O RASGO ABSOLUTO 
Reflexões para uma para uma prática artística [Ensaio]

Esboçar ou delinear de forma uma pesquisa de um coletivo de artistas no campo das artes é uma tarefa muito difícil. Ainda mais quando essa pesquisa trata não só de questões práticas (cênicas, corporais, etc.) mas também, e principalmente, da invisibilidade que permeia todo processo e a cena propriamente dita. Por isso, esse ensaio não é uma sistematização de um processo e sim reflexões acerca do que tangencia um trabalho pratico, o (in)visível, o detalhe, a grandeza das insignificâncias que compõe toda e qualquer atividade artística.

Executar uma atividade artística não está só na mão do artista, está na mão do médico, do advogado, do jornalista, do professor do faxineiro, do jardineiro, da dona-de-casa. “Todo homem é um artista http://arte1.band.uol.com.br/todo-homem-e-um-artista/, desde que execute sua atividade com destreza e esteja inteiramente “encarnado” nela. Então o que cabe ao artista de fato? O que diferencia dos outros?

Ser artistas implica em morrem e (re)nascer constantemente, implica em estar em sacrifício a todo e qualquer instante “...é necessário cometer um assassinato”. Assassinato devemos cometer diariamente, é uma decisão implacável e irreversível para transformar-nos em um ser lúcido, consciente de nossos atos. Ser artista também implica em “mudar de direção e abandonar o conhecido, que se ama por um desconhecido que não se pode amar ainda e cumprir um ato de fé”. Entrar no desconhecido é colocar-se inteiramente em RISCO. Risco é uma palavra que traz em sua fonética o próprio ato de riscar. Observe que a consoante R provoca trepidações na corda vocal, na garganta, é como se algo dentro da gente rasgasse. RISCO então é RASGAR. Nesse sentido, o desconhecido se constrói pelo risco de rasgar. Rasgar o que? Talvez o absoluto inflexível dentro da gente. Absoluto constituído de incertezas impregnadas de outros, que não somos mas procuramos SER.
RISCO É RASGAR O ABSOLUTO. É isso que constitui o Coletivo da Primeira turma de formação do CLAC da tarde . Desde o seu nascimento ele traz consigo o destino trágico: o de rasgar a si mesmo. Seu edifício espiritual confortante é o CORPO. Não só o corpo físico, mas principalmente, o corpo intelectual, o corpo emocional, o corpo lúdico, corpo sensível-intuitivo, o corpo plástico expandido e o corpo espiritual. Corpos que procuram na mobilidade um estado de SER.

“Ser ou não ser, eis a questão”? Não, não é mais questão. SER é a solução. Não pensem vocês, caros leitores, que cheguei a esta conclusão, por mérito meu. Não. Foi preciso me despir de todos os meus pré-conceitos e não só escutar como também auscultar um morador de rua, que vive nesta condição porque é um autônomo suficiente para fazer esta escolha. Foi ele quem me disse isso com um sorriso carente de dentes e um escarnio absoluto pela da minha autonomia.
Se ser é a solução, buscamos SER em nossa plenitude pela falha do outro e o outro que é minha continuidade sendo meu espelho me mostra que a FALHA é o único caminho possível para SER. A falha enquanto o lugar do entre, do relacional, do cientifico, enfim o lugar como espaço imaginário; e é pela experiência da falha que encontramos o espaço-tempo da nossa existência.

A nossa existência se dá pela “encarnação” de nossas ações. Quanto mais atingimos, mais “encarnamos”. Encarnar assume o sentido de se apresentar para o mundo, porque tudo está no plano do imaginário e das abstrações, o ato de encarnar é de constituir uma materialidade. O movimento produzido por um corpo atento, intenso e vivo em uma cena-não-cena é a materialização ou encarne de um corpo plástico no espaço.
O corpo plástico, diferente do corpo físico, é um corpo que vibra internamente êxtases constantes, quase orgásmiscos; tão cheio de intenções verdadeiras, desejos e não-desejos que não há espaço para os órgãos, se constitui em um corpo sem órgãos. O espaço interno criado a partir da compressão dos órgãos possibilita uma expansão do corpo físico, quase um corpo dilatado; e quando o corpo está neste “estado” torna-se intuitivamente plástico e completamente estético pela via não racional.

Podemos dizer que o Coletivo navegou, e muitas vezes naufragou, por um terreno desconhecido do acaso. O acaso existe? O acaso torna-se objetivo. O acaso-objetivo é o “encontro de uma casualidade externa e de uma finalidade interna”, através da falha, ou brecha, interstício (pequeno espaço vazio entre o todo), lugar do entrevisto, entredito, espaço onde se vacila, rasgo, greta, fenda, fratura, entremeio; via símbolo que constitui-se na criação da psique.

Um símbolo não significa, ele evoca e focaliza, ajunta e concentra, de maneira analogicamente polivalente, uma multiplicidade de sentidos que não reduzem a uma única significação e nem mesmo a umas poucas significações. O símbolo reconduz os dados concretos e separados de diversos níveis do real ao seu estado interior, o que permite reunificar seu fluir primordial. O símbolo restitui ao homem da visão o espetáculo de um universo em um estado nascente, tornado cristalizado, solidificado, opaco e como que fechado ou proibido ao homem do pensamento. O Coletivo procura navegar pelo lugar do estático, do espiritual, do simbólico e do sensível, no qual faz parte conceitos abstratos do entendimento, no caso o próprio mundo da lama e do cosmos.

Os instrumentos de navegação ainda são muito precários, estamos à procura do entendimento pleno e conciso destes instrumentos, mas o oceano por onde navegamos se mostra muito além da capacidade técnica dos instrumentos disponíveis atualmente. Então antes de desenvolver os instrumentos procuramos desvendar este oceano desconhecido, elaboramos uma cartografia móvel e flexível: uma cartografia do (in)visível, repleta de afetos; cujo único princípio é “o grau de abertura para vida que cada um se permite a cada momento.”

Para isso elencamos alguns elementos que foram investigados e vivenciados, muitas vezes de uma forma não muito precisa, mas que incitaram nossos corpos de uma forma muito genuína para as ações: o Espaço, o tempo, a Relação. O Eu e o Cosmos.
O objetivo deste texto foi ser um pensamento-fluxo-acontecimento. No desenrolar de cada linha um impulso genuíno estava presente. O movimento das ideias encarnadas faz-se como uma dança, uma dança cósmica que permeia todo universo natural e do humano; humano que é todo SER; ser que sou: coletivo, flexível e ambulante.

Não tive a pretensão de esgotar o pensamento sobre os assuntos aqui tratados, deixei várias lacunas para ser preenchidas por você leitor-atuante. A indizibilidade deste texto é absurda, por isso é necessário ter ouvidos ter ouvidos e olhos para o (in)visível, porque sem dúvida, o INDIZIVEL É A ALMA DA PALAVRA. Não significa que executo e vivencio plenamente tudo que está escrito neste ensaio, apenas tive um momento de lucidez e pude ver de uma forma muito clara o caminho que trilhamos, na maior parte inconsciente, que agora trago, com este ensaio, à luz da consciência pensamentos, conceitos e teorias que nortearam todo o processo prático do primeiro semestre do CLAC — CENTRO LIVRE DE ARTES CÊNICAS.

Acredito hoje plenamente nas palavras que escrevi, isso não significa que eu acreditarei amanhã. Mas de qualquer forma agradeço a todos que de certa forma contribuíram para a materialização deste ensaio e principalmente a André Capuano que me incitou de uma forma muito genuína e verdadeira ao longo do processo, Paula Petreca que guiou com maestria um processo coletivo corporal e existencial do trabalho “Certas Coisas Não Devem Ser Nomeadas”, à Luciana Bortoletto que neste primeiro semestre foi de extrema importância e relevância para nos colocar no foco do nosso Corpo em Rito e transformando o trabalho num atravessamento pessoal criativo. À Wilson Honório da Silva nosso grande mestre que com muita vontade e perseverança conduziu nosso processo estético e de história da arte, ampliando nosso ser para que a deriva não fosse algo sem embasamento. Aos alunos, funcionários e parceiros do trabalho e do CLAC que se propuseram a trabalhar em nossa “““formatura””” e que de forma mútua compartilharam essa deriva na noite. Agradeço às pessoas que futuramente ao ler-ouvir este ensaio poderão perceber sua importância e sua condição de mudança para uma realidade mais coesa e clara. Agradeço à Joseph Beuys, à Marx, aos mentores teóricos que permeiam este universo do ABSURDO E ABSOLUTO e que fizeram disto o seu processo pessoal também. Agradeço cada pessoa que circula por mim e que está repleta de energia e troca isso de forma genuína.