Derivacivilização: Ian Ramil na guerra dos mundos

Por Moysés Pinto Neto

A audição de Derivacivilização combina viagem ao experimentalismo musical e asfixia da condição política dos nossos tempos. A poesia das letras de Ian Ramil pode enganar o ouvinte e fazer crer que se trata de versos mais ou menos soltos, mas talvez porque esse ouvinte não tenha percebido que a política hoje está exatamente onde não parece estar. Não porque não tenha mergulhado em algum estado de consciência profunda que apenas a iluminação intelectual poderia alcançar, mas porque está desatento para o fato de que a crise está exatamente na superfície, na superficialidade de uma civilização que alimenta, antes de tudo, um ritmo de vida sufocante em troca de recompensas pífias banhadas de dinheiro ou, como Ian canta certa hora, ‘molha a mão de quem finge não poder se controlar’. É no natural — em todos os sentidos — que está o nosso problema, e é precisamente nele que Ian toca o tempo inteiro ao longo do álbum.

A abertura, nomeada ‘Coquetel Molotov’, já dá o tom do álbum. Não é preciso lembrar o que significa no cenário brasileiro atual a figura do coquetel molotov, associado aos black blocs e à subversão violenta da ordem desde 2013. Aqui, o coquetel molotov é jogado contra a banalidade do discurso vazio, “papinho de fuder”, e o personagem está no seu dia de fúria. As guitarras entram como se fossem navalhas rasgando a calmaria inicial e a música vai em crescente aumentando o tom a partir do violento ingresso de uma bateria pesadíssima, passando por elementos eletrônicos, versos raivosos que denunciam o “vazio” até alcançar uma espécie de furacão que suga o caos para seu interior, momento em que canta ‘eu vou meter até me acabar’. E, exatamente no momento em que se revolta contra o controle do ‘querem te botar nos eixos’ e ‘ninguém quer liberdade pra ninguém’, o ‘ninguém’ é repetido com uma guitarra que, entre silêncios eloquentes, de navalha se torna chicote em ação.

Somos introduzidos no mundo turbulento e corrosivo que nos acompanhará até o fim. O mundo da ‘Derivacivilização, cuja faixa-título segue em uma calmaria delicada e oposta pelo frenesi de uma bateria em loop soando como um relógio. Ao mesmo tempo em que essa civilização desliza suavemente como a própria flecha do progresso tido como inevitável, é o desconforto que começa pelo cocar (referência óbvia no país que continua seu etnocídio de 500 anos) e enquanto o tempo bate como no relógio ao fundo, repete insistentemente ‘já vai passar’: o fim do mundo está ali na esquina. O ritmo do tempo — a própria imagem da ‘civilização’ na sua condição de destino fatal — gradualmente vai ganhando oposição quando ‘alguém precisa virar o jogo’, frase repetida insistentemente até o fim, pois ‘as coisas não-ditas apodrecem em nós’, verso mais belo de todo álbum e um tipo de síntese que só a poesia é capaz de produzir de tudo que a psicanálise nos ensinou.

Sufocados por um tempo que se acredita incontornável, somos gradualmente conduzidos à imagem da putrefação que se engrandece tal como os ‘grandes feitos’ da nossa civilização, monumentos de cultura e barbárie que, em tempos de devastação ambiental, poderiam nos permitir a singela associação das guitarras cortantes que finalizam a canção com as motosserras que percorrem a Amazônia, enunciando a civilização como túmulo da outras variações de mundo, tal como por exemplo a ameríndia ou das outras espécies animais e vegetais.

Desse cenário devastado, vem ‘Salvo-conduto’, viagem lisérgica que nos remete ao onírico. Canção psicodélica e com toques de dream pop, alterna cenários de sonho que vão desde animais no fundo de uma floresta escura até perseguições de Tom e Jerry, finalizando com a passagem a um órgão de igreja onde se dá uma conversa em espanhol. Despertamos do sonho com a belíssima ‘Corpo vazio’, candidata a hit, de franco diálogo com o primeiro álbum, sobretudo na referência à segunda fase dos Beatles a partir do habilidoso uso de vocais e combinando uma letra agressiva com melodia doce. A balada ‘Devagarinho’ continua a pausa do ruído.

Se ‘Coquetel Molotov’ é explosiva, ’Derivacivilização’ expõe um mundo acinzentado e ‘Salvo-Conduto’ navega no onírico, ‘Corpo vazio’ — apesar da letra sombria — e ‘Devagarinho’ nos conduzem a um ambiente mais solar, sendo a última expressão do amanhecer e um sujeito a acordar lentamente. Aqui, uma brecha de esperança aparece na desaceleração, no ‘ralentar do motor’ depois da ressaca de ontem, de um mundo hiperacelerado e excessivamente conectado, opiniático e movido pela estupidez gananciosa. ‘Ralentar’, curiosamente, é palavra de uso restrito ao jargão musical na língua portuguesa, mas empregada em francês pela filósofa Isabelle Stengers para defender o ‘ralentissement’ das ciências, a ‘slow science’ que, contra o produtivismo contemporâneo, enfrenta a cultura do desempenho e do estresse. Como dito, Ian sabe que a política não está mais apenas nas pequenas guerras do cotidiano cobertas pela grande imprensa nem na linguagem tradicional, mas no ocaso de um modelo de civilização baseado na exploração e devastação de muitos mundos para alimentar apenas um deles (por acaso, o nosso). Fast ou slow food? Quando o álbum suspende a melancolia, revolta e angústia, deixa-se envolver por uma fresta de esperança em um momento íntimo não corroído pela tagalerice virtual (o que pode ser mais íntimo que dormir e acordar com alguém? E o que mais sugam as tecnologias de informação que exatamente o sono?), chamando um “ralentar do motor”, diminuição em sincronia que troca a aceleração do motor da civilização pela calmaria da vida que falta ao nosso mundo cinza. E encerra-se o Lado A.

Artigo 5°’ musica um texto geralmente esquecido em um país cujo esporte preferido é se autodepreciar. Escolhe um símbolo da democracia como pauta política imediata, tarefa que hoje — e aparentemente sempre — é um exercício fundamental. Enquanto a sonoplastia, efeitos diversos e uma batida quase reggae percorrem a música, em dueto com a voz feminina de Gutcha Ramil, rapidamente a força do documento é escarnecida, ao lembrar que ‘se você quiser pode cagar nesse artigo’. Documento do seu tempo, ‘Artigo 5°’ retrata o estado de exceção em que o poder sobrepuja o direito. Segue-se, então, uma paródia de ritmos alegres brasileiros, ‘A voz da indústria’, referência à produção serial de hits e sucessos comerciais, uma crítica subliminar ao que muitos chamam de ‘indústria cultural’ e seu fast food musical.

Passamos a ‘Quiprocó’, balada que novamente remete ao britrock, fazendo uso de vocais abundantemente bem utilizados e com um fundo ensolarado, porém, ao mesmo tempo, contrapondo melodia doce e letra ácida que joga com o ‘eu e o nós’. O quiprocó como imagem do Brasil: um ‘homem só/molha a mão de quem finge não poder se controlar’ e ‘para o rio/pra passar/se ele morrer/tanto faz’. Belo Monte, por exemplo? O avanço da civilização sobre o rio, metáfora perfeita do Brasil atual, que prefere os sonhos industrialistas e da velha noção do progresso a uma compreensão alternativa da sua riqueza natural e da possibilidade de repensar as formas de vida a partir de outros modelos. Outro belo verso aqui: ‘Eu somos nós’. O jogo de espelhos entre o eu e o nós vai mostrar exatamente o quiprocó em que estamos enredados, pois nós somos o ‘homem só’ e ‘o rio’, ou seja, estamos no lugar dessa aporia entre o dentro e o fora da natureza e do projeto de destruí-la para construir magníficas fábricas de energia para mover nossas vidas em direção ao nada. ‘Eu somos nós’, ao mesmo tempo, é uma verdade para a filosofia ubuntu, recentemente disseminada pelos estudos afrobrasileiros e pela plataforma Linux, exemplo de experiência bem-sucedida de open source que rompe preconceitos ‘antiprimitivistas’ ao mostrar convergências entre formas culturais de outras civilizações — outras derivacivilizações— e a ponta criativa da tecnologia. O contraste entre essa canção docemente corrosiva e ‘Rita-Cassete (a re par ti ção)’, pura experiência sonora, é gritante. “Em Rita” todo tipo de sonoplastia irriga a ambiência confusa, inconstante, escura e pesada que parece refletir. A estrutura quebradiça encurta ainda mais esse lugar claustrofóbico cheio de ar. Ouve-se ecos de Pink Floyd, Radiohead e do trip hop por aqui. Finalmente, ‘Não vou ser chão pros teus pés’ é dotada de um groove pesado, entre funk e jazz, firmemente conduzido por uma linha gorda de baixo, bateria pesada e agressivos solos de guitarra. O Lado B, é ainda mais variado, sombrio e experimental que o Lado A (este mais pleno de singles), como costumavam ser nossos antigos LPs que celebrizaram a expressão ‘Lado B’ para tudo que significa o verso mais sombrio das coisas.

O álbum de Ian estabelece, na minha perspectiva, um diálogo com os últimos trabalhos do Radiohead, especialmente a partir de ‘Kid A’, incluídos os álbuns solo de Thom Yorke. O trabalho conceitual, a multifacetada utilização de efeitos e múltiplas camadas sonoras, a experimentação constante combinada a uma visão distópica de um futuro devastado é comum a ambos. Enquanto o Radiohead tem nos conduzido a uma distopia maquínica, sombria e desumanizada, Ian desenha a véspera da catástrofe, com a pequena fração lúcida da nossa espécie contorcendo-se para escapar da camisa-de-força da sociedade de controle e arremessando os últimos molotovs antes do fim. Nesse sentido, também é possível comparar a abundância do elemento maquínico nas obras de Thom Yorke em um dos polos colocando no outro a experiência mais orgânica, visceral e humanizada que percorre o álbum de Ian. Na obra do britânico, o corpo dissolve-se no silício e confunde-se com o fluxo de um mundo cujo coração bate como um dispositivo de repetição, numa ambiência marcada pela transição da vida para o estado inorgânico, disperso e automatizado. Thom Yorke nos leva a uma viagem pelas tubulações desse novo mundo pós-humano. Em Ian, no outro polo, o corpo é pura carnalidade, sente a dor de ferida, expressa a indignação política diante da estupidez da violência sem sentido. O corpo ainda sente. A viagem, aqui, é existencial, transição de estados humanos que se relacionam com um mundo exterior cada vez mais sufocante, exasperante, intoxicado. E no entanto ainda resta um corpo para narrar sua própria estória. Uma intervenção política direta e seca, sem tempo a perder com otimismos rasos e mensagens ocas de esperança.

Para onde deriva a civilização? Apesar da natural sensação de impotência diante da esmagadora força da flecha do “progresso” — um progresso que nos produz sofrimento, sufocados na repetição como o loop de relógio que ‘já vai passar’ — Ian abre também uma janela, uma fresta que mostra o impulso criativo a sustentar o que resta de vida para nós. Brechas de esperança que estão nas fendas do apodrecimento coletivo, da nossa existência sufocada pelo medo e exigências irracionais, fagulhas que se abrem como os raios de sol do amanhecer que nos permitem — já que eu somos nós — lutar por algo diferente. Em cada átomo da existência social há um potencial gesto de revolta que fissura a totalidade. Ian nos convida a dançar nessa tempestade, pois, como diz ele, alguém precisa virar o jogo.

Moysés Pinto Neto,
Filósofo, professor universitário e blogueiro
Agosto de 2015


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