestar mais atenção ao que eu disse! Ora! — sendo assim meu jeito de dizer é: o afeto eu demonstro por outras vias . Por vias criativas ou às vezes em crise existencial. E o que melhor que uma crise existencial para nós colocar em xeque? E ai a pergunta que vem é: o que é realmente possível para um homem de afetos?

Agora eu venho pra disparar uma série de questionamentos possíveis para uma pessoa de afetos. Prepare-se. O espelho que reflete nossas escolhas se quebrou muito cedo. Tenho uma segunda opinião sobre o que ou quem cruza meus afetos e faço disso os meus atravessamentos pessoais. E transformar isso em questão pro meu dia tambem me traz a obrigação de compartilhar, pelo menos um dia que seja, um afeto em troca de outro. E agora o seu espelho de afetos vai continuar quebrado ou você​ vai colar os cacos? Agora voltemos ao início. Eu disse que primeiro se fala de vida e depois se fala de amor. Amor fraternal, amor de amantes, amor de mãe é filho, amor de sexo, amor de Deus, amor de estar com os seus. Chega uma hora em que nós seres viventes nesse mundo, cansamos de nossa natureza e dizemos: chega. O cansaço toma conta de nossas idades, nos trazendo rugas, falta de açúcar no sangue, vícios e excesso de tesão. E aí ficamos velhos enrrugados, hipoglicêmicos, fumantes, alcoólatras e drogados e tarados por qualquer um. Prejudicados pelo futuro, afetados pelo passado. Premonitório no primeiro momento? Talvez sim. Mas tão perto do real. Mesmo que nossa imbecilidade nos leve aos acontecimentos reais, teias de ideias nos levam a crer de que tudo isso é por falta de AFETO. Estamos racionalizando mais e amando menos? Pode ser. Mas então o que nos tornou a máquina que somos hoje? A quem queremos enganar com 'amor é fundamental’ quando odiamos o cara que limpa vidros na minha empresa.

A verdade é única e exclusivamente de você para você mesmo: você vai morrer e não vai saber se amou o suficiente. Não vais saber se o contrato assinado com Deus ou o diabo é vitalício, não vai saber se suas teorias funcionam. Depois de morto muita coisa vai mudar e todos os que ficaram ou vão chorar muito sobre o teu túmulo ou vão sambar no teu caixão. Porque depois de morto, embaixo da terra, à sete palmos, ninguém vai ligar pra você ou suas dúvidas sobre a existência do divino. Então é melhor que você brigue mesmo, peça o divórcio, seja expulso uma vez de algo, imite sua irmã, cante o seu vizinho, coma quem quiser, de um tapa na cara de alguém e que você se toque depois e diga o quão infame e infeliz você é. E que sua vida se resume a uma merda. Que você se comporta como um animal selvagem, que você polui, mente, rouba, mata e é corrupto. Que você pense numa segunda-feira “não vou trabalhar” porque sua preguiça mata sua vontade de ganhar dinheiro. Mas que você levante a sua bunda da cama e vá trabalhar e quando chegar no escritório faça uma cara de Norman Bates e que olhe cada pessoa da sua sessão imaginando a cena do Psicose. Que você use esse texto pra emergir dúvidas e que não tenha respostas ao ler. E que você se frustre. É como eu sempre digo: melhor que te esqueçam ou que você continue cego.

Ian Boato.

[Ensaio n°4]